sexta-feira, 5 de maio de 2017

OS VELHOS

Onde estão? Como são? O que fazem?
Estão por todo o lado. Cada vez há mais.
São débeis, doentes, convencidos que ainda conseguem, na maioria dos casos com um olhar distante...
Fazem pouco. Enchem as salas de espera dos centros de saúde, sentam-se quietos nos bancos de jardim e esperam.
Será esta a descrição mais correcta de alguém que atingiu uma "certa" idade?
Os velhos andam devagar, deixaram de correr, porque sabem que a estrada está a chegar ao fim.
Os velhos lembram e relembram lugares e episódios que, parecem ter saído de um filme de ficção, de tão estranhos que são.
Os velhos olham com doçura os netos e revêm-se nos seus triunfos, sem comentar nada. Ninguém espera que comentem.
Os velhos ficam sozinhos muitas horas, porque a vida continua, mesmo quando eles deixaram de poder continuar.
Os velhos sabem muitas coisas, mas ninguém se lembra de pedir-lhes opinião.
Os velhos ainda estão a colher os erros que semearam, mas não os procuram para evitar esses erros.
Os velhos sentem o corpo a cair, a mente a falhar, mas ainda amam com intensidade.
Os velhos não são convidados para as festas, porque os amigos que costumavam festejar com eles, já foram embora.
Os velhos olham para a televisão horas a fio, porque naquele ecrã, há pessoas que falam para eles.
Os velhos ficam calados muito tempo, porque sabem que o que disserem não faz muito sentido, numa era onde as pessoas se comunicam sem precisar falar.
Os velhos morrem e no dia do funeral, junta-se muita gente, trazem muitas flores, fazem discursos bonitos. Não sabiam que eram assim tão amados, tão admirados. Passaram os últimos anos sem ver essas pessoas e nunca receberam uma única flor. 
Os velhos  quando se vão, passam a ser um nome na história da família, quando é necessário mencionar os ancestrais.
A maioria das pessoas ainda não percebeu que a árvore que dá frutos mais doces é porque tem mais anos, que no dia em que deitarmos fora a sabedoria dos mais velhos, ficamos com mais espaço mas com menos conforto...


sexta-feira, 14 de abril de 2017

PÁSCOA

É Sexta-feira da Paixão. Santa, chamam-lhe alguns. O sol, o feriado, levam o povo até à praia, à procura de um calor que tardou a chegar.
Despem-se os velhos "trapos" de Inverno e fazem-se excursões apressadas às lojas, para a escolha de novos "trapos". Limpam-se as casas mais a fundo e preparam-se os doces para a celebração da família. 

Esta era a quadra da família, nos tempos do velho Israel. Havia uma alegria e um sorriso que não podiam esmorecer nos rostos dos hebreus, pois a lembrança do que Deus fizera por eles, livrando-os de tão grande escravidão, era mais importante que o ritual da comida.

Não sei se nesta Páscoa, ao redor da mesa da família, lembramos o que foi feito para que sejamos livres do nosso pecado. Temos a consciência que o Cordeiro que foi sacrificado por nós, era igual a nós e que, por isso mesmo, a dor que lhe foi infligida, o sofrimento que suportou, tinha que fazer algum sentido para que Ele se deixasse assim sacrificar?  

Mais do que amêndoas, ovos e coelhos, porque não pegamos em pão e vinho, símbolos do Seu corpo e do Seu sangue e não os comemos, juntos,  contando aos mais pequenos o que custou a Jesus Cristo ser o sacrifício da nossa Páscoa? É que, cada vez que comemos esta refeição, proclamamos a Sua morte... Quem é que se lembraria de fazer um ritual a lembrar a morte de alguém? Mas foi Ele mesmo que disse que deveríamos fazê-lo! Só que quando ingerimos o alimento ordenado pelo Salvador, ele transforma-se em vida, energia, força, capacidade dentro de nós, porque o Senhor foi além da morte, tornou à vida, transmitiu-nos essa vida eterna. Ele nunca mais morrerá. Eu nunca morrerei!

Que celebração poderosa. Não importa o que consta no  menu pascal. Importante é que proclamemos a mensagem da libertação, de algo que  mudou a história da humanidade para sempre.




quarta-feira, 29 de março de 2017

Chegou, deslumbrante, como sempre. Entra e ilumina os espaços, faz brilhar o céu de um azul quase esquecido, esmorecido, por tanta chuva e nevoeiro. Traz nas mãos um braçado de jarros e vai pintando os campos por onde passa com tintas amarelas e lilazes. 
As pessoas sorriem-lhe. Pudera, já estavam à espera há tanto tempo!
Gosta de todas as cores, mas detém-se nos rosas pálidos das árvores de fruto em botão. Tem nela um calor e uma força, que a leva a empurrar as sombras da noite para mais tarde.
As pessoas despem os agasalhos, as árvores vestem-se de folhas novas. Ela odeia o velho, o bolorento, o que não tem cor. Abre as gavetas, os armários  e força a limpeza. 
Até os corpos cansados sentem a sua energia. Obriga-os a abrir as janelas e a olhar para lá do horizonte e dá-lhes mil razões de esperança.
Cada vez que ela chega, as canções sobem de volume e as gargalhadas ficam mais longas.
Não conseguimos agarrá-la por muito tempo e temos que ficar atentos às mudanças do seu humor. Quem sabe se amanhã não aparece envolta em neblina só para que gostemos dela  ainda mais?
E pensar que ela vem e vai, porque o Criador lhe marcou um calendário, um tempo e uma missão.
Afinal, Ele faz isso com todos nós, não?

quarta-feira, 8 de março de 2017

E SE...?

Ontem assisti ao funeral de uma amiga, mãe do meu genro. Conheço-a há mais de 30 anos e hoje, que ela se foi, sinto-me tão culpada.
Vou explicar. Ontem, ouvi  os elogios mais sentidos, mais belos, verdadeiros e reais que alguém pode dar a um ser humano. Foram exaltadas as suas qualidades de generosidade, desprendimento, bondade, alegria, fé, resiliência, amor a Deus e à sua família. Todos  merecidos.
A minha sensação de culpa, vem do facto que tudo o que foi dito, ela já não ouviu. Lá, na  dimensão eterna, faz pouco sentido o que os mortais dizem por aqui. Daquele lado da vida, o que importa mesmo é o presente, feito de alegria, de ausência de dor e de lágrimas. A saudade é apenas para quem fica. E as palavras proferidas, são também o alívio de almas em sofrimento.
E enquanto ouvia os vários membros da família pensei: E SE um dia destes, quando estivermos juntos, fizéssemos todos os elogios e todas as honras a quem ainda pode ouvir?  E SE, mesmo com lágrimas de arrependimento, falássemos da gratidão que nos invade porque temos essas pessoas na nossa vida?
Gratidão, é divino. Honra é divino. Amar como a nós mesmos é mandamento divino.
E SE? O que seria, como iríamos reagir?


quarta-feira, 1 de março de 2017

ENTRE O DOIS...

É isso, estamos entre duas estações. Os agasalhos de Inverno põem-se e tiram-se. O sol brilha de vez em quando, a chuva cai envergonhada e vai-se embora.
Parece que a nossa vida fica sempre pendurada entre dois pólos:
Amor, ódio
Presença, saudade
Trabalho, descanso
Mágoa, perdão
Juventude, velhice
Filhos, netos
Amigos, solidão
Saúde, doença
Desespero, esperança

E havia tantos mais... O que fazemos entre os dois, determina a essência do que somos. Grita o que queremos, exige o que esperamos.
O que fazemos entre os dois, é o processo meticuloso que Deus usa para fazer de nós pessoas mais humanas.
Nenhum dos dois pode ser desprezado, evitado, nem ignorado. Tal como as estações, estão lá por uma razão. 


sábado, 31 de dezembro de 2016

ADEUS 2016!

Ele está ali, desfalecido, fraco, sem alento. Aproximo-me para vê-lo melhor. Os olhos semicerrados, a boca entreaberta, a respiração lenta. O diagnóstico é que lhe faltam poucas horas  para morrer.
Já foi vigoroso, cheio de brilho, engalanado com as cores mais vivas do Verão e os cheiros mais doces da Primavera. Começou a esmorecer no Outono e adoeceu de vez no princípio do Inverno. 
Queria dizer-lhe tantas coisas antes que se vá. Vou tentar agradecer-lhe, porque deu tanta beleza à minha vida; porque trouxe gente especial ao meu caminho que acrescentou à minha existência; porque me ofereceu mesas fartas de riso e alegria que nunca experimentara; porque colocou sobre os meus joelhos envelhecidos, um embrulhinho com uma menina tão perfeita, que vou amar até ao fim dos meus dias... 
Enquanto lhe falo tudo isto, ele abre os olhos mortiços e esbate na boca um sorriso difícil. Ele sabe que lhe falta pouco tempo.
Mas queria dizer-lhe e perdoá-lo antes que se vá, como me feriu tantas vezes, me trouxe dores inexplicáveis, me fez chorar noites a fio, à procura de uma esperança que parecia nunca chegar. 
Com coragem, seguro-lhe as mãos geladas, aperto-as, para dizer-lhe que, para onde vai agora, todos os anos, iguais a ele, são recolhidos por um Deus que redime as faltas, limpa as lágrimas, perdoa os pecados e que usa cada ano que nos envia para que alcancemos corações sábios. 
A respiração agora é ainda mais lenta, o frio da morte já toca na sua fronte...é só uma questão de horas.
Adeus 2016! Foste igual a todos os anos que preenchem os meus calendários. Deste o bom e o mau, o sol e a chuva, a alegria e as lágrimas. Mereces que se despeçam de ti com gratidão, porque mal partas, já está outro à porta para sentar-se no teu lugar! 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

NATAL OUTRA VEZ

E é Natal outra vez. Este ano ele resolveu deixar de lado os agasalhos mais fortes e vestiu-se de sol e de luz! Mas tal como nos outros anos, a azáfama é igual: gente a encher lojas e centros comerciais à procura dos melhores preços para os melhores presentes, pessoas que sorriem  e conseguem dizer "boas festas" quando durante todo o ano nem lhes vimos os dentes...
Há realmente uma atmosfera diferente. Será o entusiasmo de reunir a família, de receber mensagens amigas, de decorar a casa com mais luz e brilho, de viajar para encontrar quem se ama? Pode ser. Pena que se tenham esquecido do personagem principal do Natal, porque aí, sim, a emoção de saber que Deus enviou o Seu Filho para fazer-se igual a nós, iria tomar conta de todos os festejos e daria um brilho muito maior ao ajuntamento familiar. 
A mensagem dos anjos aos pastores dizia: "...boa vontade entre os homens". Deus ainda hoje deseja que esta boa vontade, este espírito solidário, esta noção da carência dos outros à nossa volta, encham os nossos dias, nesta estação natalícia.
Em vez de fecharmos todas as portas e janelas da nossa casa para manter o calor só para nós, abramos os nossos corações para os doentes, desalojados, enlutados. Levantemos uma oração de Consoada pelos que trabalham nessa noite, para manter a saúde, a segurança, os transportes, os serviços necessários para a nossa vida citadina. Isso também é responder à mensagem angélica.