sexta-feira, 9 de outubro de 2009

SEM GÁS



O despertador toca, implacável. Salto da cama (melhor, arrasto-me para fora...) a caminho de um dia que tem tudo para ser "interessante": um almoço com uma amiga, uma reunião na igreja, levar a neta ao cabeleireiro (precisa de um corte naqueles caracóis), preparar um jantar melhor (o de ontem foi feito à pressa), fazer uns telefonemas a propósito da próxima conferência de mulheres. Abro a torneira, distraidamente, espreguiçando as últimas ondas de sono. A água corre, fria, sempre fria.
Ouço uma voz do outro lado da casa:

-“Não há gás! Estamos sem gás!”

De repente, tudo fica de uma cor esverdeada (dentro de mim, claro...), mas as palavras batem-me como martelos: “não tenho gás!” Como é que esqueci una coisa tão importante? Como é que deixo acabar algo que é essencial?
É isso mesmo. É assim que me sinto por dentro também. Tenho dado tanto de mim aos outros ultimamente, que esvaziei completamente, lentamente, sem dar por isso e sem me aperceber que a fonte da minha energia, o tempo que passo com Deus, na Sua intimidade, no Seu esconderijo, já foi há algum tempo... Mas há tantos afazeres. Tantas pessoas que precisam do meu conselho, tantos a necessitarem de oração e intercessão. Tantas cartas para escrever, reuniões para planear, roupa para passar, comida para preparar...
Sento-me na banheira fria e ali mesmo, elevo os meus olhos para Deus: “Senhor, estou aqui mais uma vez...sem gás!”
Como posso ser influência para os outros se a força dessa influência que vem da minha intimidade com Deus, enfraqueceu, esmoreceu, apagou?
A palavra intimidade tem a sua origem na raíz latina intimus, que significa “o mais interior”. O apóstolo Paulo entendeu perfeitamente essa necessidade de intimidade com Deus, quando disse aos crentes de Filipos “...pelo qual sofri a perda de todas as coisas e as considero como lixo para que possa ganhar Cristo”. (Fil 3:8). As suas capacidades, estudos, habilidades e dons naturais, para ele ficaram nada, comparados com a ânsia de compreender e conhecer melhor o Senhor.
O meu problema é que preencho a minha vida de coisas, pessoas, actividades, programas, que não são necessariamente maus, mas que ENCHEM o meu espaço interior.
Corro de um lado para o outro tentando ser a esposa perfeita, a líder gigante, a resposta para as questões que me põem, o conforto para cada desalento e a solução para o problema dos outros e por fim...não tenho gás!
É altura de parar, reflectir no que é prioritário, sobre o que é importante.
Ainda ontem ouvia uma querida mulher contar-me um rosário de peripécias complicadas que têm surgido ultimamente na sua vida, algumas delas bem estranhas, uma série de “asares”, coisas que normalmente se resolvem, mas que ao virem todas ao mesmo tempo, se transformam numa tempestade para a qual não há abrigo. Só consegui dizer-lhe as palavras do salmista “abrigo-me debaixo das Tuas asas até que passem as calamidades”. Esse é o lugar da intimidade, onde tudo o resto à nossa volta fica pequeno, sem a importância que parece ter, por causa do tamanho das Suas asas e do precioso da Sua presença. Aí se recebe consolo, descanso e força.

1 comentário:

  1. Sarah...cada texto teu que leio é um refrigério! Como consegues tu falar de assuntos e questões com que nos identificamos de uma forma tão leve mas que nos absorve!Fantástico! Cada vez que venho aqui fico com vontade de ler mais....
    Um beijinho grande!
    lolita

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