segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

VOLTEI!

Não desisti, de todo. Os meus seguidores e leitores terão pensado que desapareci, que decidi parar de escrever.  Nada disso. O final de ano e o princípio deste 2016 foram muito difíceis. Estive muito doente, passei o Natal na cama com uma destas gripes de "estimação",  uma tosse tão violenta que nem o antibiótico parecia conseguir vencer. Num desses acessos de tosse, desloquei uma vértebra na coluna e aí é que a coisa piorou. Durante 20 dias não consegui deitar-me. Cada vez que o fazia, os espasmos de dor eram como choques eléctricos que me atravessavam toda. Dormitei, neste dias, num sofá com pés, sozinha, na sala. Noites imensas, enormes, porque ouvia todos os sons da rua e a partir de uma certa hora, o sino da igreja, implacável, dizendo que a manhã estava  a raiar.
Nesse estado de dor intolerável, fui visitada por "anjos" que me trataram, por orações de amigos que suplicaram a Deus por mim, pelo carinho de quem me conhece e estima. Mas mais do que isso, nas longas horas da noite, a Palavra de Deus foi o meu consolo, a Presença de Deus foi o meu ânimo, o Espírito Santo que vive em mim, o meu consolo. Nas horas de meditação silenciosa, entendi mistérios que nunca tinha desvendado, entrei nas profundezas da minha alma e fiz balanço à minha vida.
As dores, físicas ou emocionais que nos assaltam, podem ser um meio único pata nos fortalecer e nos levar a querer ser pessoas melhores, mais compassivas, tolerantes e cheias de graça. Ainda tenho um longo caminho até ficar bem, completamente, mas isto tudo para dizer-vos que ESTOU DE VOLTA!

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

MISTÉRIO


O mistério da encarnação. Cada ano que passa e medito mais profundamente sobre a vinda do Salvador dos homens, mais abismada fico com o plano profundo, único de Deus. 
Podia ter enviado o Messias de outra maneira...Ele poderia ter aparecido do nada e quando os homens dessem por isso, lá estava Ele no meio do templo de Jerusalém, com olhos faiscantes e uma espada de luz que dizia aos Seus inimigos de quantos actos de poder era capaz.
Podia ter nascido de alguma princesa judia, embora que nessa altura a classe real estivesse reduzida ao silêncio imposto pelos invasores romanos.
O mistério começa na escolha de uma menina vulgar, com sonhos do tamanho do seu coração e horizontes limitados pela sua terra  e família; com o meio pelo qual essa jovem fica a saber da vinda do Messias. Deus não vai colocar magicamente no seu colo uma criança, que crescerá até na idade adulta poder revelar a Sua identidade. 
Nada disto. O mistério é que a Palavra que criou os mundos e trouxe à existência tudo o que há, toma a forma de um embrião humano no ventre de Maria, precisa de nutrientes do seu corpo , cresce durante 9 meses e transforma o físico, as emoções, expectativas e desejos da mulher que O transporta.
O mistério é que nasce como qualquer bebé. Maria tem que fazer força para Ele se libertar do seu  corpo; a criança dá o primeiro grito quando os pulmões se enchem do oxigénio que alimenta a vida dos homens; dorme o primeiro sono encostado ao peito virgem da mãe.
O mistério é que Ele é Deus, inteiro, tomando a nossa forma para ser Homem inteiro.
O mistério é que Ele tem uma missão definida e viverá para ela.
O mistério é que o pecado não toca o Seu corpo e um dia oferece-se como oferta vicária pelos pecados do mundo.
Quanto mais medito, mais me espanto...
Hoje, o mistério avassala-me porque este mesmo Cristo está a ser formado em mim e eu quero  que o que desejo e espero, estejam dependentes completamente desse Ser que me transforma e me dá uma nova forma, uma nova maneira de ver e sentir....

sábado, 21 de novembro de 2015

JÁ É NATAL




Temos visto a cena de Natal, tantas vezes, retratada nos corredores da nossa memória!
Olhamos os quadros, gravuras e vídeos que nos tentam mostrar o que aconteceu e lá está, uma mulher vestida de branco, com um manto azul a cobrir-lhe os cabelos loiros. Ao seu lado  um homem encostado a um cajado, olhando embevecido uma criança deitada numa manjedoura de palhas limpas. Um boi, um jumento, uma ovelha, comendo a ração abundante de uma outra manjedoura. Será isto o Natal?

Vinde comigo a Belém. Transportai-vos no tempo e parai à porta da gruta. Lá dentro é húmido. O cheiro dos animais, mistura-se com o da palha e com o odor peculiar de um parto acabado de acontecer. A mulher que olha para a manjedoura, tem sobre si a roupa e a cobertura das mulheres simples de Israel. Sem aparato, feitas do tecido mais económico. Está suja da viagem, transpirada do esforço do parto.  O homem jovem ao seu lado não tem o ar de herói que esperávamos, mas de alguém cansado de uma longa jornada, frustrado, porque depois de bater a tantas portas, este foi o único lugar que achou para abrigar a sua mulher prestes a dar à luz.  O homem tem ainda no seu rosto o espanto das últimas horas, da experiência de ter ajudado a trazer ao mundo o seu primeiro filho.

Olhai bem. Deitado na manjedoura rude está uma criança. Um menino acabado de nascer. Enfaixado em panos, conforme o costume da Sua terra e do Seu tempo. Um menino de carne rosada, como todos os  recém-nascidos. Os olhinhos semi-cerrados, tentando habituá-los à luz fraca da lamparina. Um menino que chora com fome, que abre a boca sôfrego, quando é encostado ao seio da mãe – um menino.

Afinal que vistes? Um quadro de pobreza, igual a tantos outros? Não. Ajoelhai à entrada da gruta, porque o menino que nos nasceu, o filho que nos foi dado, tem um nome sublime: MARAVILHOSO, CONSELHEIRO, DEUS FORTE, PAI DA ETERNIDADE, PRÍNCIPE DA PAZ!

Aqueles centímetros de corpo humano são O VERBO DE DEUS, Aquele que com a Sua palavra criou os mundos e trouxe à existência o que ainda não havia.

Este é o grande mistério do Natal. Deus feito carne, Deus tornado homem, para nos entender perfeitamente, para ficar connosco – EMANUEL!

Este menino não vai ficar na gruta. Crescerá, será homem e, um dia, na flor dos Seus anos jovens, subirá ao  Calvário, carregando sobre os ombros uma cruz. O Verbo de Deus, o Sustentador de todo o universo, abdicará de tudo o que tem de celestial e voluntariamente  se entregará à morte pelos pecados dos homens. Não numa atitude de herói-suicida, mas de amor-sacrifício, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus..

Se conseguires ver isto, agora, terás descoberto todo o verdadeiro significado do Natal. 


















quarta-feira, 21 de outubro de 2015

MEMÓRIA

As datas e acontecimentos importantes da nossa vida sucedem-se: aniversários, encontros com amigos especiais, casamentos, palestras, conferências, doenças, partidas e chegadas e até funerais. Todos eles são marcos de algo que faz parte de nós, que entram na nossa memória e encontram lá um lugar, umas vezes mais escondido, outras nem tanto. 
Algumas destas lembranças, enfiam-se em lugares tão complicados, que por mais que as procuremos, é preciso desarrumar umas, empurrar outras tantas, até as encontrarmos.
Mas hoje, uma dessas,  tão longínqua, enterrada nos vãos da minha memória, sem que o desejasse, teimou em querer aparecer. Não sei porque apareceu. Quando  consegui vê-la à claridade e ao olhá-la bem de frente, não gostei. Nunca foi bonita, diria até que era bem feia, mas hoje, passados estes anos todos, está com uma cor terrível, com uns tiques estranhos e acima de tudo cheira a mofo. Tenho alergia a mofo. Mas ela está na minha frente, com um riso de ironia e não sei como ver-me livre dela.
A nossa mente prega-nos partidas, mas a Palavra de Deus dá-nos repostas. Olhei a dita naqueles olhos vidrados e disse-lhe com voz firme: "Quero trazer à lembrança o que me traz esperança! A misericórdia do Senhor é para sempre, grande é a Sua fidelidade" . Mal acabei de falar, já ela se sumia, mais amarelada, mais vacilante...Não sei se encontrou algum buraco onde se meter, mas se voltar, leva a mesma resposta naquela cara deslavada e sem cor, até perder completamente a coragem de sequer levantar cabeça!

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

A SAMARITANA


Quem contou a história não lhe deu um nome. Não sabia, ou achou que não era importante. Ela era apenas uma mulher de Samaria, zona geográfica olhada com desprezo pelos judeus. Nunca ninguém se lembraria de falar sobre ela. A sua origem era obscura, a sua vida igual à de tantas outras da cidade. A diferença era a dor que carregava, bem fundo, no coração.
Quando a hora do calor apertou, pegou no cântaro, colocou-o à cintura e saiu. O sol castigava tudo onde tocava. Era a hora mais dura do dia e por isso, as ruas estavam desertas. Caminhou devagar até ao poço de Jacó. Ao longe pareceu-lhe ver a figura de um homem junto à fonte. Quando estava mais perto, apercebeu-se que era um judeu, pelas roupas e pelo corte da barba. Nervosamente pousou o cântaro. Apanhou a lata com que tiravam a água do poço, desceu-a devagar, em gestos calculados e quando ficou cheia, puxou-a e começou a encher a bilha. O homem levantou a cabeça e interrompeu-lhe o gesto. “Dá-me de beber!” O coração da mulher disparou. Um homem judeu a pedir-lhe água...Tentou fugir ao pedido, mas Ele insistia e falava agora de algo que ela não entendia. À medida que a voz profunda do homem se fazia ouvir no silêncio do descampado, o coração da samaritana parecia querer saltar-lhe do peito. A sua necessidade de água poderia ser suprida por artes mágicas, o homem dizia-lhe que tinha uma água que não acabava nunca. Era uma oferta cheia de atractivo. Não teria que vir mais ao poço, mas seria verdade? E de repente, do nada, Ele diz:”Vai chamar o teu marido!” A dor escondida, amarrada no mais profundo da sua alma, subiu-lhe na garganta. Em voz quase inaudível respondeu que não tinha marido. Afinal, não conhecia aquele homem, não precisava de desventrar a sua frustração de ter tido um marido atrás de outro. Os rostos daqueles homens passaram em segundos fugazes pela lembrança da sua alma. Cada um deles tinha trazido à sua vida uma dor sem limite, uma sede de amor insatisfeita, uma perda de dignidade, vergonha que escondia agora nos braços de um outro, que afinal não era seu marido. O desconhecido junto à fonte insistia com voz mareada de ternura, de um som que ela nunca ouvira antes, de um cuidado que nunca ninguém lhe prestara: “Disseste bem, ele não é teu marido”.
A samaritana puxou o balde outra vez. Ele tinha-se calado, mas ela não conseguia. Este homem deveria ser um profeta, pois conhecia a sua vida! Já agora queria saber que tipo de profeta era ele, para tirar tempo da sua jornada para falar com uma mulher. A conversa subiu de tom, à medida que Ele respondia às suas questões sobre religião. 
Silêncio, outra vez. Escassos segundos apenas, antes de  ouvi-Lo dizer: “EU SOU o Messias, eu mesmo, que falo contigo!” Encostou o cântaro cheio de água, levantou os olhos para o homem à sua frente  e reparou que outros se aproximavam. Era a deixa para correr dali e ir à cidade contar a quem quisesse ouvir, que um homem lhe tinha dito tudo sobre a sua vida, sem ser abusivo, sem olhá-la com desprezo, sem palavras de condenação. Dentro dela havia como que um rio a correr, sentia-se lavada, purificada. Tal como Ele dissera, a alegria era como uma fonte a jorrar. Esqueceu a água que ficara junto ao poço. Esqueceu os anos de tortura e culpa por ter vivido à margem da lei. Nos seus ouvidos e no seu coração havia umas palavras que não paravam de ecoar como se fossem sinos em dia de festa: “Sou EU mesmo, que falo contigo!”
Junto ao poço de Sicar, o Messias olhou para a comida que os discípulos tinham ido comprar e  num tom de voz que eles sabiam não precisar de resposta disse: “Estou saciado. Já comi o que tinha a comer”.
Na alma da samaritana  a água viva saltava para a vida eterna. No coração do Messias não havia fome, estava saciado de um pão de obediência ao desígnio do Pai. 
O sol escondeu-se naquela tarde pintando o céu de cores de esperança. Em Sícar, junto ao poço de Jacó.




quinta-feira, 8 de outubro de 2015

COMPARAÇÕES

Não há como não fazer comparações. Mesmo sem querer, elas saltam diante dos nossos olhos. E começam sempre por algo parecido com isto : Como é que tem e eu não tenho? Por que pode e eu não posso? O que fiz tão errado para o resultado ser este?
Podemos chamar o que quisermos a estas reflexões, que vêm sempre carregadas de dor, de impotência, de um sentimento de alguma perda e de um objectivo que não foi atingido.Mas o que é certo é que elas aparecem e nos espreitam de vez em quando...  Tenho amigos que dizem:" não lamento nada do que fiz na minha vida!" Outros ainda vão mais longe: "Se vivesse outra vida, faria tudo igual!"
Concluo eu que devo ser uma raridade no meio de uma geração que se sente tão realizada. Pois eu não sou assim. Queria ter feito mais, gostaria de ter sido mais bondosa, melhor esposa, melhor mãe.  Esta última então, persegue-me. O que poderia ter feito melhor? Amado mais? Corrigido mais? Ter ficado mais atenta? Os filhos crescem, seguem a sua vida, fazem escolhas e nós, como treinadores no banco, definimos onde erramos, o que perdemos e por que falhamos. O jogo desenrola-se na nossa frente e por mais que esbracejemos, eles defendem-se como podem e atacam  para se defenderem. 
Às vezes pergunto-me por que não ficam sempre com os olhos pregados em nós, ouvindo, imitando...Acho que a razão é simples: eles próprios descobrem que também nós fizemos jogadas perigosas, inaceitáveis e que se estivéssemos ainda em  campo, não saberíamos  entender a estratégia do adversário.
Não chega encolher os ombros e seguir em frente. Para mim não é suficiente. 
Ter um problema existencial desta natureza na minha idade, pode ser perigoso. O melhor é fechar a loja por hoje e dizer como todo o mundo: "está tudo bem!"


segunda-feira, 28 de setembro de 2015

TEMPOS...

Não são só as cartas que desapareceram. O progresso trouxe novidade, facilidade e rapidez à nossa vida, mas trouxe também o desaparecimento de coisas pequenas, belas e doces que faziam parte do dia a dia. Abrir de manhã as janelas e as portas para o ar fresco entrar e dar os bons dias à vizinha que, no outro lado da rua, sacudia o tapete do quarto. Esperar o carro do pão, na esquina da rua, porque queremos escolher o que mais nos agrada...
Já não sacudimos tapetes, as janelas ficam fechadas e as portas, essas têm agora umas trancas inventadas em qualquer outra galáxia. O pão daqui a pouco começa a vir embalado e não há mais escolha...
Na minha aldeia ainda consigo perceber que as pessoas são humanas, não os autómatos  que  correm de um lado para o outro, de um transporte para o outro, caras fechadas e olhos tapados com grandes óculos escuros. Por aqui ainda sabemos quando há um casamento e os  funerais são anunciados pelo sino da igreja. Nestas ruas, as mulheres ainda param no caminho para as compras, a conversar sobre a vida alheia, porque ainda não é meio dia! A partir dessa hora, sim, os almoços fervilham, as crianças voltam da escola e nos bancos de pedra, só há homens, em amena cavaqueira, a discutir o último golo do seu clube, à espera do sinal para atacar o almoço. 
Corre tudo assim, mais ou menos calmo. Tão calmo que, quando uma ambulância para à porta de alguém, juntam-se os que podem para ver e dar opiniões. Tão curioso que, quando casa a filha da vizinha tal, o adro da igreja  fica cheio de gente só para ver a noiva. "Via-a nascer", dizem de sorriso atravessado. "Ainda ontem era uma menina, que nosso Senhor a faça feliz!", murmuram umas para as outras. Tudo isto vai desaparecer um dia. Quem sabe, até a aldeia vai ficar deserta. A escola tem menos crianças. As noivas vão morar noutro lado. Quem cá está vai ficando a remoer a saudade do que foi...Tempos.