terça-feira, 6 de abril de 2010

OLHANDO PARA TRÁS...

A Páscoa já lá vai. Mas os pensamentos daqueles dias ainda são muito nítidos. Por todo o lado se fizeram celebrações, recitais, cantatas, teatro, demonstração da arte do homem diante do que é profundo, belo e ao mesmo tempo incompreensível. Por que a morte do Filho de Deus continua a ser isso mesmo. É um relâmpago na escuridão, uma pedrada num charco, uma dor que produz vida, um véu que se rasga e deixa ver o que estava envolto em sombras.
Nesta Páscoa, sentei-me no cenáculo. Vi o Mestre levantar-se. Os olhos dos discípulos seguiram a Sua figura recta e forte, para depois se abrirem de espanto ao vê-lo cingido com uma toalha e transportando nas mãos uma bacia de água. Ajoelhou-se diante deles e começou a lavar-lhes os pés sujos, poeirentos, suados. As Suas mãos doces derramavam sobre cada pé não só água, mas cuidado, ternura, amor.
Vi-O sentar-se à mesa e comer o cordeiro, as ervas amargas e o pão. Fiquei tensa ao ver o horror nos olhos dos doze homens, quando Ele disse: “Comei do meu corpo...bebei do meu sangue...”.
Cada uma das Suas afirmações, naquela noite, estava envolta em profundo mistério que a mente dos discípulos não conseguia atingir. Por isso seguiram-no em silêncio até ao jardim. Aquela seria a última jornada com o Mestre. Eles não sabiam, mas pressentiam algo final nas Suas palavras, nos Seus gestos.
Vi os soldados prenderem-no e levarem-no para um tribunal inventado na hora. Vi Pedro aquecendo-se junto da fogueira que tinham feito no pátio. Horrorizada e tremendo, ouvi-o negar o Mestre que tanto amava.
De longe vi a cena da crucificação. Brutal, horrenda, sangrenta. De repente o céu escureceu, a terra tremeu, parecia que a Natureza vomitava diante de tanta injustiça.
Vi a rocha aberta onde colocaram o Seu corpo. A enorme pedra que rolaram sobre a entrada.
Nas sombras da madrugada segui as mulheres que iam ao sepulcro. O cheiro das flores era inebriante àquela hora do dia. O silêncio do jardim era só quebrado pelos pássaros que começavam a mexer-se nos ramos do arvoredo. Um fio de água corria de uma fonte perto e marcava o compasso incessante da música da natureza.
Uns passos atrás delas, vi o lugar da sepultura. Parei maravilhada, a pedra tinha rolado, o túmulo estava aberto a quem quisesse entrar. Elas estacaram. Sem saber o que fazer, olharam umas para as outras num misto de espanto e apreensão. Maria Madalena pousou numa pedra a caixa com o unguento e entrou temerosa, para recuar logo em seguida: Jesus não estava lá. A pedra onde O tinham deitado estava vazia. Os lençóis e o lenço que tapara o Seu rosto estavam de lado, mas não havia sinais do Mestre. Em vez dele, uma figura angélica avisou-as que Ele ressuscitara, o príncipe da vida não podia estar no meio dos mortos.
Correram pelo caminho para chegar à cidade e contar o que acontecera.
Eu fiquei por ali. Estupefacta, jubilosa, inebriada de emoção...mas tenho que ir! Tenho uma mensagem para contar ao mundo: Ele ressuscitou! Ele está vivo! Não posso ficar agarrada à emoção de um dia, ao sentir de uma hora que foi única. Os outros à minha volta têm que saber...Um dia novo acaba de nascer.

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