sexta-feira, 19 de novembro de 2010

IDENTIDADE FAMILIAR

A minha amiga e o marido nem podiam acreditar. Olharam um para o outro, descrentes, porque a sua menina estava a fazer a mala para ir embora de casa. Nem sabiam se haviam de rir ou chorar. Afinal a menina tinha só 6 anos.
E foi mesmo. Só que a família do outro lado da rua que a recebeu, quando chegou a uma certa hora, disse-lhe que estava na altura de voltar, porque era dia da sua família ir à loja de gelados. Faziam isso todas as semanas. A pequena resolveu telefonar para casa e perguntar se, mesmo tendo saído com malas e bagagens, ainda tinha direito à tradição familiar. Claro que foi recebida de braços abertos e lá foram felizes e contentes comer o gelado da praxe”.

Li esta pequena história que me fez pensar se as famílias de hoje têm tradições, cultura, valores, costumes, uma identidade toda própria. Infelizmente, o mundo “enorme” e ao mesmo tempo “encolhido” em que vivemos, tem outras coisas que substituem essa tradição prazeirosa de se saber que no aniversário da mãe faz-se isto, que no Natal é costume cantar aquilo, que todo os verões, mal o tempo da praia chega, a família vai fazer mais aqueloutro...São tradições tão simples quanto estas que permitem que a família fique junta, que os laços não rebentem de uma vez.
Além de que, uma identidade familiar também ajuda os filhos a desenvolverem uma auto-identidade forte e saudável. Saberem o que torna singular a sua família, dá às crianças e aos jovens um ponto de partida para descobrirem o seu lugar no mundo. Têm sido feitos estudos que mostram que os miúdos que se identificam com os valores da sua família são menos promíscuos e enfrentam um risco menor de abuso de substâncias.
Para que esta identidade familiar se estabeleça, são necessários a presença física dos pais, refeições juntos, jogos e brincadeiras em família. Uma outra maneira de firmar este laço é a celebração. Celebre tudo o que há para celebrar. O nascimento de um pintainho, uma flor recebida como surpresa, uma refeição feita com requinte, um bolo desejado há muito tempo, um bom relatório escolar...sei lá, o céu é o limite! Mais, fale sobre Deus, sobre fé, sobre oração, fale sem esforço, naturalmente, acerca de assuntos tão palpitantes como a confiança num Deus que não se vê, mas que está lá!
Mesmo que o filho faça a mala e saia, um dia volta. A saudade do cheiro dos lençóis, do odor único dos bolos de canela, das conversas e dos risos, vai trazê-lo outra vez.
Lá, por onde andar, é tudo frio, sem sabor e sem cheiro. Sem identidade familiar.

3 comentários:

  1. Sara que texto magnífico. Obrigada por partilhar minha amiga. Outro dia falava com uma amiga sobre o quotidiano. O dia a dia que passa depressa e que nem temos tempo de observar. Quando vemos o tempo se foi, a mesa ficou vazia, os sorrisos queridos deixam de nos rodear e o que fica é a saudade e a impossibilidade de voltar... Que coisa preciosa é o quotidiano... presente de Deus para nós e que precisamos aprender a valorizar...

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  2. Se não houverem lembranças, o que nos sobra, afinal? Quando a cadeira fica vazia, ainda podemos lembrar o que acontecia, cada vez que ela era arrastada,usada e assim a vida fica cheia outra vez!

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  3. Cansado estou eu de exclamar - a casa do pai é sempre a casa do filho. As minhas sabem disso e todas quantas já voaram levaram consigo a chave da nossa casa. E entram quando quiserem. Até mesmo quando não estou presente. E que bom é saber que desejam ir à casa do pai. A única tristeza é a mãe não estar para poder alegrar-se também connosco. Mas onde se encontra, Deus certamente, como bom Pai que é, deve permitir-lhe saber dessas notícias.
    Jorge Pinheiro

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