quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

PRESÉPIOS


Olho para todos os que nesta quadra do ano estão expostos nos mais variados lugares: montras, igrejas, largos, rotundas, teatros...sei lá, por aí. Olho até para umas figuras que todos os anos vou buscar à arrecadação e que faço questão de colocar num lugar bonito da minha sala e que me lembram um homem e mulher vestidos com trajes orientais, olhando para uma criança meio despida e deitado numas palhas... e sempre que os contemplo, pergunto-me outra vez: como teria sido aquele nascimento, aquele evento único na história da humanidade?
Nestes dias que antecedem o tempo das festas natalícias, dou comigo a ler os evangelhos e a imaginar, a dissecar mais uma vez, como foi o nascimento de Jesus.
Vejo um casal jovem atravessando estradas poeirentas, dias e noites de viagem cansativa, com um destino em mente: Belém da Judeia, para um recenseamento obrigatório. O homem, José, pertence à casa de David, o rei de Israel mais amado e profético. A mulher, sentada sobre a montada, tapa com o manto uma gravidez já bem adiantada. As palavras entre os dois são escassas e cuidadas. Aquele não é um casamento normal e muito menos uma gravidez desejada. José ainda pondera o tumulto de emoções que o tomou, meses atrás, quando descobriu que Maria, sua noiva, estava grávida. Como, se nunca houvera qualquer intimidade entre eles? Não houve muitas explicações, as que ouviu ele não as entendeu, mas porque era justo e bom, ruminou que a melhor maneira de evitar o escândalo, seria terminar o noivado, sem alarido, sem testemunhas. Maria ficou em silêncio, na maior parte das vezes em que o assunto foi trazido à conversa no seio da família. O que ela sabia era difícil ser aceite por mentes normais, o que ela contava da visita angélica que lhe anunciara que teria um filho e que “Ele salvaria o seu povo dos seus pecados”, ainda menos. José dormira pouco naquelas longas noites de dúvida e desgosto, mas numa delas, recebeu uma visita inesperada e única, de um anjo, que lhe assegurava que o casamento com Maria era para considerar, pois o que ela contava era a verdade.
Aproximaram-se de Belém. José via o cansaço espelhado nos olhos da sua mulher. Precisava de um lugar para descansar. Mas os parentes de José, já tinham a casa cheia de gente que chegara antes. Bateram a várias portas e a resposta foi sempre a mesma. Numa das casas onde procuraram abrigo, deram-lhes uma sugestão que aceitaram de bom gosto: o lugar onde guardavam os animais era abrigado e havia muita palha onde podiam fazer uma cama. Não sei que animais povoavam aquele lugar. Não sei a que horas o menino nasceu, imagino que alguém ajudou Maria a dar à luz, consigo vê-la fazendo à criança o que era normalmente feito a todos os recém-nascidos naquele tempo e a olhar em volta, procurando um lugar limpinho onde pudesse colocar a criança. Aproximou-se de uma das manjedouras e com um olhar indicou a José que aquela era a melhor. José colocou palha nova e ali, no quente do feno, adormeceu o Filho de Deus – encarnado, feito humano. Olharam os dois transfigurados para a criança que tinham na frente. José colocou os braços à volta dos ombros de Maria e naquele abraço, ela sentiu que agora tudo estava bem. Aquele menino seria dos dois. Aquele rapazinho rosado e pequenino faria parte da descendência de David, porque José O recebera como seu.
Romântico? Pode ser.
Invulgar? Completamente.
Único? Totalmente.
Divino? Absolutamente.
No meu presépio com cheiro a animais e feno, há pouco mais que um homem, uma mulher e uma criança acabada de nascer. Parecido a qualquer família. Diferente de todas elas. Porque o Menino não é só deles. É de todo o povo. De todos nós, afinal.

Sem comentários:

Enviar um comentário