sábado, 13 de Setembro de 2014

Estou num belo hotel na Noruega. Esperando ser atendida pela recepcionista, vou reparando nas variadas coisas em cima do balcão. Uma delas chama a minha atenção mais do qualquer outra: Um pequeno escaparate com postais ilustrados da região. Vê-se que estão ali há muito tempo. Sente-se que ninguém os olha com olhos de ver. 
Vou lá atrás no tempo, quando os postais ilustrados eram obrigatórios para quem viajava. Tinham pouco espaço para a escrita, mas chegava dizer "estou, bem". "Amo-te". "Já tenho saudades" "Isto é muito bonito, mas não há como a nossa terra..." 
Às vezes os tais postais chegavam já depois de nós. Era dificil encontrar os correios da localidade, nem sempre havia transporte rápido para a distribuição.  Mesmo assim, conheço gente que coleccionou centenas deles, como prova quase viva dos lugares onde foi feliz...
Hoje ninguém os compra. Para quê? Os Iphones, Ipads, máquinas fotográficas sofisticadas e rápidas, tiram as fotos que nos custavam algum dinheiro e esforço. E em vez da maçada de procurar a tal estação de correios, mandam-se as fotos por mail, por mensagem, pelas redes sociais. Diferença: faltam as tais palavras doces no fim. Mas acho que isso também está a cair em desuso.
Olhei triste para os postais do hotel. Longe vão os dias em que eram escolhidos e acarinhados.
O mundo mudou. Nós mudámos. Alguns para melhor, outros não tanto.
Pensei nessas mudanças. Amei a transformação da minha vida, do que era, para o que sou hoje e o que ainda poderei ser amanhã em Deus. 
As outras coisas são apenas adereços. O verdadeiro está dentro de mim. O real, é o que Deus faz hoje. Não gostaria de voltar a ser quem era há 20 anos atrás. Nada! 
Por baixo deste postal vou escrever: "De glória em glória"!
o

terça-feira, 12 de Agosto de 2014

SONS DA MINHA ALDEIA

Quando a nossa rotina fica mais lenta e os dias passam mais calmos, damos valor a pequenos pormenores que nos passavam desapercebidos. Hoje acordei com os sons da minha aldeia a entrar-me pelos ouvidos como se nunca os tivesse escutado.
Na rua, mesmo junto à minha janela, duas vizinhas conversam sobre a vida dos outros. Mas o tom de voz é perfeitamente audível. Nem se preocupam se mais alguém vai  ouvir...
Lá mais distante, ouço o som da sirene dos bombeiros, pedindo ajuda aos seus voluntários para uma missão necessária. 
O relógio da igreja toca de meia em meia hora, assinalando o tempo que se escoa sem piedade. Há dias em que o sino no campanário tem um toque que não gostamos: alguém morreu.
De repente o silêncio é quebrado pelo sinal da carrinha do pão. E lá vão os clientes diários buscar o dito, quentinho, estaladiço, feito algures numa padaria de Mafra. 
As pessoas ainda conversam da sacada da casa para quem passa na rua. 
Quando a ambulância para junto a uma casa, os vizinhos correm para prestar o seu auxílio; quando uma mãe traz à rua o seu bebé pela primeira vez, o grupo das amigas e não só, fala alto, descreve o que aconteceu aos filhos e aos netos quando nasceram, mesmo ali, no meio da estrada!
O vizinho que mora no largo da igreja, abre as janelas de par em par e toda a gente terá que ouvir uma sessão de fados e guitarradas. 
Um outro senta-se num banco de pedra e fala ao telefone com quem está do outro lado, mas também com metade da aldeia!
Em dias de festa ( e são muitos) o povo vem às janelas ver a banda passar, enquanto os mais corajosos seguem atrás, porque lá têm  o marido, o filho ou o afilhado...
Como amo esta terra! Não nasci aqui, mas tanto da minha vida está aqui ...
Agradeço a Deus por me ter trazido de longe para um lugar tão desconhecido, mas onde tenho sido tão feliz!


quarta-feira, 6 de Agosto de 2014

FARDAS



Sentada no átrio de um grande e moderno hospital, dá para pensar, imaginar, seguir os movimentos das pessoas que entram e saem. Cada um carrega em si uma história, uma tragédia ou um drama. Por que hospital não é lugar para festa nem piquenique...
Mas hoje, na minha observação, detive-me nas outras pessoas, os profissionais do hospital. Uns passam apressados, com passos firmes, sem olhar para ninguém. Têm algo importante em mente e perseguem o seu objectivo. Outros, em pequenos grupos, conversam, riem e dirigem-se para a cafetaria onde poderão comer e beber qualquer coisa que lhes quebre a rotina dura e lhes dê ânimo para continuar. Reparei ainda noutro pormenor: os pequenos grupos são compostos de pessoas com a mesma farda. Nada de misturas. E fiquei ali a adivinhar o que cada uma delas representa: o pessoal da administração, os auxiliares, fisioterapeutas, médicos, enfermeiras e uns senhores todos vestidos de azul, que, penso eu, terão alguma coisa a ver com a cirurgia...
Ao chegar-nos junto de uma destas pessoas, sabemos o que pedir-lhes, o que esperar delas, as respostas ou não que irão dar-nos. Aquela farda ajuda-nos a conhecer a sua identidade, quem são, o que fazem...
Eu não tenho farda. Nos vários serviços e trabalhos da minha vida nunca precisei de uma. Mas tenho uma identidade. Será que as pessoas que se chegam a mim, sabem o que esperar, o que pedir e o que receber? Será que mesmo sem farda, a minha vida transmite aos que me rodeiam a segurança da resposta, o ânimo da direcção e até o carinho inesperado?
Lá, sentada no hospital, pensei em Jesus Cristo, vestido como qualquer galileu do Seu tempo, sem a “farda” pesada dos fariseus, sem a túnica pomposa dos centuriões romanos, mas ainda assim, atraindo multidões, chamando crianças, rindo e comendo trigo fresco com os discípulos, tocando os pobres, os marginais, curvando-se sobre uma escrita misteriosa na terra, enquanto uma mulher apanhada em adultério espera a sentença de morte...
Desejo muito que aquilo que sou me diferencie do resto, para que os necessitados, os que não têm amigos, nem abrigo, se cheguem a mim, sem receio de ser enganados, sem medo de um estatuto que os obrigue a pedir, de olhos baixos...  

segunda-feira, 14 de Julho de 2014

ENTUPIMENTO



Tema estranho, este que escolhi para hoje: entupimento!
Qualquer coisa entupida é muito inconveniente e desagradável. Desde o nariz, até um cano, um sanitário, o intestino, o trânsito, não sei qual deles é pior... Essa desagradável e incómoda condição, resulta do não escoamento do elemento que deveria passar livremente.
Alguns entupimentos são facilmente detectados e outros nem tanto. Alguns provocam doença, outros, inconveniência, mas todos, todos precisam de atendimento rápido.
Digo isto, porque ontem a falar com alguém, dei-me conta como aquela pessoa foi tão livre, tão feliz e hoje, a sua vida está entupida de projectos e trabalhos, que pouca ou nenhuma realização lhe trazem. Esse estado deixou-a sem sorriso, sem gargalhadas, sem tempo para ler um livro ou ir ao cinema. Impede-a de gozar o que tem, de desfrutar a família. O entupimento é tão grande que me dei conta que, a uma certa altura da conversa, o ar parecia estar a faltar-me. (Estarei entupida, também?)
A nossa alma é como uma enorme esponja, que vai acumulando sensações, alegrias, dores, cansaço. Um dia temos que espremer tudo e permitir que ela seja cheia de algo novo. A ideia cristã de vida plena é assim, sem entupimento, correndo livremente, saltando como fonte.
Hoje vou fazer uma boa limpeza à minha alma. Não quero nada entupido por aqui. Quero que a graça, o amor, a alegria, a compaixão e a bondade, passem livremente, sem embaraços ou impedimentos.
Mãos à obra!

domingo, 29 de Junho de 2014

FORÇA PORTUGAL!



Durante poucas horas, o país ficou em bicos de pés para ver a selecção nacional jogar futebol. Esqueceu a crise interna dos partidos políticos, os cortes salariais, as injustiças, o estado social decadente, o desemprego e as faltas imensas do dia-a-dia. Ficou colado aos ecrãs das televisões, comprou roupa a condizer, pintou a cara das cores nacionais e pendurou bandeiras nas sacadas. Uma frase foi dita milhares de vezes, como se tivesse o poder de mudar o correr da bola, a técnica e perícia dos jogadores, “força, Portugal!”
A reflexão que fiz nestes dias de desilusão futebolística, deve ser a de centenas de outras pessoas (digo eu). É que não me lembro de ouvir este grito por mais nada neste país. Os heróis, são apenas 23 homens a tentar vencer um campeonato de futebol? Nesta nação não há mais ninguém a precisar de ouvir esse grito de força? Haverá por aí meia dúzia que se junte a mim para gritar “força, professores de Portugal”, que trabalham incansavelmente para ajudar a educar miúdos deseducados em casa? Alguém se prontifica a dar “força” aos médicos, enfermeiras e pessoal de saúde que, nos hospitais, trabalham horas sem fim, para que as pessoas consigam viver minimamente saudáveis? Aos bombeiros, que arriscam a vida, porque alguém com resquícios de loucura resolve deitar fogo a uma floresta? Aos operários que mantêm as fábricas a funcionar, para que os bens de consumo não faltem a este povo?
A minha lista é enorme, a lista dos tais que precisavam ouvir o grito de força e que, de vez em quando fazia-lhes bem receber palavras elogiosas e agradecidas.
No fim (a meio), a selecção voltou para casa envergonhada, de madrugada, ainda o dia não rompera. As bandeiras foram tiradas, as camisolas guardadas para outros festivais e os bolsos dos jogadores recheados de qualquer coisa que nunca vai passar pela vida dos simples mortais que se desfiguraram a gritar.
Quando é que vamos orgulhar-nos de algo mais que não seja futebol? Quando é que vamos chamar aos pódios deste país os heróis que fazem desta nação a valente, a imortal? Quando será que levantamos de novo o esplendor deste jardim à beira-mar plantado, com os nossos elogios e orgulho pelo que temos?
Reflexão nocturna de alguém que gosta muito de futebol, mas que não vai em futebóis...

quarta-feira, 25 de Junho de 2014

ESQUECIMENTO

Hoje acordei com um pensamento estranho a martelar-me as ideias: um dia ninguém vai lembrar-se mais de mim.
São conjecturas próprias da idade. Quando era jovem, nem tal coisa me passava pela ideia. A vida era para ser vivida... não lembrada. Os amigos eram para divertir... não para guardar. As horas eram lentas demais... havia tanto para ver ainda. Hoje, olho à minha volta e consigo ver percursos, estradas caminhadas, pontes construídas, livros escritos. Na juventude, isso era impensável. E vejo também que as pessoas que construíram as tais pontes, escreveram os tais livros e abriram estradas para que outros pudessem correr mais rápido, já nem são lembradas, nem mencionadas, a não ser nalguma placa escondida, só para referência. 
Sentei-me hoje junto à sepultura do meu pai. Daqui a poucos anos, será apenas mais uma campa, no pequeno cemitério da aldeia. Ninguém se lembrará mais dele, do que disse, da sua voz forte a cantar, do seu entusiasmo a ensinar, da sua "vaidade" em vestir-se bem, do seu porte digno e erecto, mesmo com muitos anos a pesar-lhe sobre os ombros. É próprio, normal, o esquecimento.
Depois, um outro pensamento, este ainda mais sóbrio, assaltou-me sem eu querer. A Bíblia diz que no céu, "não há mais lembrança das coisas passadas". E esta? Também há esquecimento no céu? Afinal a vida não teve só sombras, também teve luz, porque não poderemos lembrá-la? Não teve apenas lágrimas, teve também riso, não teve só morte, também houve nascimentos...por que não vamos mais lembrar?
Deve haver uma razão teológica e de fé, para este enigma. Na minha fraca opinião, a única que me vem à mente é que lá, voltamos ao principio, à juventude, ao entusiasmo pleno. Porque não haverá mais fim, ficaremos sempre no início, porque não haverá mais sol ou sombra, caminharemos à luz inacessível, porque ninguém morre nem nasce, não haverá mais lágrimas...para quê lembrar o que passou, numa vida que começa?

segunda-feira, 23 de Junho de 2014

DIETAS...

E entrámos na fase crítica das dietas, ou seja, na altura do ano em que as pessoas de repente se lembram que, para vestir um  biquíni ou fato de banho, precisam perder peso (em certos lugares, claro). As massagistas preenchem nas suas agendas todas as horas do dia de trabalho...e mais que fosse.  As ervanárias e farmácias de produtos naturais vendem mais do que é habitual, tanto que os clientes pedem chás e xaropes de frutas mágicas, para perder os tais quilinhos extra.
Mas é mesmo nas dietas que vemos a grande ênfase do Verão desnudado. Há como que uma sofreguidão pelo que é "mais saudável",  já que  no resto do ano comemos do que gostamos e do que não é saudável!
O culto da imagem, o desejo de parecer, a intensa preocupação de ser como este ou aquele, enchem os pratos de saladas, metem o pão com manteiga na gaveta do "para depois do Verão".
Praia, a quanto obrigas! Ah, esquecia um pormenor importante: os ginásios estão lotados de gente que todos os dias resolve malhar para ficar com a tal figura.
Será que temos os mesmos cuidados quanto ao nosso espírito? Que alimentos damos à nossa alma, que exercícios lhe propomos, que dieta imaginamos, para que o nosso olhar seja mais límpido, o nosso falar mais doce, as nossas palavras mais comedidas e  a  nossa interacção mais suave e saudável? E em que estação do ano fazemos tal regime? Uma vez por acaso, diariamente, em momentos de obesidade ou falsa saciedade da mente? O que comemos para substituir tudo o que nos dão a todas as horas em pratos de informação nem sempre realista, em filmes e shows onde a beleza deixou de ser o mais importante para dar lugar ao mais chocante? 
Também tenho uma dieta, em função do que pode trazer benefício à minha saúde e aos problemas que aqui e ali vão aparecendo. Também eu de vez em quando prefiro o silêncio às salas cheias, para fazer uma limpeza na minha mente, restabelecer as prioridades da minha vida.
Afinal não critico as dietas. Depende por que são feitas. Só isso.