quinta-feira, 16 de junho de 2016

MORRER

Como será morrer?
Morre-se, quando o coração perde a vontade de bater.
Morre-se, quando os sonhos desaparecem com a última nuvem.
Morre-se, quando os braços ficam gelados pela falta de abraços e a boca se fecha porque não há a quem beijar.
Morre-se, quando passamos no meio da multidão e ninguém dá pela nossa presença.
Morre-se, quando chegamos à última página de um livro que não queríamos que terminasse.
Morre-se, quando o silêncio é o único som.
Morre-se, quando vemos toda a gente a correr e os nossos pés já não andam.
Morre-se, quando o espelho nos diz que o que está à vista é apenas uma ilusão.
Morre-se, quando não há mais projectos, nem tarefas onde façamos falta.
Morre-se. Devagar. 
Porque nem todas as mortes são rápidas, violentas, inesperadas. Há muitas assim. Devagar. 
Lentamente, como uma vela que se vai apagando e ninguém dá por falta da luz, porque já era tão fraquinha... 


quinta-feira, 19 de maio de 2016

MULHER LEAL

“...O coração do seu marido está nela confiado e a ela nenhuma fazenda faltará..." 

O Coração do Seu Marido Confia Nela 

            Quando penso nesta qualidade de carácter da mulher virtuosa, parece-me ver na minha frente uma enorme rocha – nada pode movê-la! 
            A base mais sólida para qualquer relacionamento é a confiança. Nenhuma relação pode subsistir se lhe faltar este elemento. A desconfiança tem sido a barreira para a continuidade de um bom casamento, para a duração das amizades, para o fortalecimento das relações de trabalho, para a paz entre as nações. 
            A Bíblia tem muito a dizer sobre esta virtude, mas gostaria que abrisses em Gálatas 5: 22, onde há uma lista do fruto do Espírito. No meio dessas variedades maravilhosas do fruto, há uma que se chama fidelidade. Tu e eu podemos confiar em Deus porque Ele é fiel e a Sua palavra é fiel. Somos chamados muitas vezes a confiar n’Ele em todo o tempo (Salmo 62:8) e em retorno, Ele espera que tenhamos esta qualidade em nossa vida. 
            Quando a mulher virtuosa é exposta como alguém em quem o seu marido pode confiar, esta confiança, no seu original, significa,“correr para um refúgio, um lugar de segurança”. A mulher que encontrou o seu valor em Cristo, tornar-se-á um lugar de segurança, um refúgio para o coração e para a vida do seu marido. Ele pode partilhar com ela os seus mais íntimos receios, as suas dúvidas mais estranhas. 
 O Criador olhou para Adão e viu quão solitário ele se encontrava, sem alguém que o entendesse, que lhe desse tranquilidade e descanso. Os animais à sua volta, por mais belos, majestosos ou estranhos, não tinham esta qualidade. Por isso o Senhor deu Eva a Adão. Era este tipo de relação que Deus tinha em mente quando fez a mulher para o homem: “E ambos estavam nus, o homem e a mulher e não se envergonhavam” (Gen 2:25). Esta transparência na intimidade, é como um lugar de abrigo, seguro, que ninguém pode invadir... 
            Há mulheres que nunca adulteraram, que fisicamente têm sido fiéis aos seus maridos, mas têm-nos atraiçoado expondo os seus segredos, as suas intimidades. Nunca lhes passou pela cabeça ter outro homem, mas no entanto, não respeitam o trabalho e esforço do seu marido, gastando o seu dinheiro e economias sem qualquer problema. 
            Outras minam a autoridade dos seus maridos diante dos filhos, dizendo exactamente o contrário daquilo que ele estabeleceu, ridicularizando as fraquezas do pai diante das crianças, criando nestas a ideia que o pai é alguém com quem não vale a pena preocupar-se.

...nenhuma fazenda faltará.

Este homem, cantado no poema da mãe do rei Lemuel, é alguém a quem nada falta. Na confiança que tem na sua mulher está a sua maior riqueza. Pode confiar-lhe os filhos, dinheiro, bens, segredos. A sua mulher pode guardar tudo. O homem é rico! Tem uma mulher que demonstra no seu viver diário o coração de Deus, a Sua fidelidade. Isso é mais do que sonho, é uma realidade feliz. 

Pede ao Senhor agora mesmo, que sonde o teu coração. Se alguma vez falhaste, traindo a confiança do teu marido, que o Seu Espírito te dê a graça de alterar esta situação, de curar esta deficiência, de perdoar esta falta.


quinta-feira, 5 de maio de 2016

JOIA RARA (2)


(Provérbios 31:10)

“Mulher virtuosa, quem a achará? O seu valor muito excede o de rubis...” 
            Depois de estabelecer os valores sobre os quais o trono do seu filho deveria assentar, a mãe do rei Lemuel queria agora dizer-lhe que tipo de mulher o seu filho deveria colocar ao seu lado, nesse trono.       
            O poema que a rainha-mãe cantou, é curioso na sua estrutura. É feito em acróstico, isto é, cada novo verso começa com uma letra do alfabeto hebraico na sua sequência e, embora esta não seja a nossa maneira normal de fazer poesia, é a sua mensagem que tem importância, o seu conteúdo que nos interessa.
Mulher virtuosa... 
            O nosso diccionário diz que virtude “é o conjunto de todos os valores morais”. Segundo a Bíblia, tem a ver com nobreza de carácter, com as qualidades que coroam a vida de um indivíduo. 
            A mãe do rei tinha em mente chamar a sua atenção para essa mesma beleza de carácter que ele devia procurar na sua futura esposa. Muitas mães transmitem aos seus filhos valores errados de beleza, que mais tarde os levam a praticar acções e erros profundos. Quantas mulheres ensinam aos seus filhos que deverão procurar uma esposa entre as “meninas bem” do seu meio, entre as que têm fortuna de família, entre as bonitas e esbeltas e as que têm bons cursos “que dão dinheiro”, esquecendo que nenhuma destas coisas é passaporte para a felicidade num casamento. 
            Estás a orar para que a futura esposa do teu filho seja, acima de tudo, uma mulher de carácter nobre? 
...quem a achará? O seu valor muito execede o de rubis 
            Claro que não é fácil encontrar tal mulher!  Só basta ler os versos seguintes até ao final do capítulo, para concluir que é mesmo difícil possuir toda esta nobreza, todas as qualidades que fazem desta mulher um ser tão especial. 
            Consultei uma enciclopédia para ter uma ideia mais exacta do valor dos rubis e eis o que conclui:           
            “Rubi – É composto de óxido de alumínio e em dureza muito próximo do diamante. Muitas destas gemas são encontradas no cascalho dos depósitos dos rios, mas a rocha-mãe é uma metamorfose de xisto ou pedra calcária cristalina. O desgaste pelo tempo, liberta da rocha a matéria da gema. Alguns rubis contêm “seda”, que é uma interlaçagem de minúsculas agulhas rutilantes que se cruzam em ângulos de 120 graus. Quando há uma grande profusão de “seda”, o corte do minério é mais suave. Esta forma revela a “estrela” da gema quando é vista à luz artificial. Os mais belos rubis vêm de Mogok, em Burma. Outros de cor mais profunda, encontram-se em Bangcoque, na Tailândia, outros de cor mais clara podem ser achados no Sri Lanka. O rubi é uma pedra de muito valor por causa da riqueza da sua cor e também pelas qualidades de duração. Os rubis quase sem falhas são raríssimos e podem ir além do preço do diamante do mesmo corte e tamanho”. 
            Imagino que o rei Lemuel deveria possuir rubis nos seus anéis, na sua coroa, nos ganchos que prendiam os seus mantos reais. Saberia decerto o seu imenso valor, por isso entendeu o que sua mãe lhe queria transmitir. A comparação que ela faz da mulher nobre com o rubi, tem muito a ver com a sua profunda beleza, o seu valor, a sua durabilidade e a maneira como é produzido. Qualquer homem inteligente procurará esta pedra preciosa para a sua vida.
Valor 
1. O valor de uma mulher está no facto de ter sido feita à imagem de Deus. Lê o que está escrito em Genesis 1:27. Esta imagem de Deus está impressa na mulher também. Ela tem a capacidade de percepção de Deus, entende o divino e o sobrenatural, a ela foram dadas da mesma maneira o sentido do que é moral e do que é digno. 
            2. O seu valor reside também na tarefa que lhe foi entregue pelo Criador – dominar e cuidar a terra. O Senhor Deus colocou tudo o que se movia, todos os seres viventes debaixo do governo do homem e a mulher (Gen 1:26,27); a mulher teria parte essencial no desenvolvimento da raça humana, na procriação (Gen 1:28,29). Quando Adão viu Eva pela primeira vez, ele não a viu como “sexo frágil”, mas igual a si mesmo “osso dos meus ossos e carne da minha carne” (Gen 2:23). Viu-a como sua companheira de humanidade, viu-a no seu valor verdadeiro. 
            3. O valor da mulher está ainda na redenção operada por Jesus Cristo. Quando o Salvador nasceu, o valor da mulher na sociedade era posto em causa, eram-lhe negados respeito e privilégios, quer a nível político, económico, na educação e na religião. As mulheres judias não eram ensinadas como os homens. Mas Jesus ensinou-as em público! Um homem nunca tocaria numa mulher com medo de ser contaminado, mas Jesus tocou nelas para curá-las. Muitas das grandes verdades do cristianismo foram reveladas às mulheres em primeira-mão. E a maneira de Jesus ver a mulher, transformou também a concepção dos discípulos – elas esperaram pela plenitude do  Espírito Santo, juntamente com eles! Na primitiva igreja, ocuparam lugar de respeito e destaque, basta ler o que está escrito no último capítulo da carta de Paulo aos Romanos. 
            Talvez és uma dessas mulheres a quem a família e a sociedade estigmatizou com as palavras “não vales nada”, “não prestas”, mas se estás em Cristo, tens em ti mesma todo o valor que atrás citei: da imagem de Deus
em ti, do papel para o qual Ele te criou e da redenção gloriosa operada pelo Filho de Deus a teu favor. Já que abriste a Bíblia na epístola aos Romanos, procura o capítulo 5 e verso 8. Aí tens o que faz que tenhamos VALOR! “Mas Deus prova o Seu grande amor para connosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores”. 
            Este é o primeiro passo para ser a mulher virtuosa de Deus, para ensinar as tuas filhas a ser essa mulher e para instruir os teus filhos a procurá-la como a uma jóia rara. Deus colocou na mulher um valor incalculável, por causa do Seu grande amor. (continua)


terça-feira, 3 de maio de 2016

MULHER IDEAL...PRECISA-SE. (1)

Os posts que publico a seguir, fazem parte de um trabalho que, talvez um dia, venha a ser um livro...

A Base de Um Trono
(Provérbios 31:1-9)
  
            Imagina a sala do trono. Tapeçarias, ouro, brilho e esplendor rodeiam o homem sentado naquele assento tão especial. Inclina-se com atenção para uma mulher que carinhosamente lhe afaga as mãos cheias de anéis, que fala pausadamente, como se o tempo não tivesse mais valor e no universo só existisse aquele instante em que as palavras sérias e doces se derramam em cuidado e conselho. Lemuel, o rei, ouve atentamente as palavras da sua mãe. Ao lermos o livro de Provérbios, a palavra da “profecia” da rainha-mãe do capítulo 31, muda a tonalidade puramente masculina do livro e coloca sobre a mulher uma carga feliz de responsabilidade social e observância religiosa. 
 A velha senhora está preocupada em colocar uma base sólida para o reinado de seu filho. Por isso mesmo, propõe-se relembrar-lhe os princípios que irão estabelecer esse reino: pureza sexual, sobriedade, justiça, bondade e...uma boa esposa. 
"Meu filho..." 
É interessante notar como ela se refere ao filho. Palavras apaixonadas, de terna afeição e que denotam uma relação muito profunda entre ambos: “Filho meu, filho do meu ventre, filho das minhas promessas” (v.2). 
Chamo a atenção para este pormenor, porque me parece que muitas mulheres no nosso tempo olham os filhos como se a maternidade fosse apenas “lei da vida”, em vez de alguma coisa tão intensa, tão bela. Encontro muitos jovens que me dizem nunca ter recebido um beijo, um afago sequer das suas mães, quanto mais palavras que minimamente se comparem com aquelas que citámos. Os nossos filhos precisam saber que são importantes em nossa vida, que o amor que lhes dedicamos é profundo e activo, que a ternura que lhes damos é verdadeira, real e este afecto, deve ser também traduzido em palavras e gestos. 
Os conselhos desta mulher são como um apelo profundo, um grito de alerta, uma bandeira vermelha diante do rei: 
Pureza sexual 
            O livro de Provérbios está cheio de avisos contra as mulheres fáceis, que com palavras e actos seduzem os jovens. Parece-nos que a linguagem sagrada está totalmente despropositada num mundo liberado sexualmente, onde a mulher e o homem procuram o seu prazer, seja qual for o preço, onde
não há nenhuma restrição para aquilo que é a satisfação imediata dos sentidos. A somar a isto, temos os exemplos flagrantes de governantes e líderes políticos e religiosos, cujas aventuras e “deslizes” sexuais são o prato favorito dos exploradores da notícia fácil. 
No entanto, ainda que os padrões tenham baixado, a mulher virtuosa de Deus, ensinará aos seus filhos este caminho e esta conduta. O verso 3 indica que a força do homem não está no número de conquistas femininas, mas no caminho de separação do pecado e da pureza sexual. A estrada contrária é de destruição tanta para reis, como para homens vulgares. Ao estudarmos a história dos impérios mundiais, descobrimos como este caminho fácil da sensualidade levou monarcas e tronos à destruição. A mãe do rei sabia do que estava a falar. Ela já vira outros a serem destruídos pela orgia, pela promiscuidade, pela falta de pureza. 
            Quando o apóstolo Paulo pregou aos gentios das grandes cidades de Filipos, Tessalonica, Atenas e Corinto, sabia que a vida daqueles que aceitassem Cristo teria que sofrer uma reviravolta radical, pois o mundo helénico era muito parecido com o nosso. Os homens e as mulheres que queriam seguir Jesus ficavam isolados dos seus amigos e da sua sociedade, ao quererem afastar-se das práticas sexuais do seu tempo e cultura. Por isso Paulo escreveu mais tarde a carta à igreja de Tessalonica e nela os exortou, de uma forma veemente, a abster-se de tais práticas (I Tess. 4:1-7). 
            Como é que vamos ensinar isto aos nossos filhos, num mundo onde há tanto comodismo de ideias, onde tudo parece permitido? 
Temos que instruí-los que o nosso corpo: 
¨      é maravilhoso, mas que temos que conhecê-lo bem para podermos controlar os seus apetites;
¨      que uma vez tornado templo do Espírito Santo, não pode ser maculado com o pecado;
¨      que tem que ser apresentado a Deus, como um sacrifício vivo;
¨      que Deus deve ser glorificado nele. 
            Mostra aos teus filhos que a alternativa para a SIDA não é o preservativo, mas uma vida de pureza e que embora os outros digam o contrário, o que a Palavra de Deus diz é a VERDADE.
Sobriedade
             No dicionário esta palavra significa temperança, moderação, reserva. 
 A rainha alertava o jovem rei para o perigo dos excessos, especialmente em relação à bebida. (vs.4-7). É fácil compreender a razão desta advertência. A embriagues levaria o rei a esquecer-se dos seus compromissos, das leis que ele próprio implantara. Beber era cultural naqueles dias. Nos nossos também. Muitas mães não se apercebem que os seus filhos, ainda adolescentes, estão já consumindo álcool nas festas escolares, nos 
aniversários dos amigos, nos intervalos das aulas. É bem cedo na vida que temos que colocar estas bases de temperança para uma existência saudável e feliz para os nossos filhos. Lê atentamente Provérbios 23:26-35 e ora a Deus para que te dê a coragem de lutar contra este flagelo da nossa sociedade – o álcool. Lares desfeitos, crianças abandonadas nas ruas, miséria, são apenas poucas coisas do efeito da bebida sobre a vida das pessoas. Um dia, os teus filhos serão líderes na sua casa, nas sua empresa, na sua igreja, quem sabe até no governo, e esta base que estás a colocar sob a sua vida pagará dividendos gloriosos. 
Justiça
            “Como é que vou ensinar justiça, se tudo à minha volta grita exactamente o contrário?” Bem cedo na vida, os nossos meninos aprendem o que é injustiça, às vezes até no lar! Como é possível ensinar-lhes este conceito?  
            A mãe do rei sabia quão importante era para o seu filho “abrir a sua boca a favor do que não pode falar e executar o direito de todos os que se acham desamparados” (v.8). 
            A mulher cristã tem uma grande responsabilidade em colocar estas sementes de justiça no carácter dos seus filhos. Justiça não tem apenas a ver com o que é certo ou errado para o bem dos outros, mas antes em fazer o que é recto aos olhos de Deus. Estuda a história de José, marido de Maria e ali verás espelhado o que quero dizer. Segundo a “justiça” humana, ele deveria deixar Maria, pois a sua gravidez só podia dizer que ela lhe fora infiel. Mas José preocupou-se mais em fazer “justiça” segundo Deus e aguentar os resultados das suas acções. Cada uma delas, mostram a sua grandeza de carácter e o princípio que alicerçava a sua vida – fazer a vontade de Deus: 
¨      Ao casar com Maria naquela pressa, quebrou todas as tradições, mas protegeu a reputação da sua noiva.
¨      Ao deixá-la virgem até ao nascimento de Jesus, protegeu o milagre do Verbo de Deus feito carne numa mulher.
¨      Ao dar ao menino o seu nome “filho de José”, tornou-o parte de uma família. 
É este tipo de justiça que temos que colocar como base na vida dos nossos filhos: a vontade de Deus que é sempre perfeita e sempre bela.
Bondade 
É outro conceito que parece não fazer parte do vocabulário moderno. Dá a impressão que está ligado apenas a um grupo restrito de pessoas, que, por terem posses materiais, podem dar bens aos outros e fazer disso um programa de vida. Segundo a Bíblia, bondade é um fruto do Espírito Santo e na vida dos nossos filhos, esta semente tem que ser colocada pelo nosso exemplo. Pequeninos actos, simples gestos, acções mínimas, podem ensinar-lhes o que está em plenitude no coração do Pai Celestial. Ele é um Deus Bom e deseja que os Seus filhos também o sejam. 
        Já leste as “Mil e Uma Noites”? Pois a conversa que a mãe do rei Lemuel teve com o seu filho, parece uma dessas histórias! 
            Ela estendeu as pernas, colocou-se numa posição mais confortável. Os servos correram para atender algum desejo do seu rei. Mas ele queria apenas ouvir... 
Estava preso das palavras da sua mãe, da sabedoria do seu amor e da segurança que o seu ensino lhe proporcionava. Quando ela alvitrou cantar-lhe um poema, ele acedeu. Além disso, ela tinha dito que nesse poema lhe daria o retrato da mulher ideal. Como poderia resistir?













 







quarta-feira, 20 de abril de 2016

O CAMINHO

À medida que os anos passam e a vida vai-se esvaindo entre os intervalos da minha loucura, de repente, descubro que a estrada vai ficando mais estreita. As amizades ficam mais escassas, a saúde mais curta, as capacidades menos reconhecidas, a saudade mais profunda, a paixão difícil de acender, o mundo mais escuro, a esperança mais ténue, os livros mais relidos, as fotos mais gastas, os olhos mais focados, o coração batendo num ritmo mais lento...As montanhas parecem mais altas, os mares mais profundos, as pontes mais distantes, as praias mais inacessíveis, as canções cantadas a medo, as lágrimas mais difíceis de saltar... 
A estrada é agora mais estreita e no entanto, lá ao fundo, há uma luz que nunca vira antes, quando tudo era azáfama, ardor, força e presença dos que amo. O caminho fica mais íngreme e tenho que parar de vez em quando, mesmo por que, numa curva inesperada, a paisagem é deslumbrante. A luz fica mais próxima. Agora a estrada é um carreiro no meio de um bosque. Só tem lugar para uma pessoa. Daqui para a frente não há como me perder; os atalhos acabaram, os sinais ao longo do caminho desapareceram, o silêncio é só quebrado pelo chilrear dos pássaros e pela minha respiração. Mas não há tristeza. É como se eu soubesse há muito tempo, que este caminho só é meu, que não tenho que partilhá-lo com mais ninguém, que as águas que correm no rio ao lado são só minhas e que as flores que crescem na beira do carreiro estão lá por minha causa. 
A luz é mais forte agora. Mas mesmo sem escolher, sinto que alguém resolveu seguir o mesmo caminho. Os passos na vereda ficam mais próximos e o desconhecido fala comigo sem pedir licença. Invade os meus pensamentos, põe a nu o meu coração, penetra a minha mente com palavras que me seguram e, de repente, dou comigo a pedir-lhe: "Fica comigo, porque é tarde e o dia já declina"... Afinal, a vereda dá para caminharmos os dois, juntos, para a luz...

quinta-feira, 14 de abril de 2016

NORMAL

Gostava de escrever sobre coisas extraordinárias, lindas, deslumbrantes, únicas. Gostava muito. Mas a vida não as encontra a cada esquina. Quando aparecem, até nos faltam as palavras, de tão raras que são. E limitamo-nos a gozá-las e a não querer que ninguém nos tire nada do que sentimos. Fora desses acontecimentos esporádicos e raros, a vida rola normal. 
E estive a pensar, o que será isto de "normal"? Levantamo-nos e tomamos o mesmo pequeno almoço; pegamos na carteira e quando chegamos ao carro lembramos que deveríamos ter trazido um saco com algo necessário. Chegamos ao trabalho e descobrimos que uma colega amiga, não está. Procuramos saber o que se passa e alguém, com os olhos baixos, diz que o marido da nossa  colega saiu de casa, para ir viver com outra mulher. Sentimo-nos impotentes, cheias de raiva. Já tinha acontecido com uma outra, no mês passado. E damos voltas à cabeça como é que aquela pobre pode criar um filho pequeno, com deficiência, sozinha, sem amparo. E falamos com os nossos botões: "isto não é normal!".
É isso, eu prefiro viver a rotina do normal, salpicada aqui e acolá por algo mais colorido, mas que me traga consistência, segurança, companheirismo, carinho. Ainda não entendi muito bem o que se passa com o ser humano que parece nada o satisfazer, que não é capaz de se desdobrar um pouco mais pelos outros, que olha constantemente para o seu umbigo, que não se dá, que só quer receber, que avidamente procura os tais momentos deslumbrantes, sem perceber que desde o princípio do tempo a água dos rios corre para o mar, que as andorinhas voltam em cada Primavera, que os figos amadurecem no Verão, sempre, todos os anos. 
Oh, se soubéssemos apreciar com olhos "deslumbrados" a beleza da rotina de ter um filho a estudar para um exame e vê-lo chegar a casa com uma nota que dá para passar...se nos alegrássemos porque o bechamel desta vez saiu perfeito e a família vai adorar...se o encanto do primeiro amor nos olhos da nossa menina nos dissesse que está tudo bem, que é assim mesmo, que é a lei natural da vida, que eles nascem, crescem e fão reproduzir-se...
Normal? Pode ser, mas muito do que cabe neste capítulo, continua a ser extraordinário, deslumbrante e único. Depende do olhar com que o vemos.

sábado, 26 de março de 2016

É MUITO BOM!

E a Primavera que teima em não aparecer em toda a sua força! Lá terá as suas razões. Mandou as andorinhas à frente, enfeitou algumas árvores de flores e recolheu-se num gelo e numa chuva que não lhe ficam muito bem. Esperemos que lhe passe o amuo.
Com frio ou sem ele, a vida continua. E chegamos a mais uma Páscoa. E também aqui as coisas não estão muito definidas. Os folares, de todos os feitios, alinham-se ao lado de bolos-rei, de filhoses e de sonhos. Mas isso não era no Natal?  Quem manda não diz nada e lá se vai comendo do que se gosta!
Também a vida é como um rio que sobe, que se espreguiça,  que se confunde com as margens, que é navegável, mas que pode ter lugares de perigo, de quedas, pouco confortável. 
Gostava de situar-me  no percurso desse rio hoje, mas não consigo. Lembrei que há coisas que amava fazer e que agora não são mais possíveis: cantar (bem tentei, mas é mesmo como dizem, saiu um som de cana rachada), fazer as tarefas da casa sem custo, correr, andar sem ter rumo até chegar a um lugar lindo onde parava e tudo fazia sentido. Não posso. Não vou demorar-me nas impossibilidades, mas naquilo que hoje faço e que não sabia fazer quando ainda vivia na Primavera da vida. Coisas tão boas, sobretudo porque na sua maioria são feitas para os outros e não para me trazer alguma satisfação pessoal ou reconhecimento. 
As estação da vida são diferente, embora às vezes se misturem e vão buscar cores às outras. Cada Páscoa é única. Numa há sol vibrante, noutra a chuva insiste em cair. Será por isso que olho o mundo e as pessoas à minha volta e ainda consigo dizer como o Criador: "É muito bom"?