segunda-feira, 14 de Julho de 2014

ENTUPIMENTO



Tema estranho, este que escolhi para hoje: entupimento!
Qualquer coisa entupida é muito inconveniente e desagradável. Desde o nariz, até um cano, um sanitário, o intestino, o trânsito, não sei qual deles é pior... Essa desagradável e incómoda condição, resulta do não escoamento do elemento que deveria passar livremente.
Alguns entupimentos são facilmente detectados e outros nem tanto. Alguns provocam doença, outros, inconveniência, mas todos, todos precisam de atendimento rápido.
Digo isto, porque ontem a falar com alguém, dei-me conta como aquela pessoa foi tão livre, tão feliz e hoje, a sua vida está entupida de projectos e trabalhos, que pouca ou nenhuma realização lhe trazem. Esse estado deixou-a sem sorriso, sem gargalhadas, sem tempo para ler um livro ou ir ao cinema. Impede-a de gozar o que tem, de desfrutar a família. O entupimento é tão grande que me dei conta que, a uma certa altura da conversa, o ar parecia estar a faltar-me. (Estarei entupida, também?)
A nossa alma é como uma enorme esponja, que vai acumulando sensações, alegrias, dores, cansaço. Um dia temos que espremer tudo e permitir que ela seja cheia de algo novo. A ideia cristã de vida plena é assim, sem entupimento, correndo livremente, saltando como fonte.
Hoje vou fazer uma boa limpeza à minha alma. Não quero nada entupido por aqui. Quero que a graça, o amor, a alegria, a compaixão e a bondade, passem livremente, sem embaraços ou impedimentos.
Mãos à obra!

domingo, 29 de Junho de 2014

FORÇA PORTUGAL!



Durante poucas horas, o país ficou em bicos de pés para ver a selecção nacional jogar futebol. Esqueceu a crise interna dos partidos políticos, os cortes salariais, as injustiças, o estado social decadente, o desemprego e as faltas imensas do dia-a-dia. Ficou colado aos ecrãs das televisões, comprou roupa a condizer, pintou a cara das cores nacionais e pendurou bandeiras nas sacadas. Uma frase foi dita milhares de vezes, como se tivesse o poder de mudar o correr da bola, a técnica e perícia dos jogadores, “força, Portugal!”
A reflexão que fiz nestes dias de desilusão futebolística, deve ser a de centenas de outras pessoas (digo eu). É que não me lembro de ouvir este grito por mais nada neste país. Os heróis, são apenas 23 homens a tentar vencer um campeonato de futebol? Nesta nação não há mais ninguém a precisar de ouvir esse grito de força? Haverá por aí meia dúzia que se junte a mim para gritar “força, professores de Portugal”, que trabalham incansavelmente para ajudar a educar miúdos deseducados em casa? Alguém se prontifica a dar “força” aos médicos, enfermeiras e pessoal de saúde que, nos hospitais, trabalham horas sem fim, para que as pessoas consigam viver minimamente saudáveis? Aos bombeiros, que arriscam a vida, porque alguém com resquícios de loucura resolve deitar fogo a uma floresta? Aos operários que mantêm as fábricas a funcionar, para que os bens de consumo não faltem a este povo?
A minha lista é enorme, a lista dos tais que precisavam ouvir o grito de força e que, de vez em quando fazia-lhes bem receber palavras elogiosas e agradecidas.
No fim (a meio), a selecção voltou para casa envergonhada, de madrugada, ainda o dia não rompera. As bandeiras foram tiradas, as camisolas guardadas para outros festivais e os bolsos dos jogadores recheados de qualquer coisa que nunca vai passar pela vida dos simples mortais que se desfiguraram a gritar.
Quando é que vamos orgulhar-nos de algo mais que não seja futebol? Quando é que vamos chamar aos pódios deste país os heróis que fazem desta nação a valente, a imortal? Quando será que levantamos de novo o esplendor deste jardim à beira-mar plantado, com os nossos elogios e orgulho pelo que temos?
Reflexão nocturna de alguém que gosta muito de futebol, mas que não vai em futebóis...

quarta-feira, 25 de Junho de 2014

ESQUECIMENTO

Hoje acordei com um pensamento estranho a martelar-me as ideias: um dia ninguém vai lembrar-se mais de mim.
São conjecturas próprias da idade. Quando era jovem, nem tal coisa me passava pela ideia. A vida era para ser vivida... não lembrada. Os amigos eram para divertir... não para guardar. As horas eram lentas demais... havia tanto para ver ainda. Hoje, olho à minha volta e consigo ver percursos, estradas caminhadas, pontes construídas, livros escritos. Na juventude, isso era impensável. E vejo também que as pessoas que construíram as tais pontes, escreveram os tais livros e abriram estradas para que outros pudessem correr mais rápido, já nem são lembradas, nem mencionadas, a não ser nalguma placa escondida, só para referência. 
Sentei-me hoje junto à sepultura do meu pai. Daqui a poucos anos, será apenas mais uma campa, no pequeno cemitério da aldeia. Ninguém se lembrará mais dele, do que disse, da sua voz forte a cantar, do seu entusiasmo a ensinar, da sua "vaidade" em vestir-se bem, do seu porte digno e erecto, mesmo com muitos anos a pesar-lhe sobre os ombros. É próprio, normal, o esquecimento.
Depois, um outro pensamento, este ainda mais sóbrio, assaltou-me sem eu querer. A Bíblia diz que no céu, "não há mais lembrança das coisas passadas". E esta? Também há esquecimento no céu? Afinal a vida não teve só sombras, também teve luz, porque não poderemos lembrá-la? Não teve apenas lágrimas, teve também riso, não teve só morte, também houve nascimentos...por que não vamos mais lembrar?
Deve haver uma razão teológica e de fé, para este enigma. Na minha fraca opinião, a única que me vem à mente é que lá, voltamos ao principio, à juventude, ao entusiasmo pleno. Porque não haverá mais fim, ficaremos sempre no início, porque não haverá mais sol ou sombra, caminharemos à luz inacessível, porque ninguém morre nem nasce, não haverá mais lágrimas...para quê lembrar o que passou, numa vida que começa?

segunda-feira, 23 de Junho de 2014

DIETAS...

E entrámos na fase crítica das dietas, ou seja, na altura do ano em que as pessoas de repente se lembram que, para vestir um  biquíni ou fato de banho, precisam perder peso (em certos lugares, claro). As massagistas preenchem nas suas agendas todas as horas do dia de trabalho...e mais que fosse.  As ervanárias e farmácias de produtos naturais vendem mais do que é habitual, tanto que os clientes pedem chás e xaropes de frutas mágicas, para perder os tais quilinhos extra.
Mas é mesmo nas dietas que vemos a grande ênfase do Verão desnudado. Há como que uma sofreguidão pelo que é "mais saudável",  já que  no resto do ano comemos do que gostamos e do que não é saudável!
O culto da imagem, o desejo de parecer, a intensa preocupação de ser como este ou aquele, enchem os pratos de saladas, metem o pão com manteiga na gaveta do "para depois do Verão".
Praia, a quanto obrigas! Ah, esquecia um pormenor importante: os ginásios estão lotados de gente que todos os dias resolve malhar para ficar com a tal figura.
Será que temos os mesmos cuidados quanto ao nosso espírito? Que alimentos damos à nossa alma, que exercícios lhe propomos, que dieta imaginamos, para que o nosso olhar seja mais límpido, o nosso falar mais doce, as nossas palavras mais comedidas e  a  nossa interacção mais suave e saudável? E em que estação do ano fazemos tal regime? Uma vez por acaso, diariamente, em momentos de obesidade ou falsa saciedade da mente? O que comemos para substituir tudo o que nos dão a todas as horas em pratos de informação nem sempre realista, em filmes e shows onde a beleza deixou de ser o mais importante para dar lugar ao mais chocante? 
Também tenho uma dieta, em função do que pode trazer benefício à minha saúde e aos problemas que aqui e ali vão aparecendo. Também eu de vez em quando prefiro o silêncio às salas cheias, para fazer uma limpeza na minha mente, restabelecer as prioridades da minha vida.
Afinal não critico as dietas. Depende por que são feitas. Só isso.

sábado, 14 de Junho de 2014

A DANÇA DAS PALAVRAS

Na minha frente tenho uma página branca. Para que ela ganhe vida, poderei fazer um desenho ou escrever palavras. Desenho, nunca. Nem sei como começar. É como se o traço fugisse para um mundo que nunca existiu, tão estranhas são as criaturas que saltam do risco...
Resolvo escrever, palavras. Mas elas têm que fazer sentido. Terei que usar pontuação, para que criem ritmo, ou corro o risco de deixá-las numa dança frenética, que cansa.
As palavras têm que sair de algum lado até chegar ao papel. Saem de onde? Dos dedos? Dos olhos? Do coração? Se é daqui que saem, exponho-me, se não é, são secas, insípidas e desaparecem.
Escrever é isto. Ir ao fundo da alma, trazer à superfície a dor, a alegria, o medo ou a esperança. Depois, é vestir-lhe cores diferentes e ali, direitinhas, começam a dançar. Fazem roda, passam pelos braços umas das outras até que o movimento cria sentido e todos entendem. 
E quando não entendem, é porque nunca escreveram.

segunda-feira, 9 de Junho de 2014

O tempo é uma coisa estranha. Temos muito, mas de repente notamos que já temos pouco. Há momentos mágicos em que queremos que ele pare e outros trágicos em que desejamos que ele passe depressa. Hoje temos todo o tempo do mundo e amanhã reparamos que afinal isso era apenas refrão de canção.
Lembrei esta semana que, quando os meus filhos eram crianças, imaginava como seriam daí a vinte, trinta anos. Chegava junto da cama enquanto dormiam e pensava que tipo de pessoas seriam, quando fossem um homem e uma mulher. Havia ainda muito tempo para viver...
Recordo a força, a actividade, energia e vigor dos meus pais  e como o tal tempo foi roubando tudo isso, até lhes esgotar a vida. O tempo apagou dores, levou recordações, esbateu rostos...
Hoje, temos a nossa vida programada para um certo tempo, mas de repente, tudo pode mudar e num segundo, o tempo que pensávamos seria imenso para fazer isto e aquilo, começa a bater com outro ritmo e em vez de olharmos para os ponteiros do tempo, funcionamos como se o tempo tivesse outra ordem e outro maquinismo.
E Deus? Como funciona Ele com o tempo? Um dia é como mil anos...como é que nós, simples mortais, entendemos tal contagem?
"Os meus tempos, estão nas Sua mãos". Tenho que confiar que cada momento, minuto e segundo do tempo, Ele tem controlado, propositado e planeado. 
Quando nos apercebemos que temos já pouco tempo, ele torna-se mais precioso, valioso e queríamos gastá-lo falando menos e ouvindo mais, chorando menos e sorrindo mais, correndo menos e contemplando mais, desejando menos e desfrutando mais...
Que relógio estranho é o tempo.



segunda-feira, 2 de Junho de 2014

CRIANÇA

Celebrou-se ontem o Dia da Criança. Mas não de todas as crianças.
Enquanto lia citações, vídeos, poemas e pensamentos  mais ou menos adocicados sobre a maravilha de ser-se criança, o meu coração ia ficando mais apertado a pensar nos meninos que não são crianças.
Não sabem sorrir, porque ninguém lhes sorri.
Não sonham "quando for grande, vou ser...", porque lhes foi roubada a capacidade de sonhar.
Não têm cabelos sedosos e corpinhos cheirosos, porque na casa onde vivem não há água e a mãe não tem dinheiro para "coisas" perfumadas.
Não têm festas de aniversário, balões, palhaço, bolo e prendas, porque todos os dias são iguais.
Não têm beijos nem abraços, porque vivem na rua e lá as pessoas viram a cara para não ver.
Não têm histórias na hora de deitar, porque não há livros em casa e dormem quatro irmãos na mesma cama.
Há meninos que não têm direito a ser crianças, neste país, na nossa rua, ao virar da esquina... 
Que juízo virá sobre nós, a quem foi recomendado que não os "escandalizássemos"?  Que fazemos no dia a dia para que eles saibam o que é crescer? O que ensinamos às nossas crianças? Que o mundo é o que eles têm todos os dias ou que a compaixão e a fraternidade podem mudar o destino desses meninos?