sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

GRANDES MULHERES

Termino o ano com um poema escrito por mais uma grande MULHER: Arlete Castro



Que estranho fenómeno é este

que num momento chegamos ao fim,

para logo a seguir começar outra vez?

Que dias são esses que passam

e correm acelerados,

que levam com eles a vida

arrastam a nossa história

e deixam memórias guardadas

arrumadas,

sem que se possa esquecer?


Que intensidade é esta

que nos faz transbordar de emoção

não pelos grandes eventos

que vem com os dias que correm

mas pelo quotidiano

repleto de risos, comidinhas caseiras

sonhos e muita brincadeira?


Que lágrimas são essas que rolam

enquanto o tempo passa correndo

e nem se quer pára

e repara que ele é preciso,

para apagar a dor

e arrumar lembranças

de gente que se foi,

dos sonhos de criança

e então correr outra vez?


Que sabedoria é esta

que enche a nossa vida de encanto,

acalanto para alma cansada

e que nos faz gerar

e driblar o tempo

e nos perpetuar...?


Que tempo é este

que pensa mandar nos dias,

mas não conhece o Eterno

e nem desconfia

que enquanto passa apressado,

acelerado

não tem autonomia,

segue cansado

de tanta fadiga

e nem vê que na verdade

“tem muito mais olhos

do que o tamanho

da sua barriga...” *


Arlete Castro

30.12.2011

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

OVELHAS SEM PASTOR...


O ano passado por esta altura, escrevi aqui umas palavras sobre presépios e imaginem...vou fazê-lo outra vez!
Mas desta, gostava de falar-vos do tal que armaram em frente do edifício da autarquia local. É grande, iluminado à noite, com as figuras tradicionais da virgem, José e o menino deitado na manjedoura. Os habituais animais utentes do local onde Jesus terá nascido, também estão lá. Mais ao lado as figuras dos magos que vieram para adorar o menino Jesus e depois...umas ovelhas dispersas sobre o musgo e arbustos. Fiquei ali uns minutos a olhar para o presépio, pois logo me apercebi que não estava completo. De repente vi, ou antes, não vi...o presépio não tem pastores e as ovelhas vieram até à gruta pelas próprias patinhas, sós e sem ninguém a conduzi-las...
Fui saber junto dos responsáveis, o porquê desta falha, ao que me responderam que o pastor tinha sido roubado... E esta, hein?
Cada vez que lá passo, olho para as ovelhinhas, tristes, complexadas, sem saberem por que estão ali e penso automaticamente em outras ovelhas, de outros apriscos, que também andam por aí, sem pastor que as acompanhe, sem ninguém que as conduza e sem amigo que as cure...
Não está certo. O presépio está incompleto e triste. A figura pastoral é importante e ovelhas não podem andar por aí sozinhas, mesmo que seja para irem adorar Jesus.

Alguém se prontifica a deter o ladrão de pastores?

domingo, 11 de dezembro de 2011

GRANDES MULHERES


Tenho o privilégio de conhecer GRANDES mulheres, pessoas que fazem a diferença no seu mundo. Um dia destes estava a ouvir na rádio a minha amiga Dra.Sandra Tavares e pensei como esta geração será marcada por ela e por outras que, como ela, têm um sentido apurado do que são os verdadeiros valores da vida, mas que ao mesmo tempo aventuram-se fora da sua casa para perseguir uma carreira, um sonho e tocar com isso na vida de outros, além dos seus.
Dedicada ao correcto das palavras da bela língua portuguesa e escrevendo sobre isso mesmo, nem imagina até onde essa palavra pode chegar, que diferença ela vai fazer na vida de outros, que caminhos percorrerá até atingir alguém que precisa desse esclarecimento, que necessita ficar sem dúvidas. A paixão que sentimos nas palavras e na motivação desta mulher, deveria levar-nos a seguir-lhe o exemplo e a desejar correr atrás dos nossos sonhos, seja qual for o estágio da vida em que nos encontremos.
Quando o Senhor Deus nos criou, fez-nos como Ele – dadores. O pecado e as escolhas erradas da nossa vida transformaram-nos em consumidores. Mas hoje ainda é tempo de arrepiarmos caminho e levantarmos os nossos olhos para as coisas que estão à nossa espera para serem feitas. E as oportunidades surgem a qualquer momento. Ainda ontem, o telefone tocou e uma mulher que estava a milhares de quilómetros de distância, me pedia conselho, ajuda, uma palavra de estímulo. Senti-me pequena e grande ao mesmo tempo. Pequena por me ter escolhido a mim, quando poderia ter procurado ajuda em pessoas com outras qualificações e grande, ...imagine...pela mesma razão! Oportunidade era o nome daquela porta que o telefone me abria e eu...usei-a: consolei, aconselhei, dei palavras de ânimo e desliguei o telefone com um sentido de realização maravilhoso. O que quer que o dia tivesse guardado para mim, aquela oportunidade já teria valido a pena.
Querida mulher, levante-se e abra os seus olhos para um mundo cheio de oportunidades: de ensinar, de corrigir, de amar, de estimular e de fazer a diferença na vida de alguém.
Deus criou-nos exactamente para isso: ser ajudadoras. E já agora deixe-me dizer-lhe um segredo, aqui, que ninguém nos ouve: o maligno bem tentou tirar isso de nós ao longo dos séculos, rebaixando, abusando, matando e anulando o poder das mulheres, mas não conseguiu. Porque um dia Jesus Cristo deu a Sua vida na cruz e levantou a mulher da sua condição caída e humilhada e colocou-a exactamente no lugar que lhe pertencia por direito -ser a ajuda que o homem precisa e alguém que tem em si mesmo a imagem de Deus.
Seja feliz por ser Mulher!

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

SOWETO - AFRICA DO SUL

Vou fazer um seminário sobre relações familiares numa grande igreja em Pretória. Cidade linda, que eu escolheria para viver, sem pensar muito se há por lá coisas menos boas...As ruas ladeadas de jacarandás lilases, os jardins cuidados, o clima e a simpatia das pessoas, tudo me fascina.
O seminário é bem frequentado, a igreja acolhe-me com muito amor e atenção. Dias de muitas experiências e de grande alegria. Ver Deus trabalhar na vida de alguém é sempre especial.
Na casa da minha amiga que me hospeda, divirto e delicio a família, cozinhando pratos portugueses. Nos intervalos aprendo a gostar de ténis, pois é o campeonato do mundo e o dono da casa não sai da frente do televisor. De vez em quando explica-me o que está a acontecer...
Recebo um convite para ir pregar no Soweto. A África do Sul deixou de ser governada por "homens brancos",mas na lembrança do povo, tudo está muito fresco ainda. Alguém me pergunta se não tenho medo de entrar numa cidade só de negros. Com alguma inconsciência, uma pitada de fé e uma grande dose de atrevimento, digo que não, que é uma oportunidade que não quero perder por nada deste mundo.
O homem que nos transporta é alguém de importância dentro da cidade e dá-nos algumas informações preciosas sobre a mesma. Diz ele que o Soweto é a zona residencial negra mais populosa do país, com cerca de 1 milhão de pessoas. Que devido à sua proximidade de Joanesburgo, é também o subúrbio mais metropolitano da nação – estabelecendo tendências políticas, musicais, artísticas, de moda e de linguagem.
O Soweto deve ter sido fundado por volta do ano de 1903, depois das autoridades terem mandado “limpar” um bairro de negros, com o pretexto de tentar parar um surto de praga bubónica. Em 1976 houve grandes e violentos tumultos, quando crianças de escola resolveram tomar como sua a luta contra o apartheid.
Centenas de crianças morreram naquele dia nos confrontos violentos com a polícia em Orlando West, mas a África do Sul nunca mais foi a mesma – tinha começado um lento caminho para a democracia que culminou com as eleições de 1994.
A estrada começa a ser mais difícil. O condutor não para de falar, talvez para dar-nos confiança. As casas estão alinhadas em ruas bem-feitas e cada casa parece ter decidido ser mais bonita que a outra! Há pessoas sentadas nos jardins, crianças a brincar nas ruas, mulheres a fazer compras nas lojas...O nosso condutor passa por um grupo, abranda a marcha do carro, põe a cabeça fora do vidro e anuncia com uma gargalhada: “Trago aqui duas mulheres brancas, o que acham?” e ri outra vez, como se de um grande feito se tratasse. Olho para a minha amiga. Ela parece mais assustada que eu, talvez por que, além de ser branca, é sul-africana!
Chegámos. É a casa do nosso condutor. Onde é que eu fui buscar a ideia que num lugar destes todo o mundo vive em palhotas? A casa é linda. Conforto, bom gosto não faltam. Depois de um chá e bolos servidos com atenção e amabilidade, vamos para o local da reunião. Uma grande sala, arejada, com boas cadeiras. O povo começa a entrar. Os coloridos das roupas, o calor dos sorrisos, os primeiros acordes de uma música a que não estou habituada, dizem-me que estou num mundo diferente. Sinto as palmas das mãos transpirarem. Não é calor, foi só um pensamento receoso que me assaltou. Aqui estou eu, longe de casa, da minha família, numa cidade onde qualquer pessoa se perde, no meio de gente que não conheço, no Soweto! São poucos minutos de receio, porque de repente um homem sobe ao palco e grita a palavra que une o coração de todos os crentes em qualquer canto da terra: JESUS! As minhas mãos deixam de transpirar para aplaudir o Nome sobre todos os nomes.
Sou embalada no movimento quase frenético das canções e das danças. Chamam-me para pregar. O silêncio é profundo na sala. Perdi todo o medo. Esqueço que estou a milhares de quilómetros da minha segurança. A mensagem é simples mas directa. Faço um apelo final. Os homens estão de cabeça baixa e as mulheres limpam as lágrimas. No Soweto, o Espírito Santo trabalha como em qualquer outro lugar do mundo.
Um homem pega-me na mão, sacode-a várias vezes e diz: “Preciso de Jesus! Leve-me a Ele!”
Ali, como em toda a parte, Jesus é Senhor. Iguais ou diferentes, brancos e negros, precisam do mesmo Deus.
A intensidade da presença de Deus acompanha-nos de volta a casa.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A Base de Um Trono

(Provérbios 31:1-9)


Imagina a sala do trono. Tapeçarias, ouro, brilho e esplendor rodeiam o homem sentado naquele assento tão especial. Inclina-se com atenção para uma mulher que carinhosamente lhe afaga as mãos cheias de anéis, que fala pausadamente, como se o tempo não tivesse mais valor e no universo só existisse aquele instante em que as palavras sérias e doces se derramam em cuidado e conselho. Lemuel, o rei, ouve atentamente as palavras da sua mãe.
A velha senhora está preocupada em colocar uma base sólida para o reinado de seu filho. Por isso mesmo, propõe-se relembrar-lhe os princípios que irão estabelecer esse reino: pureza sexual, sobriedade, justiça, bondade e...uma boa esposa.

Meu filho...

É interessante notar como ela se refere ao filho. Palavras apaixonadas, de terna afeição e que denotam uma relação muito profunda entre ambos: “Filho meu, filho do meu ventre, filho das minhas promessas” (v.2).
Chamo a atenção para este pormenor, porque me parece que muitas mulheres no nosso tempo olham os filhos como se a maternidade fosse apenas “lei da vida”, em vez de alguma coisa tão intensa, tão bela. Encontro muitos jovens que me dizem nunca ter recebido um beijo, um afago sequer das suas mães, quanto mais palavras que minimamente se comparem com aquelas que citámos. Os nossos filhos precisam saber que são importantes em nossa vida, que o amor que lhes dedicamos é profundo e activo, que a ternura que lhes damos é verdadeira, real e este afecto deve ser também traduzido em palavras e gestos.

Pureza sexual

O livro de Provérbios está cheio de avisos contra as mulheres fáceis, que com palavras e actos seduzem os jovens. Parece-nos que a linguagem sagrada está totalmente despropositada num mundo liberado sexualmente, onde a mulher e o homem procuram o seu prazer, seja qual for o preço, onde
não há nenhuma restrição para aquilo que é a satisfação imediata dos sentidos. A somar a isto, temos os exemplos flagrantes de governantes, líderes políticos e religiosos, cujas aventuras e “deslizes” sexuais são o prato favorito dos exploradores da notícia fácil.
Ao estudarmos a história dos impérios mundiais, descobrimos como este caminho fácil da sensualidade, levou reis e tronos à destruição. A mãe do rei sabia do que estava a falar. Ela já vira outros monarcas a serem destruídos pela orgia, pela promiscuidade, pela falta de pureza.
Quando o apóstolo Paulo pregou aos gentios das grandes cidades de Filipos, Tessalónica, Atenas e Corinto, sabia que a vida daqueles que aceitassem Cristo teria que sofrer uma reviravolta radical, pois o mundo helénico era muito parecido com o nosso. Os homens e as mulheres que queriam seguir Jesus ficavam isolados dos seus amigos e da sua sociedade, ao quererem afastar-se das práticas sexuais do seu tempo e cultura. Por isso Paulo escreveu mais tarde a carta à igreja de Tessalónica e nela os exortou, de uma forma veemente, a abster-se de tais práticas (I Tess. 4:1-7).
Como é que vamos ensinar isto aos nossos filhos, num mundo onde há tanto comodismo de ideias, onde tudo parece permitido?
Temos que instrui-los que o nosso corpo

•é maravilhoso, mas que temos que conhecê-lo bem, para podermos controlar os seus apetites;
•que uma vez tornado templo do Espírito Santo, não pode ser maculado com o pecado;
•que tem que ser apresentado a Deus, como um sacrifício vivo;
•que Deus deve ser glorificado nele.

Mostra aos teus filhos que a alternativa para a SIDA não é o preservativo, mas uma vida de pureza e que, embora os outros digam o contrário, o que a Palavra de Deus diz é a VERDADE.

Continua)

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

MULHER DE MISERICÓRDIA

(Provérbios 31:20)

“...abre a mão ao aflito e ao necessitado estende as mãos”.

A mulher ideal de Deus não pensa apenas em si, no bem estar da sua família, nos seus vizinhos, nas pessoas que lhe são mais chegadas. Ela estende a sua mão aos necessitados. Quando lemos este capítulo e vemos a intensa actividade desta mulher, não podemos deixar de interrogar-nos como é que ainda tem tempo para pensar nos de fora, nos pobres, nos esquecidos, nos aflitos da vida?

Já reparaste também no pomenor das mãos desta mulher? São mãos decididas (vs.13), mãos de empreendimento (vs.16), mãos de trabalho (vs.19) e agora mãos de misericórdia e bondade (vs.20).

Nota ainda que a frase diz “abre a sua mão”. Na nossa bela língua temos esta expressão tão interessante, “tem umas mãos abertas”, que expressa tão bem o que o hebraico queria dizer-nos. Diz-se das pessoas generosas, que não guardam apenas para si, mas estão prontas a dar aos outros. Lembro-me do meu irmão que já está com o Senhor, dizer-nos que, quando um pobre na rua lhe pedia esmola, ele punha a mão no bolso e trazia de lá tudo o que havia, para dar ao necessitado. Achávamos aquela maneira de dar uma extravagância, já que ele mesmo não tinha assim tanto dinheiro, mas a sua natureza generosa levava-o a abrir a sua mão dentro do bolso (e como eram grandes e belas as suas mãos!) e trazer de lá muito ou pouco, o que houvesse, para suprir a falta dos outros.

Esta mulher de honra abre a sua mão quando alguém precisa de pão; abre a sua mão quando alguém precisa de abrigo. É interessante que a primeira parte da frase fala da mão (abre a mão ao aflito), a segunda parte das mãos (ao necessitado estende as suas mãos). Há gestos de compaixão que podem ser feitos só com uma mão, mas há tarefas de ajuda em que são precisas as duas mãos. Para dar algo a alguém podes fazê-lo só com uma mão, para ajudar fisicamente, precisas das duas. É uma dádiva total. Cuidar de um mãe doente, levantar um filhinho incapacitado, fazer sopa para os sem-abrigo, dar banho a uma mulher prostituída, toxicodependente, apanhada na rua sem nada, a não ser farrapos, mau cheiro e bichos, requer duas mãos. Mas requer mais. Diz o versículo que ela “estende”. Esta palavra denota um coração cheio de compaixão, misericórdia e amor. Quantas vezes olhamos com orgulho, com vaidade, para as nossas mãos arranjadas! Umas mãos que nunca se sujaram com a necessidade e a aflição do próximo, estão longe do propósito para as quais Deus as criou.

Muitas vezes discutimos nos nossos grupos de igreja acerca dos nossos “ministérios”, do que fazemos, queremos ou achamos que temos direito de fazer, como se ministério fosse algo que se pudesse colocar num gráfico, somar ou subtrair conforme os êxitos ou as falhas. Ministério é TUDO o que fazemos com amor para a edificação da Igreja e para a benção das pessoas à nossa volta.

St.Agostinho disse: “O amor tem mãos para ajudar os outros. Tem pés que correm para os pobres e necessitados. Tem olhos para ver a miséria e ouvidos para escutar os suspiros e dores dos homens. É assim o amor”.

Deus está a usar muheres em todo o mundo para edificarem o Seu reino - mulheres que realmente O amam, amando o próximo em maneiras práticas, mulheres que não têm medo de estender as suas mãos aos infectados com o HIV e aos orfãos sem nada, no continente africano. Não importa o custo, estas heroínas não se detêm e fazem diferença para Deus, neste mundo onde a miséria e a pobreza são cada vez mais escandalosas. Talvez nunca saberemos os seus nomes, possivelmente os seus feitos nunca serão “contabilizados”, mas o galardão que as espera por terem alimentado, vestido e abrigado os pobres em nome de Jesus, será grande e eterno.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O SONHO COMANDA A VIDA...


O nosso poeta escreveu: “ …o sonho, é uma constante da vida, tão concreta e definida como outra coisa qualquer…”
O homem que deixou de sonhar, deixou de ter a capacidade de viver. O sonho não é propriedade dos jovens, dos inteligentes, dos mais ricos. O sonho é parte integrante da beleza da vida.
Já falei com muitas pessoas que me dizem com um ar triste e desiludido: “Já deixei de sonhar”, ou “ não vale a pena sonhar” ou ainda, “os meus sonhos caíram por terra”. A minha resposta a estas pessoas é sempre a mesma: “Sonhe outra vez! Enquanto sonha, “o mundo pula e avança, como bola colorida entre as mãos duma criança”!
Gostava de contar-vos uma história passada há muitos séculos e descrita na Bíblia, o Livro de Deus - É a história de um rapazinho chamado José. O jovem vivia numa família bastante disfuncional. Tinha uns irmãos rebeldes, desobedientes e maus, tinha um pai que escolhera viver com duas mulheres e ter filhos das duas. Havia uma guerra constante entre as duas esposas e muita inveja e ciúme entre os irmãos. José era o favorito do pai. Tão especial era para o pai, que este lhe fez uma túnica colorida, que era dada apenas aos filhos mais velhos. Os irmãos olhavam para José com inveja por causa da atenção privilegiada do pai. Mais ainda, José era um sonhador. E num dos sonhos, viu que um dia os pais e os irmãos se iriam inclinar diante dele numa atitude de sujeição e respeito. Esta foi a última gota para os irmãos de José. Até o pai ficou um pouco aborrecido com o filho...

Muitas vezes os sonhos que temos, acordados ou a dormir, são apenas uma fantasia até virem a acontecer. Mas em relação a José havia um grande problema. Os sonhos vinham de Deus. Nem passava pela cabeça de José como é que tudo viria a acontecer, mas ele sabia que Deus tinha posto esses pensamentos na sua mente.
Foi vendido como escravo pelos irmãos. No Egipto serviu um homem que lhe confiou tudo nas suas mãos. José crescia como homem e em carácter. Mas porque este oficial do rei tinha uma mulher infiel e porque José recusou pecar, foi parar à prisão. Pelo poder de Deus adivinhou os sonhos de dois companheiros de prisão e quando o Faraó sonhou algo que ninguém conseguia decifrar, foi chamado para interpretar o sonho do monarca. O imperador ficou tão impressionado que José foi elevado, sentado num trono, rodeado de opulência e riqueza.
Um dia, no meio dos milhares de pessoas que vinham ao Egipto comprar cereal, vieram os irmãos de José. Não o reconheceram. Já tinham passado muitos anos, como podiam adivinhar que aquele homem tão poderoso era o irmão que tinham vendido como escravo? Ajoelharam-se diante de José, para fazer-lhe o seu pedido de comida. Este era certamente o momento que José tinha imaginado tantas vezes. Mas depois de muitos anos de sofrimento, José respondeu de maneira completamente diferente do que teria feito no princípio da sua história. Abraçou os irmãos. Porquê? Porque o sonho de um homem não apenas comanda a sua vida, mas transforma-o no processo. Os anos de dor, de rejeição, de sofrimento, tinham transformado José.

José reconheceu que o que sonhara anos atrás, não tinha apenas a ver consigo, mas com um plano de Deus para a sua vida e para a vida de outros. Entre as muitas coisas que disse aos seus irmãos quando se deu a conhecer, foi: “Não fostes vós que me enviastes aqui, mas foi Deus”. José tinha perdido a sua arrogância de filho predilecto. Saudou os irmãos com lágrimas de alegria. Tinha aprendido humildade e serviço durante aqueles anos. Não se exaltou na glória do momento, mas reconheceu que o sonho não era dele mas de Deus, para o bem da sua família e de todas as famílias à volta daquele país.

Muita gente neste mundo tem tido sonhos, e desejado que se concretizem. Poderíamos contar aqui muitas histórias de pessoas que perseguiram o seu sonho e mudaram o seu mundo porque esse sonho se tornou realidade.

Queria apenas falar de três situações do nosso tempo:

•Um homem sonhou mudar a sua relação com o seu filho e ser para ele um pai presente e amoroso. Numa cidade escondida dos Estados Unidos da América, este homem e o filho montaram nas suas motos e começaram a rodar pelas estradas da sua cidade. Outros se juntaram a eles e hoje, não são apenas dois ou três homens que amam as motos, amam Deus e uns aos outros e que correm no asfalto deste mundo, são 120 mil membros em 16 países diferentes, porque um homem ousou sonhar que uma moto podia ser o meio de juntar outros ao homens ao seu Deus. Assim nasceu a Associação Cristã de Motociclistas Internacional.

•Há 44 anos, quatro mulheres sonharam levar outras mulheres a serem restauradas, curadas interiormente, através de um relacionamento com Jesus Cristo. Fizeram um almoço onde juntaram várias amigas, cento e poucas. O sonho delas parecia muito grande quando juntaram aquelas primeiras mulheres numa sala de hotel, mas hoje, volvidos estes anos, Aglow International está em 172 nações no mundo e atinge directamente 2 milhões de mulheres por ano.

•Um dia uma religiosa, pequena e frágil, sonhou ajudar os pobres, abandonados e desprotegidos nas ruas de Calcutá. O seu trabalho cresceu, tornou-se conhecido no mundo e por fim levou-a a receber o Prémio Nobel da Paz. Quando recebia o galardão, foi-lhe perguntado: “O que podemos fazer para promover a paz no mundo?” Madre Teresa respondeu: “Vai para casa e ama a tua família”.

Qualquer uma destas pessoas, entre muitos milhares que poderiam ser referidos, tinham um sonho que perseguiram até ser tornado realidade, mas todos eles tinham um denominador comum: ajudar outros à sua volta.

•Os sonhos são de Deus quando passam por nós para ser realizados na vida de outros.
•Os sonhos são de Deus quando nos transformam em pessoas mais parecidas com Ele.
•Os sonhos são de Deus quando nos motivam a dar a nossa vida para que outros tenham mais e melhor do que nós.

Se tens um sonho que se encaixa nisto que acabei de dizer, concretiza-o, porque senão, ele vai esbater-se no tempo e passa a ser apenas uma recordação sem sentido. Mas se o teu sonho contém a substância do amor pelos outros, persegue-o, busca-o, renova-o, até que se realize.

Já agora queria dizer-vos que nós sonhamos porque Deus é um sonhador! O Seu sonho é que cada um O ame tanto quanto Ele nos ama. Provou o Seu amor para connosco, dando-nos o melhor que tinha – o Seu Filho, Jesus Cristo, que morreu pelos nossos pecados. Por causa desse sacrifício Deus espera que olhemos para Ele e aceitemos o Seu grande amor.

domingo, 23 de outubro de 2011

ÁGUIAS


Há uma lenda no meio do povo judeu que, cada dez anos a águia sobe bem alto, muito alto no firmamento e aproxima-se do sol. Ao fazê-lo, por causa da veemência do calor, o seu corpo não aguenta os raios solares e em queda livre, cai no mar. Ali, as suas penas caem e o corpo da águia renova-se outra vez, as penas tornam a crescer e volta ao tempo da sua mocidade. Cada dez anos, até chegar aos cem e quando atinge esse limite, segundo o seu costume, a águia sobe até ao sol, mas ao cair no mar, pela centésima vez, morre.
Lenda interessante, mas contrária ao que a Bíblia diz. Esta não fala quantas vezes sou renovada, nem de que maneira a minha força, mocidade, vigor e esperança são substituídos por algo novo. Diz apenas que tenho que ESPERAR no Senhor. Esta palavra no hebraico, significa “aguardar em grande expectativa”. É o momento em que a mulher está em trabalho de parto, sabe que o filho vai nascer, mas não sabe quantas horas tem pela frente até ao evento mais belo da sua vida. Nessa espera, reúne as forças que lhe vão faltando para o momento supremo do nascimento.
Esta espera nem sempre é fácil, mas se olhar para a promessa que ela contém, de força, de vigor, de corrida, de voo alto e libertador, vale a pena.
Estou em modo de espera.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

INIMIGOS OCULTOS

(Não conheço o autor, mas achei bom para publicar)

Sofre de reumatismo…

Quem percorre os caminhos tortuosos;
Quem se destina aos escombros da tristeza;
Quem vive tropeçando no egoísmo.

Sofre de artrite…
Quem jamais abre mão;
Quem aponta sempre os defeitos dos outros;
Quem nunca oferece uma rosa.

Sofre de bursite…
Quem não oferta seu ombro amigo;
Quem retesa, permanentemente, os músculos.
Quem cuida, excessivamente, das questões alheias.

Sofre da coluna…
Quem nunca se curva diante da vida;
Quem carrega o mundo nas costas;
Quem não anda com rectidão.

Sofre dos rins…
Quem tem medo de enfrentar problemas;
Quem não filtra seus ideais;
Quem não separa o joio do trigo.

Sofre de gastrite…
Quem vive de paixões avassaladoras;
Quem costuma agir na emoção;
Quem reage somente com impulsos;
Quem sempre chora o leite derramado.

Sofre de prisão de ventre…
Quem aprisiona seus sentidos;
Quem detém suas mágoas;
Quem é duro em demasia.

Sofre dos pulmões…
Quem se intoxica de raiva e de ódio;
Quem sufoca, permanentemente, os outros;
Quem não respira aliviado pelo dever cumprido;
Quem não muda de ares.

Sofre do coração…
Quem guarda ressentimentos;
Quem vive do passado;
Quem não segue as batidas do tempo;
Quem não se ama e, portanto, não tem coração para amar alguém.

Sofre da garganta…
Quem fala mal dos outros;
Quem vocifera;
Quem não solta o verbo;
Quem repudia;
Quem omite;
Quem usa a sua espada afiada para ferir outrem;
Quem subjuga;
Quem reclama o tempo todo;
Quem não fala com Deus.

Sofre dos ouvidos…
Quem julga os actos dos outros;
Quem não se escuta;
Quem costuma escutar a conversa dos outros;
Quem ensurdece ao chamado divino.

Sofre dos olhos…
Quem não se enxerga;
Quem distorce os factos;
Quem não amplia asua visão;
Quem vê tudo com duplo sentido;
Quem não quer ver.

Sofre de distúrbios da mente…
Quem mente para si mesmo;
Quem não tem o mínimo de lucidez;
Quem preza a inconsciência;
Quem menospreza a intuição;
Quem não vigia seus pensamentos;
Quem não se volta para o Universo;
Quem vive no mundo da lua;
Quem não pensa na vida;
Quem vive sonhando;
Quem se ilude;
Quem alimenta a ilusão dos outros;
Quem mascara a realidade;
Quem não areja a cabeça;
Quem tem cabeça de vento.

Somos, certamente, o maior amor das nossas vidas! Assim como o nosso maior inimigo é aquele que está oculto e que habita, inexoravelmente, no interior de nós mesmos.

domingo, 11 de setembro de 2011

FRUTO...MUITO FRUTO



Esta manhã ouvi uma expressão bíblica que conheço há muito tempo, mas que nunca tinha feito um impacto tão grande na minha alma: “...o justo...dará o seu fruto na estação própria!” (Salmo 1:3).
Na verdade, cada árvore programada pelo Criador para dar fruto, fá-lo em estações diferentes. É certo que no Verão temos uma maior variedade, mas aparecem até na estação invernosa. E a Bíblia não está realmente a referir-se ao fruto suculento, doce e maduro que nos delicia e alimenta, mas ao homem justo, que tem o seu prazer na lei do Senhor e que, foi projectado para dar fruto, muito fruto.
Cada árvore, segundo a sua espécie, floresce e oferece-nos o seu melhor numa determinada estação... Quando os amigos me dizem que devo abrandar, descansar, não fazer, não viajar, deixar outros tomar o meu lugar, são conselhos sábios e para reflexão, mas não encaixam ainda no MEU tempo. Na MINHA estação, eu ainda posso dar fruto.
Tive uma Primavera, onde corria, brilhava e apaixonadamente agarrava todas as oportunidades que espreitavam no meu caminho. Espero que esse fruto tenha sido comido por alguém, tenha dado força a algum cansado. Houve um Verão, onde o fruto era muito, abundante, nem tinha tempo para pensar se tinha amadurecido bastante, se estaria pronto para alguém apanhar e comer... Surgiu o Outono, cálido, dourado, com cheiros e matizes únicos e aqui estou eu, fazendo coisas que nunca pensara capaz de realizar, a maior parte das vezes escondida entre as paredes do meu escritório, mas desejando alimentar de uma outra maneira aqueles que precisam...Virá o Inverno, frio, cortante, solitário, onde é preciso aquecer os pés e calçar mais pares de meias, mas ainda aí, quero dar fruto. Na estação própria, esse é o meu desejo, esse é o meu sonho. E essa é a promessa do meu Agricultor!

terça-feira, 6 de setembro de 2011

RELEXÃO NUM ANIVERSÁRIO



Um bom carro. Sai novinho do stand. Brilho e cor impecáveis. Cheiro único. Pneus sem qualquer sujidade. O dono trata-o com desvelo, limpa imediatamente qualquer poeirinha que caiu sem ele ver e não o leva para casa, porque a sala é pequena demais!
À medida que o tempo passa, o dono já conhece o barulho do motor, as pequenas “manias”, parece até que o banco já se ajusta ao corpo de quem o conduz todos os dias.
O carro vai envelhecendo. O motor foi revisado e está excelente. O óleo é mudado com a frequência necessária. É lavado de vez em quando. As peças desgastadas são substituídas. Perde a elegância, comparado com as máquinas modernas que o ultrapassam nas estradas, mas continua a ser útil... Até que um dia, a sua vida é repensada e vê-se substituído por um mais novo, mais brilhante, mais moderno, com mais potência...Possivelmente ainda irá parar às mãos de outro dono, que um dia também decide que o melhor é vendê-lo para a sucata. E lá fica, no cemitério dos carros. De vez em quando, alguém o desventra, mais uma vez e tira uma peça que ainda estava boa...pelo menos ainda tem alguma utilidade. Mas está lá, completamente esquecido...
Estava aqui a pensar hoje, como a nossa (a minha!) vida pode ser comparada com este carro. Hoje alguém me deu os parabéns por mais um ano de vida e disse: “Ainda estás tão forte!” Realmente o motor está muito bom. Algumas peças têm que ser revisadas, a elegância de linhas foi-se, ainda sou útil para algumas coisas, mas tenho a consciência (que os carros não têm...ou terão? ) que um dia destes, passo a dar mais despesa que utilidade e o melhor é ser arrumada. Só espero é que ainda fiquem algumas peças boas para valerem a outra máquina qualquer que precisa de ajuda!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

SILÊNCIO



"...O facto é que, quando duas pessoas estão aborrecidas, os seus corações afastam-se muito.Para cobrir esta distância precisam gritar para poderem escutar-se mutuamente. Quanto mais aborrecidas estiverem, mais forte terão que gritar para se ouvirem um ao outro, através da grande distância. Por outro lado, o que sucede quando duas pessoas estão apaixonadas? Elasnão gritam. Falam suavemente. E por quê? Porque os seus corações estão muito perto. A distância entre elas é pequena. Às vezes os seus corações estão tão próximos, que nem falam,somente sussurram. E quando o amor é mais intenso, não necessitam sequer de sussurrar,apenas se olham, e basta. Os seus corações entendem-se. É isso que acontece quando duas pessoas que se amam estão próximas.
Quando vocês discutirem, não deixem que os vossos corações se afastem, não digam palavras que os distanciem mais, pois chegará um dia em que a distância será tanta que não mais encontrarão o caminho de volta".
Mahatma Gandhi

sábado, 27 de agosto de 2011

HERÓIS



A moldura é linda. Arvoredo, flores, vinhas carregadas, ar puro. Uma semana passada numa quinta com um grupo de amigos especiais. A maioria, desconhecidos, antes desta semana. O mundo passa ao nosso lado e com ele milhares de pessoas com quem nunca nos cruzamos e de repente, damos connosco a conhecer outra gente, a ficar ligados por laços que não vão ser quebrados, nunca mais.
O especial destas pessoas é que algumas vieram para ajudar os outros e, só por isso, teria valido a pena conhecer um tipo de gente que parece estar em vias de extinção. O outro grupo, são homens e mulheres, sentados em cardeiras de rodas, cujo horizonte está confinado ao ângulo de visão da cadeira e que, apesar de serem autónomos na sua vida, ainda dependem de outros para viver. E surge-me a grande questão: E não somos todos dependentes? Alguém poderia sobreviver sem uma rede e um suporte à sua volta, quer no mundo físico quer no emocional?
Há quem chame aos meus amigos “deficientes”.
Mas esta semana aprendi que deficiente é:
- quem tem pernas saudáveis e se recusa a andar mais um metro que seja, para ajudar alguém
- quem tem braços fortes e é incapaz de levantar um amigo e de dar um abraço a quem precisa de conforto
- quem tem membros que podem ser mostrados e despidos e não se desnuda numa emergência ou quando alguém está em aflição
- quem tem saúde completa e não a utiliza para levar os outros mais longe e mais alto e para fazer deste mundo um lugar melhor.
Estes meus amigos não vivem assim. Apesar das limitações, das dores, desconforto, descriminação e falta de apoio, pensam nas suas famílias, cuidam dos filhos, sobrinhos e amigos, com um coração doce, temperado pelo sofrimento e pelo conhecimento da sua incapacidade.
Que grande semana! Que grande lição de vida! Mais uma vez, meu Pai Celestial me enriqueceu, de uma maneira que eu nunca imaginaria. Possivelmente porque nas minhas queixas patéticas, nem me apercebia que havia pessoas tão fortes, tão únicas, que, porque não podem andar como eu, rolam na vida, sentados em cadeiras de rodas…

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Quando eu morrer



(Este poema foi escrito por um amigo, dedicado ao meu pai, no dia do seu 97º aniversário)


Quando eu morrer
por favor não procurem pelos meus passos
...na literatura.

Procurem apenas saber
se na minha boca
ainda respira a rosa indomável
que vos falou de Cristo.

E prestem atenção
à sua loucura.

Manuel Adriano Rodrigues

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

LIXO


Definitivamente, endoidecemos. Sim, porque atirarmo-nos a uma garagem e a uma “adega”, onde ao longo dos anos se têm acumulado coisas, das mais variadas origens e procedências, só estando mesmo com o juízo virado.
Munimo-nos de sacos de plástico, daqueles enormes, pretos. Calçamos luvas de borracha e com panos e detergente, aí vamos nós.
Não, não calculam. Foi tanto lixo deitado fora, que até tínhamos vergonha que alguém visse, por isso guardámos algum para uma escapadela nocturna ao receptáculo do dito.
Como é possível guardar tanta coisa, durante tanto tempo? Objectos dos mais variados feitios e tamanhos, alguns deles (a maioria) escondidos da nossa vista, como se fossem tesouros valiosos? Quando terminámos, uma sensação boa de alívio, limpeza, espaço, claridade, higiene e sei lá quantas coisas mais deste género, invadiram-nos e sossegaram o cansaço que sentíamos...
Depreendo que dentro de mim, há também espaço para uma boa limpeza. Há lembranças, objectos, vozes, sons, conceitos, crenças e outros tantos, que precisam ser jogados fora. Não estão lá a fazer nada. Não me ensinam nada. Não servem para mais nada, não têm mais utilidade. São apenas entulho e tiram o espaço ao novo que preciso ter na minha vida.
“As misericórdias do Senhor são novas, a cada manhã”. Se a Sua misericórdia não pode ser guardada, encaixotada, armazenada, nem colocada em prateleiras empoeiradas, mas é sempre renovada, diariamente, o resto também não.
Neste caso, esta limpeza só pode ser feita por mim. Sozinha. Só eu sei o que está a mais, apenas eu tenho o direito de abrir essas arrecadações e começar a limpeza.
Mãos à obra!

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

ALTOS VOOS


O desejo de voar, já vem de longe! O salmista queria ter asas como as pombas para fugir para um lugar distante! Eterno sonho do ser humano, destinado a viver no chão, o sonho de VOAR! Voar livremente utilizando apenas o seu próprio corpo, assim como fazem os pássaros!
Já tenho assistido a festivais de pára-quedismo. Parece tão simples, saltar, deixar o ar sustentar o corpo...mas e se o pára-quedas não abre? Essa é sempre a minha dúvida e receio. Agora, fascinante mesmo, é ver o skysurf, uma modalidade que utiliza uma prancha em queda-livre, a grande altura, para realizar curvas, loopings e acrobacias... Essa loucura só pode ser praticado por desportistas experientes. Como o próprio nome indica, o pára-quedista torna-se um surfista dos céus e realiza manobras arrojadas com a sua prancha, presa aos pés. É lindo, mas muito perigoso. Porque fomos feitos para viver com os pés na terra...
Estou aqui a pensar em algumas acrobacias que já fiz na minha vida. Episódios que têm pouco a ver com “pés na terra”. Especialmente quando à minha volta me diziam que não era capaz, que não era coisa para mim, que era um chinelo grande demais para o meu pé, que tinha que ter a noção do ridículo, que não era para a minha idade nem para o meu estatuto (o que será que queriam dizer com esta???)
Mas vou contar-vos o segredo da minha coragem e expertise nesses momentos: “ por baixo os braços Eternos”. É isso. O salmista sabia que voar não era próprio do homem, mas também sabia e muito bem, que se ele se aventurar para aquilo que Deus quer, “por baixo os braços Eternos” sustentam, seguram, pousam-nos em terra firme sem uma beliscadura. Posso nunca colocar uma prancha dessas do skysurf debaixo dos pés e fazer as tais voltas doidas, mas garanto-vos que já voei como águia, sem me cansar e sem medo.
Estou a precisar de outra destas voltinhas!

quinta-feira, 28 de julho de 2011

SEM RITMO


Hoje estou triste. Não sou uma pessoa de gargalhadas sem razão, mas hoje tenho uma tristeza real. É como se alguém tivesse partido e não tivesse tido tempo de despedir-se. Normalmente quando sou “atacada” por este vírus, sei onde encontrar o tratamento, despegar-me do que é supérfluo na tristeza e embrenhar-me no que é verdadeiro na alegria – Deus. Mas hoje é diferente.
Estou em sofrimento por pessoas que sofrem e que não desejam ser ajudadas ou já desistiram da ajuda, por amigos que me mostraram tantas cores na vida e, agora, eles mesmos estão na sombra... Dentro de mim levantam-se questões que pensava há muito estarem resolvidas e arquivadas,lições que imaginava saber de cor, perguntas que voltam outra vez a assombrar-me. Será que se tivesse tentado mais, estado mais presente, orado com mais fervor, comido ou dormido menos, eles teriam sido melhor ajudados?
Assumo também nesta encruzilhada, que a minha fé não tem apenas a ver com a alegria de seguir Cristo, mas em conhecer o coração de Deus, aquilo que Lhe traz alegria. Trazer alegria ao coração de Deus é obedecer sem questionamento, confiar sem rede de protecção, avançar sem conhecer o que nos espera. Quero levar outros a dançar neste ritmo, mas e se eles negam acertar o passo, em fazer concessões, em transpirar para que o ritmo fique perfeito?. Os meus amigos desistiram de tudo isto. Resta-me o quê? O que é que eu ainda não consigo entender da alma humana? Como explicar de maneira mais clara que o caminho é simples e sem perigo?
As minhas mãos descaem ao longo do meu corpo cansado e da minha alma confusa. A minha própria dança parou.

domingo, 17 de julho de 2011

PERFUME


Estava a ler a passagem bíblica da mulher que derramou o perfume de nardo sobre a cabeça de Jesus e pela primeira vez entendi o espanto das pessoas à volta. Aquilo era um perfume MUITO caro! O nardo foi um dos primeiros materiais aromáticos a ser usado pelos antigos egípcios na sua perfumaria. Mais tarde foi usado pelos unguentarii (perfumistas da antiga Roma) para preparar um dos mais célebres perfumes da antiguidade. Não tenho ideia do tamanho do vaso que continha a tal essência perfumada da história bíblica. Mas segundo o relato, era coisa para custar o salário de um ano de uma pessoa...
Como é que esta mulher possuía tal preciosidade, só pode ser imaginado. Seria pessoa de grandes posses ou aquele perfume estaria guardado para um momento muito especial na sua vida, não sei. Ela entrou de mansinho na sala do banquete e num gesto rápido, imprevisível, abriu ou partiu a tampa do vaso e derramou o perfume sobre o Messias. Jesus ficou ensopado do líquido, afastou os cabelos molhados dos olhos e contemplou a mulher aos seus pés. Na sala o espanto era tão grande quanto o perfume que se espalhava.
E é aqui que começam as observações dos presentes. Depois de uns minutos curtos de estupefacção, não foram capazes de guardar aquele momento sublime e profético no profundo do seu espírito. Começaram a fazer contas, a criticar a mulher, a dar opiniões, a sugerir outros meios de adoração ao Filho de Deus...
É sempre assim. Cada vez que fazemos algo extravagante para Ele, há uma multidão de críticos, de observadores de bancada, de gente que não faz nada a não ser ver “a banda passar”, mas que se acham no direito de criticar, de opinar e até de ofender. Por isso os gestos únicos, as palavras simples e inspiradas, as expressões de alma próprias de cada homem, tornaram-se uma marca politicamente incorrecta. Por isso, os gestos de adoração têm que ser sempre ensaiados, medidos, iluminados, encenados, adereçados, ditos no momento próprio e na hora certa. Por isso também, as salas onde nos reunimos para banquetear-nos com o Filho de Deus, não cheiram mais a nardo...por isso não ouvimos no final de cada performance a Sua voz doce e perfumada dizer: “Esta fez o que podia...”

quinta-feira, 7 de julho de 2011

OBEDIÊNCIA


Deus continua a ser inatingível, no sentido em que não abarco os Seus pensamentos e não conheço os Seus caminhos. Na Sua infinita sabedoria, no Seu imenso poder, na sua extrema soberania...é difícil entendê-lO.
Aqui estou eu ocupada a fazer a mala para uma viagem parecida com aquela de Abraão: "para uma terra que te hei-de mostrar"!!! É verdade! Nunca lá fui, nem sei no mapa onde fica Vosu, num dos países do Báltico. Só conheço uma pessoa, a lingua é diferente e incompreensível e...não sei o que me espera.
Para Paulo, o apóstolo, as viagens eram mais previsíveis: ele sabia que em cada cidade esperava-o uma prisão e sabia também que a mensagem que levava era única, adequada e transformadora. Não sei se a mensagem que levo tem todos estes atributos, mas como ele, sei que não está baseada em eloquência de palavras, e desejo que seja dada em demonstração de poder.
O que faz Deus mover uma mulher de um extremo para o outro da Europa, para proclamar a Sua vontade e o Seu coração, quando há gente mais perto que talvez poderia fazer um trabalho melhor, faz parte do mistério da Sua pessoa. Mas vou. Em obediência. O resultado não tem a viver comigo, já sei. A aventura é colocar a minha confiança num Deus que não falha nos Seus planos misteriosos. O final é saber que obdeci, mesmo sem entender tudo.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

RETRATO


Enquanto arrumo o quarto, dou comigo a olhar mais demoradamente uma foto antiga numa moldura de vidro. Fotos são imagens estáticas e silenciosas. Mais caladas ainda quando elas param de mudar, pois a pessoa nelas retratada já se foi. Olho a foto da minha mãe, com os seus lindos olhos azuis que nunca perderam o brilho, a não ser quando os fechou nesta vida e um sorriso tímido, porque ela não tinha muito jeito para sorrir, ou ficava séria com um ar misterioso ou ria a gargalhadas grandes, intensas e verdadeiras. E ria muito...
Em minutos de contemplação, faço uma análise rápida do que foi a sua vida. Jovem, linda, com uma voz de rouxinol, amando a família, os amigos e acima de tudo a Deus. Mulher, mãe, trazendo à vida filhos, uns atrás dos outros, sem cuidados médicos, sem parteiras especializadas, sem esterilizadores, fraldas descartáveis, depressões pós-parto. Como é que ela nunca parou para se questionar sobre a sua identidade? Possivelmente porque estava ocupada demais em dar identidade aos filhos e a quem se chegava perto (e não eram assim tão poucos). Como é que ela nunca teve uma baixa auto-estima se a vida lhe negou roupas caras, viagens e pouco estudo? Se alguma vez se queixava, era com uma piada especial que tirava de uma linguagem só dela e que a levantava, sem precisar de ajuda de ninguém, acrescentando aos outros que a rodeavam mais riso e mais luz e estima, era coisa que ela dava com fartura a quem se chegasse perto.
Nos dias da dor, separação, luto e tragédia ficava lá, firme, com a mesma postura calma e coerente. Havia lágrimas, mas de repente limpava-as e levantava-se para animar os desanimados. Não se revoltava contra Deus no dia da adversidade, não questionava a fé nos dias sem sentido, não admitia uma dúvida sequer sobre as promessas de Deus.
Quando a doença a obrigou a parar, ainda assim ria dela mesma, fazia piada ao que não entendia e esperava...
Que mundo era o seu, onde as “grandes” questões da vida não se colocavam? Que força a levava a passar uma noite em claro para ter pronta uma roupa “nova” para os filhos? ( Os modelos eram transformados, virados do avesso, alindados com outras cores, golas e rendinhas, que ela desencantava sabe-se lá onde).
Como é que as praças, ruas e jardins desta terra, não têm mais estátuas e bustos destes heróis desconhecidos que fizeram do seu mundo um lugar de amor e riso, sacrifício e trabalho?
Por isso a fotografia na moldura é tão importante, tão válida e perdoem-me se não acreditam...viva!

quinta-feira, 16 de junho de 2011

CELEBRAÇÃO


Tinha só 19 anos. Tantos sonhos e planos mais ou menos delineados... Estava longe de casa, numa altura em que as “meninas” não saíam para estudar fora. Mas sempre fui um pouco diferente e isso levou-me a viver durante mais de dois anos num país gelado, brumoso, onde o sol era um luxo e os dias mais quentes uma loucura quase nacional!
Para ganhar uns tostões, cuidava de duas crianças, enquanto os pais saíam para o trabalho. Nos tempos livres lia, lia muito e o muito aqui não se refere à quantidade de livros, mas ao tempo que me levava a ler um só, pois eu tinha que aprender inglês rapidamente e esse era o meio mais eficaz, mas mais difícil.
O livro que tinha nas mãos chamava-se IMPACT, escrito por T.L.Osborn. Falava da necessidade de levar o evangelho de Jesus Cristo aos que não O conheciam, da responsabilidade pessoal de cada cristão de fazer conhecida a pessoa maravilhosa do Filho de Deus. Deixei de ler com os olhos e passei a ler com o coração. Cada página era mais forte e esclarecedora que a anterior e cada uma me trazia uma sensação que algo estava a acontecer dentro de mim, que não conseguia por em palavras. Era como se uma luz brilhasse sobre cada palavra e se um foco se acendesse sobre cada frase. Quando terminei a última página e li as últimas palavras, Deus falou comigo. Dizer que ouvi uma voz seria uma falsidade, mas dizer que Ele não falou seria ainda mais perigoso. O que Ele me dizia era como se fosse a continuação das páginas que terminara de ler. Tal e qual como Deus usava aquelas pessoas descritas no livro, Ele dizia-me que eu seria parte desse grupo de gente que levaria o evangelho a “todas as nações”. Durante alguns dias andei inquieta e sem dormir. Numa longa carta contei aos meus pais o que Deus me tinha dito e na sua sabedoria e experiência, encontrei a confirmação que, naquele dia, Deus me tinha separado para um trabalho, uma obra que estava além das minhas capacidades, da minha força e das convenções dos homens – pregar a Palavra de Deus.
Já passaram 50 anos desde esse dia! A vocação, o chamado de Deus, são irrevogáveis. Sem me dar conta, sem fazer qualquer esforço, Ele cumpriu tudo o que tinha no Seu propósito fazer comigo.
Dentro de mim, no segredo do lugar onde ele ainda me fala, quero celebrar esta caminhada. Teve que haver um tempo de espera, até estar pronta para a jornada que Ele tinha em mente, mas hoje, cada vez que estou na frente de uma multidão ou de um pequeno grupo, sei que não tem a ver comigo, mas com Ele, que cumpre os Seus desígnios e propósitos, com a Sua fidelidade, que nunca falha, com o Seu amor, que nunca desiste...

sexta-feira, 3 de junho de 2011

DEUS ARTISTA


Sempre me fascinou o talento dos pintores. Como misturam as cores, como de um traço estranho conseguem fazer gente, pássaros, nuvens...
Hoje pensei em Deus como pintor. Fazendo deste mundo uma tela única,faz cada ser com cores diferentes, umas mais fortes, outras mais suaves, mas todas elas contribuindo para a beleza do quadro final.
Nós somos quatro irmãs, filhas do mesmo pai e da mesma mãe.Nenhuma de nós se parece muito nem com um, nem com o outro. Eu, a mais velha, gosto de escrever, de ler, de organizar, de ensinar. Gosto do silêncio, da contemplação da natureza, da introspecção. Anima-me fazer coisas novas que nunca foram experimentadas, embora receie muito falhar.
A minha irmã Rute, tem umas mãos de fada. Faz tudo. Invente aí uma ideia e vai ver que ela conseguirá transformá-la. Das suas mãos saem os mais deliciosos acepipes, quadros, pinturas, cerâmica, sabe decorar uma casa, pentear cabelos, fazer cortinados, enfim...até cansa.
A irmã seguinte, chama-se Lidia. Já está no céu com Jesus. Mas enquanto estava connosco, era a mulher do bo gosto, do requinte. Fale de algo bonito e caro e era disso que ela gostava. A sua alma de artista e música, levava-a a compor no seu piano, lindos trechos e cançõesque delicivam o nosso coração.
A mais nova, a Isabel, é uma mente cheia de curiosidade, criatividade e imaginação. É comunicativa, alegre, cómica e sensível ao mesmo tempo. Sabe ouvir Deus e dizê-lo às pessoas.
Como é que o Criador faz quatro mulheres tão diferentes numa família? Porque, ao criar-nos, tinha um propósito para cada uma - tocar o nosso mundo com essas capacidades diferentes, que colocou em cada uma de nós.
Se alguem tem dúvida quanto à sua existência, futuro, percurso,repare que num cantinho da tela que é a sua vida, Deus colocou a Sua assinatura. Pertence-lhe. Ninguém pode usá-lo indevidamente, nem pintar por cima. Essa assinatura garante a autenticidade da tela. Para sempre.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

MONTES


A pequena freguesia onde vivo é rodeada de montes, colinas, elevações que nos parecem muito grandes, mas que já subimos e galgámos, por isso sabemos que não são assim tão altos... Aqui e acolá ainda se vêm moinhos, a maioria em ruínas, lembrança dos tempos em que os homens moíam o cereal que alimentava o povo. Hoje, o pão é feito de outra forma, as mós deram lugar às máquinas sofisticadas e os pobres moinhos foram caindo aos poucos...
Através da neblina da manhã, olhei para os montes e lá estavam elas, as grandes pás eólicas, movendo-se pela força do vento que noutros tempos movimentava as velas dos moinhos... Os montes, esses, estão na mesma. Fechei os olhos no frescor do dia e ouvi dentro de mim palavras eternas e que, cada vez fazem mais sentido, “levanto os meus olhos para os montes de onde me virá o socorro, o meu socorro vem do Senhor que fez o céu e a terra”. Se acontecesse por aí uma calamidade, um desastre natural como já sucedeu há anos nestas paragens, as pessoas fugiriam para os montes, lugar mais alto, mais seguro. Mas eu já não tenho força para essas corridas e maratonas. Tinha que quedar-me por aqui, viesse o que viesse. Por isso, cada vez é mais óbvio que os montes não me dariam nem abrigo nem segurança. Mas o meu socorro vem do Senhor, Deus dos montes e das planícies. Em qualquer lado, em todas as circunstâncias estou segura. E se, por alguma razão tivesse que correr, Ele assegura-me que “não deixará vacilar o meu pé, não me deixará cair”.
Abri os olhos devagar e fixei as colinas em desafio: “Estou muito mais segura aqui, os meus pés estão mais seguros aqui, Nele, o Senhor que fez o céu e a terra!”

segunda-feira, 23 de maio de 2011

ÁRVORES DA MINHA TERRA...


Enchi os olhos e a alma de verde, enquanto o autocarro galgava os quilómetros que me separavam de casa. Senti cá dentro o que significava a frase “árvores da minha terra”, de Espanca, poetisa da dor.
Os sobreiros, azinheiras, pinheiros, oliveiras e mais altos os eucaliptos, cada um deles oferece uma tonalidade diferente de verde, que repousa sobre um outro matiz, o das elevações e campos a perder de vista. Aqui e acolá, uma daquelas já gastas, troncos nus, reclamando uma gota de água... e de repente, numa curva da estrada, o verde muda para dourado, espigas amadurecendo, de um trigo que já promete pão. Que lindo é o Alentejo! Que linda é a nossa terra!
Pensei na nossa vida, todos somos árvores de uma mesma plantação, mas mostramos cor e matiz diferente. Umas dão sombra outras fruto, ainda algumas exalam saúde, outras oferecem madeira... perfeita aguarela da criação, quadro pleno da natureza em equilíbrio. Em contraste, dentro da viatura, não há sossego, as pessoas centram-se nos telefones que não param de tocar, “filha, faltam 20 minutos para chegar”, “não, eu vou sozinha para casa”, “não faças almoço, não estou com fome”, “estou desejando chegar e saber o que se passou...” Gente, cheia de ansiedade, expectativas, saudades, lutas e sucessos.
As árvores, essas estão firmes, verdes, perenes, sem preocupação com o vento ou com o sol. Estão lá, para deixar o mundo mais belo, para encher os nossos olhos de harmonia e a nossa alma de esperança...

quinta-feira, 19 de maio de 2011

LEMBRANÇAS


Estes dois últimos meses têm sido de lembranças. Dias marcados no calendário da vida e da morte. Memórias que um dia foram choque, realidade, agonia e lágrimas.
Sem que demos conta, passámos a lembrar o que doeu pelas fotos nas molduras, como se fossem de uma outra vida, quem sabe, de um outro planeta...A dor já não está lá, foi embora, agarrada a lágrimas que não fazem mais sentido e que lavaram os nossos olhos para ver detalhes que de outro modo nunca podiam ser vistos. Ali, diante dos retratos que vão ficando cada vez mais fora de moda, tocamos um riso sem som, sentimos um abraço sem calor, ouvimos uma canção sem refrão e lembramos palavras no silêncio.
Um dia, os seres que foram parte da nossa realidade e que rasgaram o nosso coração com a dor da separação, deixam de ser verdadeiros e esquecemos até a cor dos seus olhos e o contorno dos seus lábios e o que fica, são sons abafados, passos mais longínquos, canções quase em surdina, até desaparecerem num horizonte que não sabemos onde começa e onde acaba. Já não dói, nem se pode chamar já saudade o que sentimos, só sabemos que eles estão lá, dentro de nós, algures no profundo da nossa memória, como se tivessem voltado para fazer parte do que somos, para sempre...

sábado, 14 de maio de 2011

BONITA...FEIA...


Bonita...feia...mais ou menos...não é feia de todo...não é assim tão feia...pena não ser bonita...é simpática, mas não é bonita....até nos esquecemos que é feia...destoou dos irmãos que são tão bonitos...para ser bom, não é preciso ser bonito...feio, é relativo...
Querem mais? Pois desde que me lembro que sou gente, que ouço estas e outras tantas expressões, relativas à minha pessoa. Cresci a ouvir estes comentários, na escola, na igreja, na rua onde morava e eles foram entrando na minha mente de criança e adolescente como verdade. Ficava longas horas em frente ao espelho, imaginando como seria ser bonita. Ouvia as comparações das amigas e dos amigos e lá no fundo, havia um consolo, porque a mãe tinha o cuidado de apontar como eu era bonita. Será que ela não tinha olhos para ver o que os outros viam ou ela via beleza onde não existia?
Já mulher, dei-me conta que a beleza, segundo o povo, é um conceito tão pequeno e tão fácil de comprar. Basta usar isto, cortar aquilo, depilar mais acolá, dar cor no lugar certo e o quadro aparente fica logo diferente... Percebi também que as pessoas que durante a minha juventude se gabavam de ser belas, hoje não passam de sombra e de desgaste.
Mas porque fui tão bombardeada por essa ideia, resolvi ser bonita. Ora essa, hei-de ter o meu momento de glória! Descobri que a paz tira as rugas e alisa a pele, que a alegria faz os olhos mais brilhantes, que a ternura no coração provoca veludo no olhar, que as palavras ditas no momento certo fazem os lábios mais correctos, que olhar para Deus muitas vezes reflecte-se no rosto...fui fazendo a minha plástica, sozinha, sem ajuda de ninguém, porque poucos sabem deste meu “problema” em relação à beleza...
Sabe que hoje olhei para o espelho e fiquei deslumbrada? Não me comparei com ninguém, mas achei que a imagem que o vidro me devolvia era quase bela...

terça-feira, 10 de maio de 2011

ETERNO - Por Arlete Castro

Andei em busca do Eterno

estive em tantos lugares

ergui altares, andei errante

vivi a vida num rompante

e encontrei o Querer que me disse:

que o lugar do Eterno não era ali


Busquei em grandes cidades

na correria dos dias,

nas línguas que aprendia,

nas emoções que vivia

na coragem que sentia,

nos talentos, na sabedoria...

e encontrei o Sábio que me disse:

que o lugar do Eterno não era ali


Busquei nos rios, nos mares

nas cores que enfeitam a terra

no céu que empresta Luz,

no brilho que seduz,

nas estações definidas

no verde musgo paisagem

nas casas brancas... miragem.

e encontrei o Belo que me disse

que o lugar do Eterno não era ali


Busquei na letra escondida

nas frases que se formavam

nos pensamentos que chegavam

na junção das palavras...poesia

nos romances que criei,

nos poemas e histórias que inventei

e encontrei a Poesia que me disse:

que o lugar do eterno não era ali


Busquei no homem que amei

nos filhos que gerei,

nos amigos que encontrei

nos relacionamentos saudáveis,

na comunhão

no colo de minha mãe,

no abraço de meu pai

na amizade do meu irmão

e encontrei a Segurança que me disse:

que o lugar do Eterno não era ali


Busquei nos templos,

nas relíquias,

nas imagens de adoração

no ritual aprendido

no ensino, na prática,

no desejo de perfeição

Nos altares da vida,

no homem intercessão...

e encontrei o Sagrado que me disse:

que o lugar do Eterno não era ali.


E então cansei de tanto buscar

pois o lugar do Eterno

era impossível de achar

fiquei assim em silêncio

sem palavra sem chão

quando senti de leve

um toque de paixão

foi então que percebi

que o Eterno que eu buscava

estivera sempre ali.

deu-me querer, consagração

segurança, aceitação

esculpiu o belo ao meu redor

fez da minha letra poesia

do aprender sabedoria

e veio viver eternamente

dentro do meu coração.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

ELES SÃO O QUÊ???



Não digam que não, mas todos nós categorizamos determinados segmentos da sociedade, às vezes em menos que humanos. Definimo-los pelo que fazem, pelo comportamento, vícios etc.
Já era assim no tempo de Cristo. Alguns não eram gente, eram cobradores de impostos. Nem a pecadores chegavam, pois estavam numa categoria de cobradores de impostos E pecadores. Até o Mateus estava aí, nessa lista. Mas Jesus deu-lhe a possibilidade de O seguir, uma coisa que nenhum religioso daqueles dias teria feito. Jesus via todos os homens dignos de morte, mas todos dignos de amor.
Todos nós temos um E, uma classe, um grupo, que consideramos pior ou mais pecador. Focamo-nos nos homossexuais E drogados E strippers E prostitutas E legalistas... só para dizer que este E, nos separa do resto, desses tais...
Afinal Cristo veio para os doentes, os que percebiam que precisavam de cura. Quando é que eu e tu vamos parar para tocar, curar, abraçar e sentir que eles são humanos, gente que tem família, filhos, coração E que precisam ser amados e restaurados?
Quando penso nisto, a sério, fico agoniada, em choque. Porque “eles” arruínam a maneira como eu queria que o mundo fosse...

quarta-feira, 27 de abril de 2011

RIO


Vou poucas vezes ao cinema. Tenho que ter uma razão muito forte para isso. Mas tenho um fascínio pelos filmes de animação.
Fomos ver RIO. A sala estava cheia de crianças, de vários tamanhos e feitios, com os pais, com as mães e com mais outros tantos adultos que fingem vir cuidar da pequenada... Nós viemos de propósito!
Quando a sessão terminou e a sala foi ficando vazia, olhei para os restos de uma tarde bem passada, ou seja,pipocas e garrafas de água espalhadas em profusão. No caminho para casa, pensei no filme outra vez e dei comigo a sorrir sozinha. Afinal, o enredo do dito tem a ver com tudo o que acontece na vida de um ser humano. Acho que não deve haver ninguém à face da terra que não tenha experimentado o que o Blue e a Joia sentiram: baixa auto-estima enquanto se cresce, amigos leais que ficam ao nosso lado em todas as dores da nossa vida, gente mau carácter que quer aproveitar-se de nós, pessoas sem escrúpulos que fazem tudo por dinheiro, medos e receios que nem sempre são fáceis de ultrapassar, aventuras mais ou menos incríveis que não sonhávamos viver, música e dança para alegrar os dias mais complicados e uma grande história de amor!
O cenário mudo para cada pessoa, a música e o carnaval também, mas todos nós andamos neste mundo à procura de um final feliz! Para isso não precisamos ser levados do Minnesota para o Rio, acontece em qualquer esquina da nossa terra, chegamos lá pelos labirintos que a própria vida desenha...o final, porque feliz, não é para todos.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

FIM-DE-SEMANA


Há dias, há fins-de-semana para esquecer. Mas nada que se compare ao das mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galileia, fieis, devotas, leais, presentes, prestativas, incansáveis. Aliás, aquele foi o pior fim-de-semana que a humanidade presenciou. Prenderam Jesus, enquanto orava no jardim, acusaram-no injustamente num julgamento sumário e tendencioso, obrigaram-no a caminhar pelas ruas de Jerusalém carregando um madeiro (instrumento de tortura e morte para os condenados por crimes contra a sociedade), pregaram-no àquele tronco ao lado de dois criminosos, deixaram-no agonizar como o pior dos malfeitores e já depois de morto, furaram o Seu peito com uma espada.

E elas, as mulheres que o tinham seguido sempre? Onde estavam? O evangelista Lucas diz que ficaram de longe, a contemplar a cena. Consigo imaginar a dor, os soluços reprimidos, as lágrimas teimosas correndo pelas faces. E depois? Silenciosas, como fantasmas, caminharam por entre as sombras do jardim onde havia túmulos novos. Viram onde o Senhor foi colocado, envolto apenas num lençol. Naquele mesmo silêncio dorido, voltaram para casa. Tinham pouco tempo para o que era preciso fazer. Antes que o dia terminasse, prepararam os unguentos, ligaduras perfumadas, embebidas em óleos e especiarias, para embalsamar o corpo do Mestre. Algures na cidade, os discípulos estavam escondidos, com medo dos judeus, sofrendo também, mas passivos, paralisados, limitados pelo receio. Ouviram o sinal que um novo sábado tinha começado. Descansaram conforme a lei, um descanso misturado com inquietação e perguntas: “Como revolveremos a enorme pedra à entrada do sepulcro?” “O que farão os guardas quando nos virem chegar?”

A aurora despontava no horizonte, o sábado terminara. No coração das mulheres não havia qualquer dúvida, nenhuma desculpa que as levasse a desistir da tarefa.
Sabemos o final da história, a maravilha que as aguardava: a pedra revolvida, o túmulo vazio, um ser celestial que lhes disse que o Senhor ressuscitara. Tudo o que levavam ficou ali, no jardim, espalhado entre as roseiras e as madressilvas, não tinha mais valor, não era mais necessário. As bocas encheram-se de riso, os pés de velocidade para chegarem aos discípulos e dizerem que o Senhor estava vivo! Mulheres! Práticas, entusiasmadas, fiéis, devotas, cheias de amor...
Como as entendo! Tão pouco que tinham para dar, mas fizeram-no até ao fim. Nunca abandonaram Jesus, nem na vida e nem na morte. O que Lhe tinham oferecido eram coisas pequenas, actos de amor, cuidado, coisas simples...

Também eu chego ao túmulo, para verificar, mais uma vez, que Ele está vazio. O que faço para mostrar-lhe o meu amor neste fim-de-semana de Páscoa? Uma palavra, uma oração, um sorriso, um gesto simples ou um copo de água a “um dos Seus pequeninos”?
Quero muito que o meu fim-de-semana seja de ressurreição, que o meu domingo seja de Aleluia!

quinta-feira, 14 de abril de 2011

MAPUTO-“O QUE FIZERDES A UM DESTES ...”


A lufada de ar quente que me recebe, quase me faz voar pelas escadas do avião. Isso mesmo, é pressa de chegar, de colocar os pés outra vez naquela terra amada. Tenho vontade de ajoelhar-me e beijar o asfalto do aeroporto. O abraço das amigas que me esperam é quente como a terra, profundo de amor e alegria. Alguns brancos olham de lado para a cena de beijos e abraços entre uma mulher europeia e um grupo de africanas. Que olhem! Amor não tem cor!
Percorro as estradas e ruas que conheci um dia e as lágrimas caem teimosas. Tantas recordações doces e ao mesmo tempo amargas. Tantas alegrias e dores...Engulo os soluços teimosos, não foi para isto que vim, mas é inevitável. As recordações. No cemitério da cidade estão duas urnas, com os restos dos meus irmãos que nunca são esquecidos.
As ruas estão esburacadas, mas as árvores que as ladeiam são as mesmas, fogosas de flores, deixando tombar no chão a beleza que lhes sobra.
A casa da minha amiga é fresca e limpa, acima de tudo respira-se paz. Nos olhos desta mulher a paz é exactamente como um rio, que desce ao seu sorriso e se estende às suas palavras rápidas e roucas.
O dia seguinte tem um grande programa. Vamos visitar o hospital central da cidade. Entrei algumas vezes neste hospital, há alguns anos. Não imaginava o que ia encontrar.
As mulheres moçambicanas cristãs que fazem parte da organização Aglow, cozinham um panelão de sopa, coisa enorme, transportado numa carrinha de caixa aberta. A sopa é levada para o hospital. Pousam a enorme panela numa pequena cozinha e assim que o cheiro da sopa invade as enfermarias, começa a formar-se uma fila de gente com malgas, púcaros, as mais variadas vasilhas, para levar uma sopa quente e saudável para junto da sua cama. Os doentes acamados recebem também a sua dose, as enfermeiras e os médicos igualmente.
Ajudo a distribuir a sopa pelos quartos e à medida que o faço, sinto uma dor profunda dentro do peito, mesclada com vómito, agonia, sei lá, uma coisa feia que me invade e que eu não queria sentir de maneira nenhuma. É que as crianças estão deitadas nas camas sem um lençol, os corpinhos febris agarrados pelo plástico do colchão. As janelas não têm vidros, qualquer insecto pode entrar por ali. Na enfermaria das mulheres, vou de cama em cama tentando orar por cada uma, mas o cheiro dos restos de comida azeda em cima das mesas-de-cabeceira, impede-me a oração. Entramos agora na ala dos homens, passamos por uma enfermaria na penumbra. O cheiro de morte e dejectos é intenso... e é aí que desisto. As minhas amigas continuam corajosas e amorosas. Esta é a sua missão, elas vão até ao fim.
Quando chego a casa sinto-me envergonhada. Debaixo do chuveiro quente, quero lavar tudo o que vi. E um pensamento ainda mais forte que tudo o que senti, entra no meu coração: afinal o que estou aqui a fazer? Para que vim? Para fugir de uma coisa que me repugna, que não é o que estou habituada? As lágrimas misturam-se com a água morna que cai sobre o meu corpo. E mais uma vez, Deus fala comigo – ali mesmo, no banho!
Não estás aqui só para dar, Sarah, estás para receber. Não vieste só para ensinar, mas para aprender. Não te trouxe aqui só para seres honrada mas para honrares outros. Eu ainda não terminei o que quero fazer através de uma panela de sopa dada com amor, em Meu nome. O meu pensamento é mais alto que o que te foi dado ver...
Passam dois anos e estou de volta a Maputo. Desta vez venho cheia de coragem e força para entrar no hospital. Não vejo as minhas amigas na azáfama semanal da cozinha. Pergunto quando vamos visitar o hospital. Sorriem com aquele sorriso doce que só as mulheres africanas possuem e respondem que não vão mais ao hospital.
Surpreendida, quero saber porquê? Desistiram? A resposta é tão simples, porque nelas tudo é singelo e verdadeiro. Já não é necessário. As orações feitas naqueles corredores, junto às camas dos doentes, no pátio do hospital, foram respondidas. Um novo ministro entrou para a pasta da saúde e reformou completamente o hospital. As camas têm lençóis, as janelas têm vidros, os doentes podem comer normalmente, a limpeza é prioritária. Maputo tem um novo hospital, digno de uma cidade grande e bonita.
E elas, as minhas irmãs, ficaram sem trabalho? Nada disso, há outras missões a esperá-las, outras pessoas a precisar de carinho e oração, outros cantos e casas a serem transformados e limpos.
Tal e qual o que Deus me tinha falado...a sopa foi apenas o veículo de uma bênção maior!

quinta-feira, 7 de abril de 2011

AINDA HÁ BÁLSAMO

Há momentos na vida de um indivíduo, de uma colectividade e até de uma nação, em que temos que perder um bocadinho o orgulho e pedir ajuda aos amigos, familiares e outros. A razão porque chegámos a esse estado de coisas é variada e discutível, ou seja, muitas vezes são as decisões erradas que levam alguém a cair num buraco sem fundo. E daí? Deixa-se a pessoa no buraco? Não se ajuda, só porque as decisões foram mal tomadas?
Eu disse que era discutível... Proibimos um filho de levar a sua bicicleta para um caminho que sabemos ser perigoso. A criança cai, esfola-se e parte a bicicleta. Decisão errada do filho. Como tal, mesmo que grite e chore de dor e pena, ficamos na nossa e não ajudamos, não fazemos o curativo, nem mandamos arranjar a bicicleta? Ora façam-me o favor!
Vejo isso, vezes sem conta, no meio de um povo que se diz ser de Deus. O irmão errou, pecou, meteu-se no buraco...agora “fica aí para aprender, porque só ajudamos pessoas que não se metem em trabalhos”. Tenho alguma dificuldade em engolir esta atitude. À luz do conhecimento de um Deus que é Pai, não consigo entender.
Lembrei-me de um lamento de Jeová em relação ao Seu povo “Estou quebrantado pela ferida da filha do meu povo...ainda há bálsamo em Gileade!” (Jer 8:21,22) Nação mais provocadora, obstinada, orgulhosa e esquizofrénica não havia. E no entanto, Deus estava ali a oferecer ajuda, a levá-la a um momento de “arrepiar caminho”, a um instante de arrependimento e contrição, a dar bálsamo único e especial, como não havia em nenhum outro lugar...
São as nossas atitudes, essas sim, de orgulho farisaico, que impedem que as pessoas se arrependam das decisões erradas, das posições teimosas e muitas vezes da volta para Deus.
O povo diz “faz o bem, não olhes a quem”. Verdade da alma genuína. Teologia da misericórdia em expoente máximo!
Quero lá saber se erraram por isto ou por aquilo, quero é que saiam do abismo, que se salvem, que tenha mais uma oportunidade e que vejam a luz! Quero é ser a portadora do bálsamo.

sábado, 2 de abril de 2011

CASUALTIES


(Termo usado para referir as baixas entre os militares em combate)
Entrei num certo lugar e enquanto procurava a pessoa com quem ia fazer um trabalho, vi ao longe um homem parado, estático, cuja figura não me era estranha.
Gente míope sabe do estou a falar, mesmo com óculos há uma certa distância que ainda nos é interdita... Aproximei-me mais e o homem olhou-me com intensidade ao mesmo tempo que esboçava um sorriso tímido. Era ele mesmo, um amigo que não via há algum tempo. Fora um líder no meio dos crentes em Jesus e agora...Trocámos meia dúzia de frases de circunstância e banalidades de ocasião, até que me atrevi a perguntar-lhe o que fazia num lugar tão longe de casa, num ambiente que não tinha muito a ver com ele. Sorriu outra vez a medo e contou-me que estava ali para receber ajuda psicológica, pois encontrava-se totalmente perdido, sem direcção e sem objectivos. Fiquei feliz por ele, pois sei que há pessoas naquele lugar que poderão ajudá-lo a encontrar-se outra vez.
Acabei o meu trabalho e no caminho para casa, a minha mente voltou outra vez ao homem que encontrara à entrada da instituição. E ai, encolhi-me no banco do carro, como se tivesse feito uma maldade e não quisesse que me vissem. Não era medo, não. Vergonha, era o sentimento que me enchia o coração, teimava em sair-me dos olhos em lágrimas quentes e queimava-me o peito por não poder gritar.
Como é que os crentes, povo de Deus, filhos de um Pai amoroso, chamados para as boas obras que Ele preparou, podem ferir de morte, deixar no campo de batalha esvaído em dor, um soldado que foi marcado por um erro, que não teve hipótese de defesa, que nem compareceu diante do tribunal militar, mas cuja sentença foi dada na sua ausência: MORTO?
Como?
Os juízes alguma vez pensaram que podiam tê-lo salvo, tivesse ele uma outra oportunidade de corrigir alguma coisa menos correcta? Conjecturaram por momentos, que bastaria um abraço, uma palavra amiga, uma correcção a tempo, aquele soldado não se teria afundado num abismo de desespero, de solidão, de perda absoluta?

Limpei as lágrimas teimosas. Ele está num lugar onde vão amá-lo e onde vai sentir abraço e segurança. Os juízes, esses, um dia vão ser julgados, também, mas num tribunal muito mais perfeito.

quinta-feira, 17 de março de 2011

SOMBRA

“Uma sombra ocupa todo o espaço que está atrás de um objeto com uma fonte de luz na sua frente. A luminosidade presente na sombra apresenta-se proporcional à opacidade do objeto ao qual ela se utiliza para ser projetada: opaco, não permite a passagem de luz; transparente, permite a passagem de luz; translúcido, permite a passagem de luz, mas não permite identificá-la.”
Estava a ler a Bíblia, no livro dos Actos dos apóstolos e algo salta das suas páginas, como se precisasse ser visto naquele dia, já que tenho lido esta passagem tantas vezes...
É o princípio da Igreja de Jesus Cristo, a formação primitiva do Corpo, que seria alargado através dos séculos pelos milhares que crêem na Sua obra vicária e perfeita. Acontecem fenómenos incríveis nesse começo, acções extraordinárias do Espírito Santo, milagres inacreditáveis, sinais que gostaríamos de ver repetidos nestes dias de descrença e mornidão espiritual. Mas o que me fascina no meio de actos divinos tão inesperados operados por homens de fé e compromisso, é a expressão “E a multidão dos que criam no Senhor, tanto homens como mulheres crescia cada vez mais, de sorte que transportavam os enfermos para as ruas e os punham e leitos e em camilhas, para que ao menos a sombra de Pedro, quando este passasse, cobrisse alguns deles” (Actos 5:14,15).
E dei comigo a imaginar Pedro, passando pelas ruas de Jerusalém, a caminho da casa de amigos ou irmãos, fazendo o trajecto necessário para o seu destino. Passa rápido, tem um objectivo em mente, mas aqui e acolá pára, para falar com conhecidos que o interpelam. Nesses momentos fugazes de paragem na sua caminhada, as pessoas saem das casas, trazendo doentes em camas e esteiras, colocando-os numa posição em que a sombra de Pedro os cubra...e estes são curados.
Parece filme de ficção...mas não, é uma realidade diária na vida dos primeiros crentes.
Pedro, uma fonte de luz transparente, que projeta um sombra sobrenatural!
Fico parada e pensativa. Serei uma fonte de luz? Que tipo de sombra projeto na minha caminhada? Se alguém ficar na minha sombra, o que sentirá? Conforto, consolo, resposta, aceitação, alívio, frescura, cura?
Que tipo de sombra projeta a Igreja do século XXI? Haverá nela luz suficiente para a sombra ser de bênção e cura para as multidões? É que naquele tempo, à volta da igreja em formação, havia um reboliço tão grande, um movimento tão rápido, que tudo acontecia como se fosse natural, esperado. E hoje?
O Sol continua a brilhar...onde há luz, tem que haver sombra...será?

segunda-feira, 14 de março de 2011

DÊ MAIS UM PASSO...

"...Uma vida sem fracassos pode ser segura, mas leva ao aborrecimento, à apatia e a uma baixa auto-estima. Já reparou que o diabo nunca lhe recorda aquilo que você aprendeu? Não, ele quer que continue a reviver os detalhes dolorosos. Aprenda a lição, depois esqueça os detalhes! A vitória requer que se construa sobre o que se aprendeu e que se siga em frente. O teólogo Brooke Foss Westcott disse: "As grandes ocasiões não fazem hróis ou covardes, simplesmente desvendam-nos...silenciosamente, enquanto acordamos e adormecemos, fortalecemo-nos ou enfraquecemos e finalmente, alguma crise nos mostra no que nos tornámos".
Este artigo passou no Wall Stree Journal: "Você falhou muitas vezes embora não se lembre. Caiu a primeira vez que tentou caminhar. Quase que se afogou a primeira vez que tentou nadar... R.H.Macey falhou sete vezes antes de estabelecer a sua loja em Nova Iorque. O novelista inglês John Creasy recebeu 753 notas de rejeição antes de publicar 564 livros."
H.Jackson Brown deixa-nos duas regras para vencermos: regra número 1 - dê mais um passo. Regra número dois - quando não conseguir nem dar mais um passo, remeta para a regra númeero um". (PALAVRA PARA HOJE - Devocional)

quarta-feira, 9 de março de 2011

ENCONTROS


Nas minhas andanças por aí, conheço gente muito interessante, encontro outros muito patuscos e descubro ainda uns tantos que já nem me lembrava que existiam...
Não sei qual deles me dá mais prazer.
Os interessantes, é porque são mesmo. Têm sempre algo a ensinar, a partilhar, e parece que entram na nossa vida para acrescentar uma nova luz e um novo sabor. Não importa se são homens ou mulheres, há-os de todos os tamanhos e feitios. O que importa nesses, é mesmo o que acrescentam à minha vida.
Depois, os patuscos, para não chamar-lhes esquisitos, estranhos, são os que se aproximam com alguma intenção, às vezes nem eles sabem qual. A conversa é pouco fluida, os intervalos entre as frases difíceis de ser ultrapassados. Eu sei que eles querem qualquer coisa, mas não tenho o dom da adivinhação e eles não conseguem dizer mais que aquelas conversetas de nada... não tem a ver com gente simples ou com pouca cultura, tem mesmo a ver com pessoas que não trazem consigo o brilho para nos encantar e a palavra para nos fascinar...mas ainda assim, acho-os interessantes...
E há os outros, os tais que estavam esquecidos num canto da minha memória já gasta e que, de repente, vestidos de outras cores e quase sempre com algum peso a mais, saltam para a minha beira e querem retomar uma conversa interrompida por muitos anos de vida, luta, filhos, netos, distancias, guerra e paz. Às vezes trazem muito prazer consigo, outras vezes muitas lembranças que preferia tivessem ficado bem enterradas, algures num vale inexplorado. Falam sempre do passado, do que eram e do que tinham, tanto que, por fim, até fico sem saber onde estão no presente.
Todos eles me enriquecem, todos me ensinam, preciso deles todos. Que seria a vida se vivesse só com amigos do presente, com vizinhos com quem lido diariamente, com gente atilada e perfeita? Uma chatice.
Ainda há uns tantos (e são muitos) com quem nunca troco uma palavra. Mas deduzo também que há momentos em que o silêncio é de ouro. Acho que eles pensam o mesmo.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

RESTOS MORTAIS

Não tem a ver com morbidez, não senhor. Mas vou falar de morte, outra vez. Assisti esta semana a mais um funeral, de um amigo.
Além das lágrimas da viúva, este teve a característica de não haver uma única pessoa da família a chorar pela sua partida. Estranho. Mas possivelmente esses familiares estavam à espera de uma herança e como ela foi dirigida para outra pessoa, ficaram magoados. Temos mesmo pena.
Sempre que me confronto com a morte, a seguir tenho algumas horas de profunda reflexão e ajuste das minhas contas. Desta vez, ao olhar para o corpo no caixão, pensei como a doença, o sofrimento e por fim a morte podem desfigurar o ser humano de uma maneira tão atroz. Olhei o corpo do meu amigo, literalmente destruído pela doença e lembrei a sua voz forte, o olhar directo, o riso franco, as orações fervorosas, o entusiasmo quando seu clube ganhava, a doçura do seu olhar quando o fixava na sua mulher, a maneira inteligente e culta como discutia um clássico musical ou um livro que acabara de ler...
E agora? Está ali, inerte, silencioso, frio, destruído, consumido, um esqueleto apenas. Onde está tudo o que foi? Alegria, amor, entusiasmo, inteligência, fé, esperança, para onde foram?
Se eu não soubesse que a carne volta ao pó, mas o espírito volta para Deus, teria muita dificuldade em reconhecer naqueles restos mortais alguém que alguma vez possuiu tanta força e tanto vigor. Restos...mesmo. E foi sobre isto que meditei longas horas. Nos restos de alguém que foi importante, influente, que amou, ensinou, trabalhou e ocupou um lugar nesta terra dos vivos. Habituados a ver a pessoa num todo, temos dificuldade em imaginar que uma parte deixa de ser alguém, para ser apenas restos. Que uma parte não tem mais expressão neste mundo, porque é apenas resto e que a outra parte, numa dimensão difícil de ser explicada e imaginada, continua a viver, mas sem limites de tempo nem de espaço.
E se os arrogantes deste mundo se dessem conta que um dia serão restos? E se os ditadores e assassinos dos homens e das crianças compreendessem que um dia ficarão calados e frios e que qualquer um poderá levá-los para onde bem quiser? E que o corpo, por mais forte, mais belo e mais temido um dia, será apenas restos?
E se os sábios contassem bem os seus dias, de tal maneira que alcançassem corações sábios

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

HERANÇAS

Na nossa família temos algumas conversas que, ouvidas por outras pessoas, parecem de loucos e não fazem muito sentido. Uma delas tem a ver com heranças! Brincamos com o que cada um vai herdar quando nos formos deste mundo. E é muito pouco...ou nada. Uns livros, fotos, bibelots... o resto terá o destino normal de qualquer lixo. Sempre que temos esta conversa, fico um pouco deprimida, porque afinal de contas, todos os pais querem deixar algo de valor aos seus filhos e descendentes. E nós... Mas depois olho para trás e vejo o que trouxe da casa dos meus pais...fotos, livros e pouco mais. Família pobre, não?
O livro de Deus também fala em heranças. Dou comigo a pesquisar as tais e descubro algo interessante num salmo de David: “agradável é o lugar que me calhou em partilha e preciosa é a herança que me coube" (Sal 16:6 BPT).
A alusão tem a ver exactamente com a corda ou cordel que era usado antigamente para medir as propriedades e determinar os limites ou extremas das mesmas, onde a seguir eram colocados marcos, para que ficasse bem definido para cada proprietário o que realmente lhe pertencia.
Este é um salmo profético e esta herança não tem a ver com coisas, mas com pessoas que foram dadas a Cristo como herança, ou seja, a porção do nosso Rei está entre os que são Seus, preciosos, agradáveis, pois foi assim que o Pai os viu no seu decreto e propósito. O apóstolo Pedro fala disso mesmo na sua carta, explicando que a nossa vida, como modelo para os que estão de fora, é a grande herança do Filho de Deus.
Fico mais feliz quando entendo isto. Afinal, tudo o que temos é perecível, quebrável, com tendência a envelhecer e não poder mais ser utilizado. Mas a nossa vida, o modelo do nosso viver, é a herança de Cristo que Ele deseja passar aos nossos descendentes quando formos recolhidos para outra dimensão com Ele e isso é mais valioso que o outro, a prata, os bens, as propriedades, casas ou riqueza que alguém deixe para outros usufruírem. Essa é a tal riqueza que a traça e a ferrugem não consomem e que os ladrões não podem roubar.
Responsabilidade acrescida: tenho que cuidar bem desta herança, para que os meus descendentes fiquem cada vez mais ricos em Cristo!

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

FUNERAIS

Por que vamos a funerais? O que nos tira de casa para enfrentar um grupo de pessoas vestidas de luto, algumas em pranto, outras nem por isso, para ouvir uma série de conversas que têm a ver com um passado quase sempre distante, quando nos relacionávamos, quando comíamos juntos, quando isto e aquilo?
Quantas vezes visitamos o finado, quantas lhe deixamos uma mensagem no telemóvel, quantas lhe demos uma palavra de coragem e incentivo no meio da doença, da dor e sofrimento?
A que propósito nos deslocamos, fazendo centenas de quilómetros de estrada, só para marcar presença? Todas as vezes que assisto a um funeral, estas e outras perguntas semelhantes me enchem a alma e me deixam num estado de culpa. Mas devo ser só eu. E ainda bem. Porque espero que ninguém vá à tal cerimónia por culpa. De não ter amado, de não ter acarinhado, de não estar lá na hora necessária, de ser ausente, de ter fechado os olhos à solidão do velho, à precisão da mãe e à ansiedade do filho...
Ontem fui a um funeral. Amava aquele homem, respeitava-o, admirava-o pelo que fez, o que foi e o que influenciou a sua geração. Mas que amor passivo é o meu, o nosso, que falamos e dizemos estas coisas só depois da pessoa não poder tocar-nos, ouvir-nos nem sorrir de volta? Havia muitas flores, lindas, paradas e estáticas. Flores que dizem adeus, mas que não podem ser cheiradas nem guardadas num vaso. Por que enquanto colocamos flores numa jarra, cada vez que as olhamos, elas sorriem e dizem-nos o quanto nos admira quem no-las deu...
Só deviam ir a funerais os amigos verdadeiros, não os ausentes como eu. Só deviam chorar pelo morto, os que riram com ele. Só deviam levar flores os que lhe alegraram a existência...só esses.
Mas o melhor é ficar por aqui. Senão, quando eu morrer, não vai ninguém ao meu funeral!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A MÁQUINA DE ESCREVR

Apxsar dx minha máquina dx xscrxvxr sxr um modxlo antigo, funciona bxm, com xxcxção dx uma txcla.
Há 42 txclas qux funcionam bxm, mxnos uma, x isso faz uma grandx difxrxnça.
Às vxzxs parxcx-mx qux mxu grupo x como a minha máquina dx xscrxvxr, qux nxm todos os mxmbros xstão dxsxmpxnhando suas funçõxs como dxviam, qux txm um mxmbro achando qux sua ausxncia não fará falta...
Vocx dirá: "Afinal, sou apxnas uma pxça sxm xxprxssão x, por isso, não farxi difxrxnça x falta à comunidadx."
Xntrxtanto, para uma organização podxr progrxdir xficixntxmxntx, prxcisa da participação ativa x consxcutiva dx todos os sxus intxgrantxs.
Na próxima vxz qux pxnsar qux não prxcisam dx si, lxmbrx-sx da minha vxlha máquina dx xscrxvxr x diga a si mxsmo:
"Xu sou a pxça mais importantx do grupo x os mxus amigos prxcisam dx mxus sxrviços!"

Pronto, Agora consertei a minha máquina de escrever. Entendeu o que eu queria dizer??

Percebeu a sua imensa participação na vida daqueles ao seu redor...
percebeu que assim como tem pessoas que são importantes para nós, também, somos importantes para alguém?

Lembre-se de que somos parte do Universo e como tal somos uma peça que não podemos faltar no quebra-cabeça da vida.

(Publicado no Portal da Família)