domingo, 27 de fevereiro de 2011

RESTOS MORTAIS

Não tem a ver com morbidez, não senhor. Mas vou falar de morte, outra vez. Assisti esta semana a mais um funeral, de um amigo.
Além das lágrimas da viúva, este teve a característica de não haver uma única pessoa da família a chorar pela sua partida. Estranho. Mas possivelmente esses familiares estavam à espera de uma herança e como ela foi dirigida para outra pessoa, ficaram magoados. Temos mesmo pena.
Sempre que me confronto com a morte, a seguir tenho algumas horas de profunda reflexão e ajuste das minhas contas. Desta vez, ao olhar para o corpo no caixão, pensei como a doença, o sofrimento e por fim a morte podem desfigurar o ser humano de uma maneira tão atroz. Olhei o corpo do meu amigo, literalmente destruído pela doença e lembrei a sua voz forte, o olhar directo, o riso franco, as orações fervorosas, o entusiasmo quando seu clube ganhava, a doçura do seu olhar quando o fixava na sua mulher, a maneira inteligente e culta como discutia um clássico musical ou um livro que acabara de ler...
E agora? Está ali, inerte, silencioso, frio, destruído, consumido, um esqueleto apenas. Onde está tudo o que foi? Alegria, amor, entusiasmo, inteligência, fé, esperança, para onde foram?
Se eu não soubesse que a carne volta ao pó, mas o espírito volta para Deus, teria muita dificuldade em reconhecer naqueles restos mortais alguém que alguma vez possuiu tanta força e tanto vigor. Restos...mesmo. E foi sobre isto que meditei longas horas. Nos restos de alguém que foi importante, influente, que amou, ensinou, trabalhou e ocupou um lugar nesta terra dos vivos. Habituados a ver a pessoa num todo, temos dificuldade em imaginar que uma parte deixa de ser alguém, para ser apenas restos. Que uma parte não tem mais expressão neste mundo, porque é apenas resto e que a outra parte, numa dimensão difícil de ser explicada e imaginada, continua a viver, mas sem limites de tempo nem de espaço.
E se os arrogantes deste mundo se dessem conta que um dia serão restos? E se os ditadores e assassinos dos homens e das crianças compreendessem que um dia ficarão calados e frios e que qualquer um poderá levá-los para onde bem quiser? E que o corpo, por mais forte, mais belo e mais temido um dia, será apenas restos?
E se os sábios contassem bem os seus dias, de tal maneira que alcançassem corações sábios

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

HERANÇAS

Na nossa família temos algumas conversas que, ouvidas por outras pessoas, parecem de loucos e não fazem muito sentido. Uma delas tem a ver com heranças! Brincamos com o que cada um vai herdar quando nos formos deste mundo. E é muito pouco...ou nada. Uns livros, fotos, bibelots... o resto terá o destino normal de qualquer lixo. Sempre que temos esta conversa, fico um pouco deprimida, porque afinal de contas, todos os pais querem deixar algo de valor aos seus filhos e descendentes. E nós... Mas depois olho para trás e vejo o que trouxe da casa dos meus pais...fotos, livros e pouco mais. Família pobre, não?
O livro de Deus também fala em heranças. Dou comigo a pesquisar as tais e descubro algo interessante num salmo de David: “agradável é o lugar que me calhou em partilha e preciosa é a herança que me coube" (Sal 16:6 BPT).
A alusão tem a ver exactamente com a corda ou cordel que era usado antigamente para medir as propriedades e determinar os limites ou extremas das mesmas, onde a seguir eram colocados marcos, para que ficasse bem definido para cada proprietário o que realmente lhe pertencia.
Este é um salmo profético e esta herança não tem a ver com coisas, mas com pessoas que foram dadas a Cristo como herança, ou seja, a porção do nosso Rei está entre os que são Seus, preciosos, agradáveis, pois foi assim que o Pai os viu no seu decreto e propósito. O apóstolo Pedro fala disso mesmo na sua carta, explicando que a nossa vida, como modelo para os que estão de fora, é a grande herança do Filho de Deus.
Fico mais feliz quando entendo isto. Afinal, tudo o que temos é perecível, quebrável, com tendência a envelhecer e não poder mais ser utilizado. Mas a nossa vida, o modelo do nosso viver, é a herança de Cristo que Ele deseja passar aos nossos descendentes quando formos recolhidos para outra dimensão com Ele e isso é mais valioso que o outro, a prata, os bens, as propriedades, casas ou riqueza que alguém deixe para outros usufruírem. Essa é a tal riqueza que a traça e a ferrugem não consomem e que os ladrões não podem roubar.
Responsabilidade acrescida: tenho que cuidar bem desta herança, para que os meus descendentes fiquem cada vez mais ricos em Cristo!

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

FUNERAIS

Por que vamos a funerais? O que nos tira de casa para enfrentar um grupo de pessoas vestidas de luto, algumas em pranto, outras nem por isso, para ouvir uma série de conversas que têm a ver com um passado quase sempre distante, quando nos relacionávamos, quando comíamos juntos, quando isto e aquilo?
Quantas vezes visitamos o finado, quantas lhe deixamos uma mensagem no telemóvel, quantas lhe demos uma palavra de coragem e incentivo no meio da doença, da dor e sofrimento?
A que propósito nos deslocamos, fazendo centenas de quilómetros de estrada, só para marcar presença? Todas as vezes que assisto a um funeral, estas e outras perguntas semelhantes me enchem a alma e me deixam num estado de culpa. Mas devo ser só eu. E ainda bem. Porque espero que ninguém vá à tal cerimónia por culpa. De não ter amado, de não ter acarinhado, de não estar lá na hora necessária, de ser ausente, de ter fechado os olhos à solidão do velho, à precisão da mãe e à ansiedade do filho...
Ontem fui a um funeral. Amava aquele homem, respeitava-o, admirava-o pelo que fez, o que foi e o que influenciou a sua geração. Mas que amor passivo é o meu, o nosso, que falamos e dizemos estas coisas só depois da pessoa não poder tocar-nos, ouvir-nos nem sorrir de volta? Havia muitas flores, lindas, paradas e estáticas. Flores que dizem adeus, mas que não podem ser cheiradas nem guardadas num vaso. Por que enquanto colocamos flores numa jarra, cada vez que as olhamos, elas sorriem e dizem-nos o quanto nos admira quem no-las deu...
Só deviam ir a funerais os amigos verdadeiros, não os ausentes como eu. Só deviam chorar pelo morto, os que riram com ele. Só deviam levar flores os que lhe alegraram a existência...só esses.
Mas o melhor é ficar por aqui. Senão, quando eu morrer, não vai ninguém ao meu funeral!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A MÁQUINA DE ESCREVR

Apxsar dx minha máquina dx xscrxvxr sxr um modxlo antigo, funciona bxm, com xxcxção dx uma txcla.
Há 42 txclas qux funcionam bxm, mxnos uma, x isso faz uma grandx difxrxnça.
Às vxzxs parxcx-mx qux mxu grupo x como a minha máquina dx xscrxvxr, qux nxm todos os mxmbros xstão dxsxmpxnhando suas funçõxs como dxviam, qux txm um mxmbro achando qux sua ausxncia não fará falta...
Vocx dirá: "Afinal, sou apxnas uma pxça sxm xxprxssão x, por isso, não farxi difxrxnça x falta à comunidadx."
Xntrxtanto, para uma organização podxr progrxdir xficixntxmxntx, prxcisa da participação ativa x consxcutiva dx todos os sxus intxgrantxs.
Na próxima vxz qux pxnsar qux não prxcisam dx si, lxmbrx-sx da minha vxlha máquina dx xscrxvxr x diga a si mxsmo:
"Xu sou a pxça mais importantx do grupo x os mxus amigos prxcisam dx mxus sxrviços!"

Pronto, Agora consertei a minha máquina de escrever. Entendeu o que eu queria dizer??

Percebeu a sua imensa participação na vida daqueles ao seu redor...
percebeu que assim como tem pessoas que são importantes para nós, também, somos importantes para alguém?

Lembre-se de que somos parte do Universo e como tal somos uma peça que não podemos faltar no quebra-cabeça da vida.

(Publicado no Portal da Família)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

ESTAÇÕES


Que longo e agreste Inverno! Já reparou que chove desde Outubro ? Num país onde as temperaturas normalmente se mantêm amenas, este ano tivemos tudo: gelo, neve, ventanias, tornado, sei lá…
Mas hoje temos sol! Como ele transforma tudo à nossa volta. As pessoas passam pela rua menos apressadas, levantam o rosto em vez de escondê-lo por detrás de grossos cachecóis e… sorriem. Já se notam pequenos rebentos nas árvores e hoje vi um passarinho saltitando por cima do telhado do meu terraço.
Prenúncio precoce da Primavera, ou apenas bênção do Criador para aquecer os nossos corações? Segundo o calendário, a Primavera ainda vem longe, mas a Natureza não está sujeita aos calendários pendurados nas nossas paredes. Deus fez estações, não deu dia certo para acabarem ou para começarem. Cada estação tem nuances próprias e calor ou frio que são muito seus.
Pensei na nova estação e apliquei-a à minha vida. O que vou produzir nesta nova etapa? Como vou florir para o mundo á minha volta? Será que vou aquecer alguma alma com a minha presença? Darei fruto doce e saudável para um mundo doente e em desequilíbrio? Farei diferença ao ponto de alguém dizer que encontrou a estrada perdida?
Todos os anos Deus repete as estações, mas nenhuma é igual à anterior. Cada uma traz uma novidade única. Eu também não quero repetir o que já fiz, dizer as mesmas palavras, ser amiga das mesmas pessoas. Quero que a minha estação seja única, que comece exactamente no dia certo no Seu calendário, não nos outros, pendurados nas paredes da casa, cheios de números, de luas e de fotos de mau gosto…