quinta-feira, 14 de abril de 2011

MAPUTO-“O QUE FIZERDES A UM DESTES ...”


A lufada de ar quente que me recebe, quase me faz voar pelas escadas do avião. Isso mesmo, é pressa de chegar, de colocar os pés outra vez naquela terra amada. Tenho vontade de ajoelhar-me e beijar o asfalto do aeroporto. O abraço das amigas que me esperam é quente como a terra, profundo de amor e alegria. Alguns brancos olham de lado para a cena de beijos e abraços entre uma mulher europeia e um grupo de africanas. Que olhem! Amor não tem cor!
Percorro as estradas e ruas que conheci um dia e as lágrimas caem teimosas. Tantas recordações doces e ao mesmo tempo amargas. Tantas alegrias e dores...Engulo os soluços teimosos, não foi para isto que vim, mas é inevitável. As recordações. No cemitério da cidade estão duas urnas, com os restos dos meus irmãos que nunca são esquecidos.
As ruas estão esburacadas, mas as árvores que as ladeiam são as mesmas, fogosas de flores, deixando tombar no chão a beleza que lhes sobra.
A casa da minha amiga é fresca e limpa, acima de tudo respira-se paz. Nos olhos desta mulher a paz é exactamente como um rio, que desce ao seu sorriso e se estende às suas palavras rápidas e roucas.
O dia seguinte tem um grande programa. Vamos visitar o hospital central da cidade. Entrei algumas vezes neste hospital, há alguns anos. Não imaginava o que ia encontrar.
As mulheres moçambicanas cristãs que fazem parte da organização Aglow, cozinham um panelão de sopa, coisa enorme, transportado numa carrinha de caixa aberta. A sopa é levada para o hospital. Pousam a enorme panela numa pequena cozinha e assim que o cheiro da sopa invade as enfermarias, começa a formar-se uma fila de gente com malgas, púcaros, as mais variadas vasilhas, para levar uma sopa quente e saudável para junto da sua cama. Os doentes acamados recebem também a sua dose, as enfermeiras e os médicos igualmente.
Ajudo a distribuir a sopa pelos quartos e à medida que o faço, sinto uma dor profunda dentro do peito, mesclada com vómito, agonia, sei lá, uma coisa feia que me invade e que eu não queria sentir de maneira nenhuma. É que as crianças estão deitadas nas camas sem um lençol, os corpinhos febris agarrados pelo plástico do colchão. As janelas não têm vidros, qualquer insecto pode entrar por ali. Na enfermaria das mulheres, vou de cama em cama tentando orar por cada uma, mas o cheiro dos restos de comida azeda em cima das mesas-de-cabeceira, impede-me a oração. Entramos agora na ala dos homens, passamos por uma enfermaria na penumbra. O cheiro de morte e dejectos é intenso... e é aí que desisto. As minhas amigas continuam corajosas e amorosas. Esta é a sua missão, elas vão até ao fim.
Quando chego a casa sinto-me envergonhada. Debaixo do chuveiro quente, quero lavar tudo o que vi. E um pensamento ainda mais forte que tudo o que senti, entra no meu coração: afinal o que estou aqui a fazer? Para que vim? Para fugir de uma coisa que me repugna, que não é o que estou habituada? As lágrimas misturam-se com a água morna que cai sobre o meu corpo. E mais uma vez, Deus fala comigo – ali mesmo, no banho!
Não estás aqui só para dar, Sarah, estás para receber. Não vieste só para ensinar, mas para aprender. Não te trouxe aqui só para seres honrada mas para honrares outros. Eu ainda não terminei o que quero fazer através de uma panela de sopa dada com amor, em Meu nome. O meu pensamento é mais alto que o que te foi dado ver...
Passam dois anos e estou de volta a Maputo. Desta vez venho cheia de coragem e força para entrar no hospital. Não vejo as minhas amigas na azáfama semanal da cozinha. Pergunto quando vamos visitar o hospital. Sorriem com aquele sorriso doce que só as mulheres africanas possuem e respondem que não vão mais ao hospital.
Surpreendida, quero saber porquê? Desistiram? A resposta é tão simples, porque nelas tudo é singelo e verdadeiro. Já não é necessário. As orações feitas naqueles corredores, junto às camas dos doentes, no pátio do hospital, foram respondidas. Um novo ministro entrou para a pasta da saúde e reformou completamente o hospital. As camas têm lençóis, as janelas têm vidros, os doentes podem comer normalmente, a limpeza é prioritária. Maputo tem um novo hospital, digno de uma cidade grande e bonita.
E elas, as minhas irmãs, ficaram sem trabalho? Nada disso, há outras missões a esperá-las, outras pessoas a precisar de carinho e oração, outros cantos e casas a serem transformados e limpos.
Tal e qual o que Deus me tinha falado...a sopa foi apenas o veículo de uma bênção maior!

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