quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

ÚLTIMOS DIAS

Fomos arrancando as folhas ao calendário. Cada dia uma história, cada hora uma parte da vida. Nem demos conta que as folhas iam diminuindo...que o calendário ficava mais perto do fim.
Estes trezentos e tantos dias ficaram marcados por lágrimas, por riso, por partidas e chegadas. Assistimos a funerais e estivemos presentes em bodas. Vimos os meninos nascerem e crescerem mais um pouco, os políticos a mentir e o povo a reclamar. Tantas coisas que acontecem num simples ano.
Olhamos para trás e há poucos dias que ficarão na memória. Talvez o dia de um aniversário especial, a data do nascimento de mais uma criança na família ou de uma despedida de um amigo que não vamos ver durante muito tempo. De resto, os dias passaram sem nota de grande importância. Os sobressaltos, os sustos, as alegrias, os momentos de prazer, as lágrimas e as dores, diluem-se dentro de nós para fazerem parte de quem somos, num recôndito do nosso ser que, segundo o poeta, ”é uma capela de ouro há cem anos fechada, onde não vai ninguém mas onde há festa ainda”.
Mas por cima deste enevoado de lembranças e memórias que desvanecerão, há um sol brilhante: a fidelidade de Deus, imensa, profunda, imensurável, inatingível, inamovível. Ele foi sempre Fiel. Ele É sempre fiel. Daqui a pouco viraremos a primeira página de um calendário novo e as Suas misericórdias continuarão a não ter fim, não importa o que nos acontecer. Os homens vaticinam crise, Ele vai estar lá. Os políticos adivinham mudanças terríveis, Ele vai permanecer. Os bruxos e adivinhadores encherão os programas televisivos com os seus chorrilhos de mentiras, mas Ele é a Verdade.
Que mais pode um ser humano desejar, se o Deus do Universo, invisível mas real, está aqui, connosco, Emanuel?

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

SINOS

Hoje o sino da aldeia onde vivo tocou longamente. À força de ouvir a sua música, já sei decifrar quando morre alguém, quando há festa na igreja, uma boda e hoje, um aniversário de casamento.
O tal sino já não é puxado por uma corda, como era antigamente. Tem agora um dispositivo electrónico que emite os sons que saiam do oco do próprio instrumento. Mas mesmo assim é bonito de se ouvir...
Os sinos geralmente fazem-se de metal, mas há sinos pequenos que também pode ser feitos de cerâmica ou vidro. Podem ser de qualquer tamanho: desde pequenos acessórios para trajes até sinos de templos que podem pesar muitas toneladas. No princípio da história do povo de Israel, os sacerdotes utilizavam nas orlas dos seus mantos dezenas de campainhas e esses pequenos instrumentos musicais deram lugar ao que hoje conhecemos como sinos.
Eu colecciono sinos. Trago um de cada cidade do mundo onde proclamo a Palavra de Deus. Já tenho uma montra bem bonita. Cada sino que compro tem ligado a ele uma história, várias às vezes, de pessoas, de experiências, de sabores e até de milagres...Tenho-os de metal, de vidro, porcelana, madeira, cristal...Uns mais pequenos, outros maiorezinhos. Mas os meus sinos não tocam. Estão lá, fechados numa vitrina, para me lembrar de algo importante.
Eu, pessoalmente, queria ser um sino daqueles que contam a verdade, mesmo quando ela é dolorosa, mesmo que faça alguém chorar. Também queria ser um daqueles que tocam em dias festivos, repicando sem parar, para dizer coisas boas, que não podem ser esquecidas, com o perigo de sermos ingratos. Queria tocá-lo longamente para proclamar que o Amor é a única coisa que existe no coração de Deus e que nunca esgota...e queria, acima de tudo, contar ao mundo histórias de milagres (como os meus, fechados na vitrina), porque vejo as pessoas sem esperança, à espera de uma música verdadeira e real, nem que seja de um sino...

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

PRESÉPIOS


Olho para todos os que nesta quadra do ano estão expostos nos mais variados lugares: montras, igrejas, largos, rotundas, teatros...sei lá, por aí. Olho até para umas figuras que todos os anos vou buscar à arrecadação e que faço questão de colocar num lugar bonito da minha sala e que me lembram um homem e mulher vestidos com trajes orientais, olhando para uma criança meio despida e deitado numas palhas... e sempre que os contemplo, pergunto-me outra vez: como teria sido aquele nascimento, aquele evento único na história da humanidade?
Nestes dias que antecedem o tempo das festas natalícias, dou comigo a ler os evangelhos e a imaginar, a dissecar mais uma vez, como foi o nascimento de Jesus.
Vejo um casal jovem atravessando estradas poeirentas, dias e noites de viagem cansativa, com um destino em mente: Belém da Judeia, para um recenseamento obrigatório. O homem, José, pertence à casa de David, o rei de Israel mais amado e profético. A mulher, sentada sobre a montada, tapa com o manto uma gravidez já bem adiantada. As palavras entre os dois são escassas e cuidadas. Aquele não é um casamento normal e muito menos uma gravidez desejada. José ainda pondera o tumulto de emoções que o tomou, meses atrás, quando descobriu que Maria, sua noiva, estava grávida. Como, se nunca houvera qualquer intimidade entre eles? Não houve muitas explicações, as que ouviu ele não as entendeu, mas porque era justo e bom, ruminou que a melhor maneira de evitar o escândalo, seria terminar o noivado, sem alarido, sem testemunhas. Maria ficou em silêncio, na maior parte das vezes em que o assunto foi trazido à conversa no seio da família. O que ela sabia era difícil ser aceite por mentes normais, o que ela contava da visita angélica que lhe anunciara que teria um filho e que “Ele salvaria o seu povo dos seus pecados”, ainda menos. José dormira pouco naquelas longas noites de dúvida e desgosto, mas numa delas, recebeu uma visita inesperada e única, de um anjo, que lhe assegurava que o casamento com Maria era para considerar, pois o que ela contava era a verdade.
Aproximaram-se de Belém. José via o cansaço espelhado nos olhos da sua mulher. Precisava de um lugar para descansar. Mas os parentes de José, já tinham a casa cheia de gente que chegara antes. Bateram a várias portas e a resposta foi sempre a mesma. Numa das casas onde procuraram abrigo, deram-lhes uma sugestão que aceitaram de bom gosto: o lugar onde guardavam os animais era abrigado e havia muita palha onde podiam fazer uma cama. Não sei que animais povoavam aquele lugar. Não sei a que horas o menino nasceu, imagino que alguém ajudou Maria a dar à luz, consigo vê-la fazendo à criança o que era normalmente feito a todos os recém-nascidos naquele tempo e a olhar em volta, procurando um lugar limpinho onde pudesse colocar a criança. Aproximou-se de uma das manjedouras e com um olhar indicou a José que aquela era a melhor. José colocou palha nova e ali, no quente do feno, adormeceu o Filho de Deus – encarnado, feito humano. Olharam os dois transfigurados para a criança que tinham na frente. José colocou os braços à volta dos ombros de Maria e naquele abraço, ela sentiu que agora tudo estava bem. Aquele menino seria dos dois. Aquele rapazinho rosado e pequenino faria parte da descendência de David, porque José O recebera como seu.
Romântico? Pode ser.
Invulgar? Completamente.
Único? Totalmente.
Divino? Absolutamente.
No meu presépio com cheiro a animais e feno, há pouco mais que um homem, uma mulher e uma criança acabada de nascer. Parecido a qualquer família. Diferente de todas elas. Porque o Menino não é só deles. É de todo o povo. De todos nós, afinal.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

QUEM ÉS TU?

(click na foto para melhor visualização)

“...onde estavas quando eu organizava a terra? Sabes quem fixou as suas dimensões, quem a mediu com uma fita métrica? Onde estão assentes os seus pilares? Quem assentou a sua primeira pedra, enquanto as estrelas da manhã cantavam e gritavam de alegria todos os seres celestes?
Quem fez jorrar o mar das duas comportas, quando saía impetuoso da sua fonte, quando lhe dei as nuvens para se vestir e a neblina para se cobrir? Eu impus-lhe um limite, fechei-o com comportas e ferrolhos e disse-lhe:”daqui para diante não passas, aqui têm de parar as tuas ondas mais fortes”.
Alguma vez deste ordens ao dia ou indicaste á aurora o lugar devido, para abarcar com as suas asas toda a terra e afastar todos os criminosos? A luz afugenta os criminosos e os que levantaram o braço ficam sem força para dar o golpe.
Já foste às nascentes do mar, ou passeaste pelo fundo do oceano? Foram-te reveladas as portas da morte? Viste a entrada para aquele reino de sombras? Consegues perceber tudo o que há na terra?
Qual é o caminho para o lugar onde habita a luz? Onde é a morada da escuridão?
Já foste aos reservatórios da neve? Viste os reservatórios do granizo que eu tenho guardados para uma hora de perigo, para o dia de combate e de guerra?
De que maneira se divide o relâmpago e sopra sobre a terra como o vento leste?
Quem abriu a passagem para a chuva, um caminho para as nuvens que trovejam? Qual é o pai que criou a chuva e fez nascer as gotas de orvalho? Qual é a mãe que deu á luz o gelo e a geada que cai do céu?
És capaz de atar as cordas que seguram a constelação das Plêiades ou de desatar as do Orion? Consegues fazer aparecer as constelações cada uma na sua altura própria e guiar a Ursa Maior com os seus filhos?
Conheces as leis que governam o céu e a influência que ele exerce sobre a terra? És tu que mandas embora os relâmpagos?
Que arranja comida para o corvo, quando os seus filhotes mortos de fome gritam a Deus por socorro?”
Sabes em que época nascem as crias das corças, já viste as gazelas darem à luz?...”
Parte de uma conversa poética entre Deus e o seu amigo Jó. Relatada nos capítulos 39-42 do livro do mesmo nome. (BPT)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

PORTUGAL


PORTUGAL

De cheiro de açucenas e madressilva, da flor da macieira, do almiscarado das figueiras, das estevas, das giestas, dos pinheiros e eucaliptos, do mosto e do azeite...
De brisas que sopram suaves nos vales; de entardeceres únicos e cálidos; de madrugadas musicadas por centenas de espécies de aves; de rios que correm tranquilos para o mar; de um oceano que já viu partir heróis e valentes e que é nosso, porque muito do seu sal são lágrimas do nosso povo...
De vinhas e trigais, de nogueirais, de amendoeiras, oliveiras e sobreiros...
De um povo que, embora embalado pelas notas pungentes do fado que o remete à saudade e ao passado, ainda acredita, mesmo tendo sido roubado da fé e da esperança...
De uma gente que abre a porta ao estrangeiro e põe a mesa aos visitantes...
De homens que continuam a inventar e a criar, mesmo sem serem reconhecidos...
De pessoas solidárias ainda que tendo pouco, que ousam ainda sonhar, mesmo sabendo que esses sonhos vão desfazer-se como nuvem passageira no profundo azul do céu...
Esta é a minha terra. Meu canto. Meu chão. Meu país lindo e único.