quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

QUE TEMPO!

O Outono chegou, instalou-se, molhou tudo, obrigou-nos a ir buscar agasalhos, botas e meias e, quando já estávamos a pensar que era assim que viveríamos nos próximos  4 ou 5 meses, de repente, arrepende-se, enrola as mantas e despe-se outra vez, encalorado e soalheiro.
Tenha lá paciência, amigo tempo, não há condições para viver nesta incerteza!
Enquanto procurava uma blusa mais fresca no armário, imaginei que a nossa, a minha vida, também tem destas reviravoltas. Sento-me quietinha, como se o tempo tivesse parado para mim, fecho os olhos e languidamente deixo-me levar nesta quietude de quem já não tem um horário a cumprir, nem a quem prestar grandes contas.
Mas de repente, o telefone toca, abro o correio e acabou o sossego. Lá vou eu outra vez. Malas feitas, bilhete na mão para outro desafio e desassossego! Novas experiências, novos amigos, oportunidades únicas de crescimento e de abençoar outros. Tal e qual como este Outono, que teimou em ser Verão outra vez.
O tal tempo do tão esperado sossego, de me enrolar nas mantas, ainda vem longe. O Inverno mesmo, é só daqui a dois meses, ainda vai haver dias de sol e o tal "Verão de S.Martinho", que por mais fugaz que seja, até empurra os mais afoitos para um banho de mar.
O melhor é mesmo aproveitar, enquanto a hora não muda...

quinta-feira, 9 de Outubro de 2014

PERFEIÇÃO



Um dos sonhos da nossa vida era que as nossas relações, filhos, amigos, empregos fossem perfeitos. Tentamos por todos os meios que seja assim. Corrigimos aqui, cortamos acolá, camuflamos deste lado e escondemos daquele, para que os que nos rodeiam olhem pelas nossas janelas e vejam um casamento onde tudo é carinho, concordância, paixão; onde os nossos filhos são sempre obedientes estudiosos, crentes, saudáveis, os primeiros da classe, os melhores no desporto que escolheram; onde os amigos são sempre fiáveis, fieis; onde os empregos são bem remunerados e os nossos patrões nos elogiam frequentemente e os colegas nos respeitam e nunca são desonestos. Sonhamos…
Mas não é assim. E como não é, procuramos avidamente fazer comparações com outros, tentando tornar as nossas faltas mais pequenas, comparadas com as deles, ou a nossa frustração menor se a vida deles é menos fácil e bonita. Temos muita dificuldade em entender que na nossa casa, relação, amizades, Deus está a trabalhar um plano perfeito (Ele sim, é perfeito!) através das frustrações e erros do nosso dia-a-dia. Que os processos do Todo-Poderoso englobam exatamente essa imperfeição perturbadora, para nos fazer chegar mais perto daquilo que Ele intencionou para a nossa vida.
O que me irrita pessoalmente é que todas as vezes que fazemos as tais comparações, esquecemos de fazê-las com a Sua perfeição. Aí o padrão absoluto que exigimos e sonhamos para a nossa vida, ficaria mais leve e mais doce, porque foi isso que Ele prometeu.
E esqueço também que os outros que têm os mesmos problemas de imperfeição, podem animar-se ao olhar para a minha vida, quando me levanto de uma queda, de um erro, porque Ele me deu a mão…
Um dia chego lá. Um dia serei perfeita. Mas ainda estou no processo, lentamente, mas sem desistir.


sábado, 13 de Setembro de 2014

Estou num belo hotel na Noruega. Esperando ser atendida pela recepcionista, vou reparando nas variadas coisas em cima do balcão. Uma delas chama a minha atenção mais do qualquer outra: Um pequeno escaparate com postais ilustrados da região. Vê-se que estão ali há muito tempo. Sente-se que ninguém os olha com olhos de ver. 
Vou lá atrás no tempo, quando os postais ilustrados eram obrigatórios para quem viajava. Tinham pouco espaço para a escrita, mas chegava dizer "estou, bem". "Amo-te". "Já tenho saudades" "Isto é muito bonito, mas não há como a nossa terra..." 
Às vezes os tais postais chegavam já depois de nós. Era dificil encontrar os correios da localidade, nem sempre havia transporte rápido para a distribuição.  Mesmo assim, conheço gente que coleccionou centenas deles, como prova quase viva dos lugares onde foi feliz...
Hoje ninguém os compra. Para quê? Os Iphones, Ipads, máquinas fotográficas sofisticadas e rápidas, tiram as fotos que nos custavam algum dinheiro e esforço. E em vez da maçada de procurar a tal estação de correios, mandam-se as fotos por mail, por mensagem, pelas redes sociais. Diferença: faltam as tais palavras doces no fim. Mas acho que isso também está a cair em desuso.
Olhei triste para os postais do hotel. Longe vão os dias em que eram escolhidos e acarinhados.
O mundo mudou. Nós mudámos. Alguns para melhor, outros não tanto.
Pensei nessas mudanças. Amei a transformação da minha vida, do que era, para o que sou hoje e o que ainda poderei ser amanhã em Deus. 
As outras coisas são apenas adereços. O verdadeiro está dentro de mim. O real, é o que Deus faz hoje. Não gostaria de voltar a ser quem era há 20 anos atrás. Nada! 
Por baixo deste postal vou escrever: "De glória em glória"!
o

terça-feira, 12 de Agosto de 2014

SONS DA MINHA ALDEIA

Quando a nossa rotina fica mais lenta e os dias passam mais calmos, damos valor a pequenos pormenores que nos passavam desapercebidos. Hoje acordei com os sons da minha aldeia a entrar-me pelos ouvidos como se nunca os tivesse escutado.
Na rua, mesmo junto à minha janela, duas vizinhas conversam sobre a vida dos outros. Mas o tom de voz é perfeitamente audível. Nem se preocupam se mais alguém vai  ouvir...
Lá mais distante, ouço o som da sirene dos bombeiros, pedindo ajuda aos seus voluntários para uma missão necessária. 
O relógio da igreja toca de meia em meia hora, assinalando o tempo que se escoa sem piedade. Há dias em que o sino no campanário tem um toque que não gostamos: alguém morreu.
De repente o silêncio é quebrado pelo sinal da carrinha do pão. E lá vão os clientes diários buscar o dito, quentinho, estaladiço, feito algures numa padaria de Mafra. 
As pessoas ainda conversam da sacada da casa para quem passa na rua. 
Quando a ambulância para junto a uma casa, os vizinhos correm para prestar o seu auxílio; quando uma mãe traz à rua o seu bebé pela primeira vez, o grupo das amigas e não só, fala alto, descreve o que aconteceu aos filhos e aos netos quando nasceram, mesmo ali, no meio da estrada!
O vizinho que mora no largo da igreja, abre as janelas de par em par e toda a gente terá que ouvir uma sessão de fados e guitarradas. 
Um outro senta-se num banco de pedra e fala ao telefone com quem está do outro lado, mas também com metade da aldeia!
Em dias de festa ( e são muitos) o povo vem às janelas ver a banda passar, enquanto os mais corajosos seguem atrás, porque lá têm  o marido, o filho ou o afilhado...
Como amo esta terra! Não nasci aqui, mas tanto da minha vida está aqui ...
Agradeço a Deus por me ter trazido de longe para um lugar tão desconhecido, mas onde tenho sido tão feliz!


quarta-feira, 6 de Agosto de 2014

FARDAS



Sentada no átrio de um grande e moderno hospital, dá para pensar, imaginar, seguir os movimentos das pessoas que entram e saem. Cada um carrega em si uma história, uma tragédia ou um drama. Por que hospital não é lugar para festa nem piquenique...
Mas hoje, na minha observação, detive-me nas outras pessoas, os profissionais do hospital. Uns passam apressados, com passos firmes, sem olhar para ninguém. Têm algo importante em mente e perseguem o seu objectivo. Outros, em pequenos grupos, conversam, riem e dirigem-se para a cafetaria onde poderão comer e beber qualquer coisa que lhes quebre a rotina dura e lhes dê ânimo para continuar. Reparei ainda noutro pormenor: os pequenos grupos são compostos de pessoas com a mesma farda. Nada de misturas. E fiquei ali a adivinhar o que cada uma delas representa: o pessoal da administração, os auxiliares, fisioterapeutas, médicos, enfermeiras e uns senhores todos vestidos de azul, que, penso eu, terão alguma coisa a ver com a cirurgia...
Ao chegar-nos junto de uma destas pessoas, sabemos o que pedir-lhes, o que esperar delas, as respostas ou não que irão dar-nos. Aquela farda ajuda-nos a conhecer a sua identidade, quem são, o que fazem...
Eu não tenho farda. Nos vários serviços e trabalhos da minha vida nunca precisei de uma. Mas tenho uma identidade. Será que as pessoas que se chegam a mim, sabem o que esperar, o que pedir e o que receber? Será que mesmo sem farda, a minha vida transmite aos que me rodeiam a segurança da resposta, o ânimo da direcção e até o carinho inesperado?
Lá, sentada no hospital, pensei em Jesus Cristo, vestido como qualquer galileu do Seu tempo, sem a “farda” pesada dos fariseus, sem a túnica pomposa dos centuriões romanos, mas ainda assim, atraindo multidões, chamando crianças, rindo e comendo trigo fresco com os discípulos, tocando os pobres, os marginais, curvando-se sobre uma escrita misteriosa na terra, enquanto uma mulher apanhada em adultério espera a sentença de morte...
Desejo muito que aquilo que sou me diferencie do resto, para que os necessitados, os que não têm amigos, nem abrigo, se cheguem a mim, sem receio de ser enganados, sem medo de um estatuto que os obrigue a pedir, de olhos baixos...  

segunda-feira, 14 de Julho de 2014

ENTUPIMENTO



Tema estranho, este que escolhi para hoje: entupimento!
Qualquer coisa entupida é muito inconveniente e desagradável. Desde o nariz, até um cano, um sanitário, o intestino, o trânsito, não sei qual deles é pior... Essa desagradável e incómoda condição, resulta do não escoamento do elemento que deveria passar livremente.
Alguns entupimentos são facilmente detectados e outros nem tanto. Alguns provocam doença, outros, inconveniência, mas todos, todos precisam de atendimento rápido.
Digo isto, porque ontem a falar com alguém, dei-me conta como aquela pessoa foi tão livre, tão feliz e hoje, a sua vida está entupida de projectos e trabalhos, que pouca ou nenhuma realização lhe trazem. Esse estado deixou-a sem sorriso, sem gargalhadas, sem tempo para ler um livro ou ir ao cinema. Impede-a de gozar o que tem, de desfrutar a família. O entupimento é tão grande que me dei conta que, a uma certa altura da conversa, o ar parecia estar a faltar-me. (Estarei entupida, também?)
A nossa alma é como uma enorme esponja, que vai acumulando sensações, alegrias, dores, cansaço. Um dia temos que espremer tudo e permitir que ela seja cheia de algo novo. A ideia cristã de vida plena é assim, sem entupimento, correndo livremente, saltando como fonte.
Hoje vou fazer uma boa limpeza à minha alma. Não quero nada entupido por aqui. Quero que a graça, o amor, a alegria, a compaixão e a bondade, passem livremente, sem embaraços ou impedimentos.
Mãos à obra!

domingo, 29 de Junho de 2014

FORÇA PORTUGAL!



Durante poucas horas, o país ficou em bicos de pés para ver a selecção nacional jogar futebol. Esqueceu a crise interna dos partidos políticos, os cortes salariais, as injustiças, o estado social decadente, o desemprego e as faltas imensas do dia-a-dia. Ficou colado aos ecrãs das televisões, comprou roupa a condizer, pintou a cara das cores nacionais e pendurou bandeiras nas sacadas. Uma frase foi dita milhares de vezes, como se tivesse o poder de mudar o correr da bola, a técnica e perícia dos jogadores, “força, Portugal!”
A reflexão que fiz nestes dias de desilusão futebolística, deve ser a de centenas de outras pessoas (digo eu). É que não me lembro de ouvir este grito por mais nada neste país. Os heróis, são apenas 23 homens a tentar vencer um campeonato de futebol? Nesta nação não há mais ninguém a precisar de ouvir esse grito de força? Haverá por aí meia dúzia que se junte a mim para gritar “força, professores de Portugal”, que trabalham incansavelmente para ajudar a educar miúdos deseducados em casa? Alguém se prontifica a dar “força” aos médicos, enfermeiras e pessoal de saúde que, nos hospitais, trabalham horas sem fim, para que as pessoas consigam viver minimamente saudáveis? Aos bombeiros, que arriscam a vida, porque alguém com resquícios de loucura resolve deitar fogo a uma floresta? Aos operários que mantêm as fábricas a funcionar, para que os bens de consumo não faltem a este povo?
A minha lista é enorme, a lista dos tais que precisavam ouvir o grito de força e que, de vez em quando fazia-lhes bem receber palavras elogiosas e agradecidas.
No fim (a meio), a selecção voltou para casa envergonhada, de madrugada, ainda o dia não rompera. As bandeiras foram tiradas, as camisolas guardadas para outros festivais e os bolsos dos jogadores recheados de qualquer coisa que nunca vai passar pela vida dos simples mortais que se desfiguraram a gritar.
Quando é que vamos orgulhar-nos de algo mais que não seja futebol? Quando é que vamos chamar aos pódios deste país os heróis que fazem desta nação a valente, a imortal? Quando será que levantamos de novo o esplendor deste jardim à beira-mar plantado, com os nossos elogios e orgulho pelo que temos?
Reflexão nocturna de alguém que gosta muito de futebol, mas que não vai em futebóis...