quarta-feira, 24 de junho de 2015

MALAS

Tenho-as de vários tamanhos e materiais. Em tempos idos, só havia uma grande e outra mais pequena, mas à medida que o tempo foi passando e as viagens foram divididas por semanas, dias ou apenas um fim de semana, comecei a ficar fascinada que as há para todas as necessidades do viajante. Estou a falar de malas de viagem! A coisa é de tal ordem, que não consigo passar por uma loja onde elas estejam expostas que não vá bisbilhotar para ver a última novidade!
Algumas delas têm história. Levaram dentro os pertences que me faziam falta para a ocasião e trouxeram de volta mais ou menos a mesma coisa, só que a precisar de lavagem. Transportaram apenas o que hoje em dia nos permitem passar por  um radar irritante e desconfiado, onde  um chapéu de chuva enroladinho, faz as luzes piscarem e mais coisas apitarem, só porque acham que tem forma de bomba.
Mas as minhas malas de viagem têm mais histórias. As despedidas e as chegadas. Não gosto, nem de umas nem de outras. Parto, não sei se volto, chego não sei o que aconteceu, se me escondem alguma coisa que deveria saber, se encontro tudo no lugar. Mas tem o seu lado bom, também.
As minhas malas (agora tenho uma verde quase florescente) dizem-me que sou uma viajante não só neste pequeno mundo onde as distâncias são encurtadas cada vez mais e onde as pessoas ate se cruzam em lugares inverossímeis, mas contam-me que sou peregrina, a caminho de uma pátria onde as viagens acabam de vez, onde o destino é final.
Tal e qual como arrumo a mala com cuidado e sem querer esquecer  nada para o caminho que tenho pela frente, medito que nesta viagem definitiva, a minha bagagem tem que ser bem escolhida, sem pressa e sem desejos escondidos. Não quero levar a mais, mas também não posso  levar a menos. Difcil escolha, mas importante.
Algumas das minhas malas foram destruidas no caminho, outras ficaram sem asas ou sem rodas, outras foram abertas e roubadas, mas tudo isso ficou perdido e ocupa um espaço muito pequeno na minha memória.  Mas esta bagagem que levo para a  tal cidade  cujo artífice e construtor é Deus, tem que ser tratada de outra maneira; sei que quando chegar à cidade, ela será pesada em balança especial, que os materiais que levo lá dentro têm um valor além da minha comprensão...
Sou viajante, sim senhor. Comecei e não vou parar.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

O SONHADOR (cont)



Algum tempo depois chega uma comitiva vinda do palácio. Procuram José. O rapaz toma banho e muda de roupa. Vai apresentar-se diante do dono do mundo, sabe-se lá porquê. O esplendor e o brilho da casa do rei não deslumbram o jovem. Ele sabe que é mais uma missão. Enquanto espera, olha para a roupa limpa que vestiu e sorri. Já tinha vestido várias roupas nestes poucos anos da sua vida, cada uma delas representando o seu estado de filho amado, escravo e prisioneiro. A roupa que tem agora  parece-lhe estranha, não faz sentido, mas espera. Levam-no à presença do faraó. Não ousa enfrentar o dono da terra, mas este, em voz alterada conta-lhe um sonho que não consegue decifrar. Pretende que José o faça, já que teve essa capacidade com os colegas da prisão. José  olha agora sem medo para o rei  e ele, que em menino sonhara tanto, agora começa a interpretar o sonho  do faraó.
Quando termina, levam-no dali para vesti-lo com roupas reais. José olha para o espelho que lhe dão  e nem acredita. Em vez de uma corrente de ferro nos pés, tem uma de ouro ao pescoço, no lugar do avental de escravo e do calção de prisioneiro, tem um manto de governo sobre o seu corpo jovem. E os sonhos? Não tem mais tempo par a sonhar, a realidade de governar o Egipto e de fazer florescer a sua economia, roubam-lhe todo o tempo.
Mas um dia, na sua frente, estão 10 homens hebreus inclinados, submissos, carentes, incapazes.  E é aí que José vê o seu sonho tornado realidade. Os irmãos não o reconhecem, mas ele sabe quem eles são. Os seus rostos e cheiro estão para sempre gravados no seu coração. A dor que lhe infligiram ainda não desapareceu. O turbilhão de sentimentos é grande demais para o governador do Egipto e tem que sair para chorar sozinho...
Um dia, já no final da sua vida, José volta a sonhar. Pede à família que, quando voltarem à sua terra de origem, levem com eles os seus ossos. Sonha repousar na terra que o viu nascer, mas mais do que isso, sonha que um dia Deus vai fazê-los voltar ao lugar que prometera ser sua propriedade para sempre.
José, o menino sonhador, foi elevado por Deus a um patamar superior – intérprete de sonhos.
Deus ainda faz isto hoje com o que desejamos e sonhamos. Um dia, damos por nós a fazer algo que está anos de luz acima do que tínhamos pensado. Porque se o nosso coração se mantiver fiel, leal, puro e moldável, Deus tem um terreno pronto para mais do que pedimos ou pensamos!


quinta-feira, 18 de junho de 2015

O SONHADOR



O rapaz sonhava muito. Sonhos estranhos, impensáveis e incompreensíveis. Os pais lá iam tolerando tudo, ums vezes com um encolher de ombros, outras com uma repreensão mais acesa. Os irmãos, esses odiavam a capacidade que o rapaz tinha de ver mais longe, de conseguir alcançar um mundo onde eles nunca chegariam. Ainda por cima, o pai resolveu dar ao rapaz uma capa especial, colorida, de mangas largas e compridas, coisa que nenhum deles tinha recebido.
Essa raiva acumulada no coração dos irmãos de José, um dia explodiu. O miúdo estava ali, na sua frente, indefeso, inocente, sonhador, a muitos quilómetros de casa e da protecção do pai. Era altura de dar um fim aos sonhos incomodativos do menino.  José sentiu as mãos calosas dos irmãos a empurrá-lo para um buraco fundo. Quando recuperou o equilíbrio, agradeceu porque o poço era seco, mas depois tudo ficou escuro, quando eles taparam a entrada do poço. As horas passavam lentas. Os soluços do rapaz tinham-se transformado em dor profunda pela maldade imensa dos seus irmãos. Ainda ouviu ao longe a voz do mais velho, que discutia as consequências daquele acto sem  sentido.  O silêncio imenso foi quebrado  pelo rodado de carros que passavam. José, lá no fundo, imaginou como seria a caravana. Ouviu os homens a falarem com os seus irmãos, uma longa conversa, feita de silêncios e de pragas à mistura e por fim, tiraram-no de dentro do poço. A luz da tarde feriu-lhe os olhos inchados, mas pouca força lhe restava para defender-se das cordas que agora o amarravam. A caravana pôs-se em marcha outra vez e José foi perdendo de vista os irmãos, a sua terra...A sua linda capa ficara para trás, junto com os seus sonhos.
No Egipto, para onde foi levado, venderem-no para um oficial do faraó. Agora usava um avental de escravo. Fazia o que lhe mandavam. Os sonhos tinham desaparecido, a sua realidade agora era servir com cuidado e dedicação. Crescia e fazia-se um homem, cada dia mais belo e aprumado. Todas as tarefas eram feitas com zelo e excelência e o oficial promoveu-o. Não durou muito tempo, esse intervalo de bem-estar. A mulher de Potifar, cada vez que passava por ele, deitava-lhe um olhar de cobiça e desejo  reprimido. No coração de José, onde havia saudade, mágoa e  dor, havia também lugar para lealdade, verdade e pureza. A mulher engendrou uma história mirabolante de assédio, que levou José para a prisão. Vestiram-no com roupa de prisioneiro. Mais fundo não poderia estar. Mas a graça da sua vida seguia-o, mesmo ali na prisão e dentro de pouco tempo, José  transformou-se no ajudante do carcereiro, com acesso livre aos outros presos.  Uma manhã, dois deles estão cabisbaixos. Tiveram sonhos maus, difíceis de entender. José sente uma dor no peito. Sonhos? Outra vez? Os prisioneiros relatam-lhe o que sonharam e José interpreta o significado daqueles sonhos.  Sonhar, parecia algo tão distante para José. Dentro de poucos dias as portas do cárcere abrem-se para os prisioneiros. José vê-os sair e no seu coração a dor fica maior, mas ela não iria impedi-lo de cumprir as suas obrigações com a mesma dedicação.
(Continua)

sábado, 6 de junho de 2015

SAUDADE



A saudade veste-se de cinzento desbotado. Quando a tocamos, está fria, quase húmida. Deve ser das lágrimas que a lavam. Insiste em lembrar nomes e épocas que todos já esqueceram. Alimenta-se de sons semelhantes aos que já foram e de objectos que já deviam há muito estar guardados numa caixa. Fica mais forte quando pega nas molduras onde os sorrisos insistem em não desaparecer. Caminha devagar, recusa os saltos e as corridas que podem torná-la menos dolorosa. Fala baixinho, porque nem todos entendem a sua linguagem. Quando a convidamos a sair, a espairecer, insiste em ficar no mesmo lugar, presa a momentos que já não existem. Tem datas marcadas a vermelho no calendário e nesses dias, fica mais quieta, mais calada...
A saudade é companheira de todos os homens, só que alguns convivem com ela às escondidas e outros não têm onde esconde-la. Uns falam dela como de algo que se perdeu, outros expressam-na numa palavra que não tem tradução. É perda, mas é algo que ficou; é dor, mas pode ser cantada; é lágrimas, mas elas escorrem em silêncio e em momentos sem explicação.  É como se pudesse repetir tudo o que foi, sem o relógio a marcar esses minutos.  É lembrança, memória, recordação, tudo o que o dicionário quiser dizer, sem saber exactamente como defini-la. É saudade.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

CRIANÇA

"Há uma eterna criança dentro de nós..." Já ouviu esta expressão, ou outra parecida com ela?
Estive a pensar que no fundo é verdade. Porque ainda sou atraída por pão quente, não porque seja melhor, mas porque me leva aos meus dias de menina, quando na padaria da madrinha, alinhados contra o balcão, esperávamos que os padeiros trouxessem os tabuleiros cheios de carcaças acabadas de sair do forno. E a madrinha, tinha logo ali um pacote de manteiga, com que besuntava o tal pão.
Quando ponho os pés na praia, recuo no tempo, quando procurava a areia mais grossa, para senti-la a fazer-me cócegas nos pés...
Quando como cerejas, gosto de pegá-las aos cachos e se ninguém estiver a olhar, ainda pinto os lábios com o sumo...
Olho as nuvens e ainda me detenho a descobrir qual delas tem o formato mais exótico...
Pego num par de sapatos novos e cheiro-os, para ficar desiludida logo a seguir, pois já não têm o cheiro a pele, como os da minha infância...
Sinto a brisa a tocar-me nos cabelos e ainda acredito que passou um anjo naquele momento, porque a minha mãe dizia que eles estão sempre à nossa volta...
Deixem-me ser criança! Não quero ver tudo com as cores frias e negras da realidade. Não quero cheirar tudo com o cheiro nauseabundo da maldade. Não quero comer esta comida plastificada, sem sonhar com uma que fazia correr a saliva pelos cantos da boca, de boa que era...
Deixem-me continuar a ser criança.

domingo, 24 de maio de 2015

RELÓGIOS



Não há uma explicação para o fascínio que tenho por relógios. Tenho-os em cada divisão da casa, até num lugar onde normalmente ninguém pensaria em colocar um! Gosto deles de todos os feitios e materiais. À entrada da casa tenho um “cuco” que trouxe da Suíça. Esse, imaginem, é o único que está calado. É muito alarde, cada quinze minutos. Sonhava ter um relógio de sala, daqueles grandes, antigos, torneados, com uma caixa com um vidro a esconder o badalo brilhante...
A razão da minha paixão é inexplicável. Mas gosto de andar pela casa e olhar para eles e saber a “quantas ando”. Um dia destes, estava sozinha em casa, na cozinha, a preparar o almoço. Já tinha deitado a vista para o dito relógio para me orientar. Continuei na minha tarefa. O silêncio em casa era total. Minto. O relógio mesmo por cima do lugar onde estava, a cada segundo que passava fazia um som débil, suave, mas certo, rítmico. Olhei-o meio divertida, mas o sorriso foi-me fugindo da boca quando dei conta que aquele som marcava menos tempo na minha vida, que cada pequeno toque, ao fim de sessenta vezes, significava um minuto. De repente apercebi-me do tempo a passar e nesse minuto, imaginei o que acontecia no mundo. Quantas pessoas a morrerem, quantas crianças a nascerem, quantas mulheres a serem traficadas, droga a ser negociada, dinheiro sujo a ser lavado, decisões erradas a serem feitas, orações a subirem a Deus, suspiros de amor a encherem o peito de alguém...
Pensei ainda o que aconteceria se todos os relógios do mundo decidissem parar ao mesmo tempo...caos total. Fiquei ali a olhar o meu relógio que, sem dó, continuava a dizer-me que um minuto tinha passado na minha vida. Ao fim do dia, somo todos esses minutos transformados em horas e tenho menos um dia. As pessoas não se desgastam a pensar em relógios, nem em horas a passar, mas notam as rugas a aparecer, a fraqueza a invadir o corpo, a elasticidade dos movimentos a ser cada vez mais acentuada. 
O mais curioso é que foi Deus que fez o tempo. Ele, que é Eterno, sem princípio nem fim. E na Sua imensa sabedoria e omnisciência marca tempos em nossa vida, para o plano que tem para nós.
Olhei pela última vez para o relógio na parede, naquela manhã e só consegui dizer meio a rir: És implacável, tempo. Mas ficas a saber que o MEU tempo, está nas Suas mãos!

quarta-feira, 6 de maio de 2015

BIOGRAFIA



A guerra a acabar e eu a nascer! Meu pai contava que havia muita pobreza e fome, mas olhe que a mim, criancinha que berrava sem parar, nunca faltou comidinha.
Cresci para comandar mais 5 irmãos, que vieram logo atrás de mim com poucas diferenças. Cada um deles com dons e capacidades únicas, faziam de nós uma família especial. Num ambiente de grandes necessidades, aprendemos a apreciar as coisas pequenas a que os outros nem davam valor. Quer que eu conte um episódio para entender melhor? Ora aí vai: Os meus pais não tinham dinheiro para comprar sapatos para todos no Natal. Era importante ir à festinha da igreja, cantar e louvar, de sapato novo... Pois naquele ano, um amigo veio da Suécia e resolveu pegar no rebanho dos seis maninhos e comprar sapatos para todos! A nossa mãe foi aconchegar-nos à noite, mas entre os lençóis, encostados ao rosto de cada um, havia um par de sapatos novos.

Cresci amando a igreja de Jesus Cristo. Aprendi o dom do perdão depois da queda, o choro da alegria depois de uma conversão milagrosa.
Casei com um homem maravilhoso. Era o mais bonito do pedaço, mas era meu! Passados 50 anos ainda sou dele e ele ainda é meu! Dos dois rebentos que Deus nos deu, nasceram as 4 mais lindas meninas. Quem não acredita só tem que procurar por aí umas fotos delas.
Sirvo um Deus que apesar da minha pequenez (1.56m) e de pertencer a um Portugal pequeno e aos olhos de muitos insignificante, no Seu divino conhecimento resolveu enviar este pequeno embrulho pelo mundo fora, ensinando a Sua Palavra, empurrando todos os que desejam para os braços de um Pai que nunca desiste e que tem bitolas diferentes do resto do mundo.

Amo a Deus mas amo as pessoas. Não sei nada, mas Ele ensina-me tudo. A minha vida dava um belo romance, mas não vou escrevê-la. Já há muitos por aí...