quarta-feira, 27 de abril de 2011

RIO


Vou poucas vezes ao cinema. Tenho que ter uma razão muito forte para isso. Mas tenho um fascínio pelos filmes de animação.
Fomos ver RIO. A sala estava cheia de crianças, de vários tamanhos e feitios, com os pais, com as mães e com mais outros tantos adultos que fingem vir cuidar da pequenada... Nós viemos de propósito!
Quando a sessão terminou e a sala foi ficando vazia, olhei para os restos de uma tarde bem passada, ou seja,pipocas e garrafas de água espalhadas em profusão. No caminho para casa, pensei no filme outra vez e dei comigo a sorrir sozinha. Afinal, o enredo do dito tem a ver com tudo o que acontece na vida de um ser humano. Acho que não deve haver ninguém à face da terra que não tenha experimentado o que o Blue e a Joia sentiram: baixa auto-estima enquanto se cresce, amigos leais que ficam ao nosso lado em todas as dores da nossa vida, gente mau carácter que quer aproveitar-se de nós, pessoas sem escrúpulos que fazem tudo por dinheiro, medos e receios que nem sempre são fáceis de ultrapassar, aventuras mais ou menos incríveis que não sonhávamos viver, música e dança para alegrar os dias mais complicados e uma grande história de amor!
O cenário mudo para cada pessoa, a música e o carnaval também, mas todos nós andamos neste mundo à procura de um final feliz! Para isso não precisamos ser levados do Minnesota para o Rio, acontece em qualquer esquina da nossa terra, chegamos lá pelos labirintos que a própria vida desenha...o final, porque feliz, não é para todos.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

FIM-DE-SEMANA


Há dias, há fins-de-semana para esquecer. Mas nada que se compare ao das mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galileia, fieis, devotas, leais, presentes, prestativas, incansáveis. Aliás, aquele foi o pior fim-de-semana que a humanidade presenciou. Prenderam Jesus, enquanto orava no jardim, acusaram-no injustamente num julgamento sumário e tendencioso, obrigaram-no a caminhar pelas ruas de Jerusalém carregando um madeiro (instrumento de tortura e morte para os condenados por crimes contra a sociedade), pregaram-no àquele tronco ao lado de dois criminosos, deixaram-no agonizar como o pior dos malfeitores e já depois de morto, furaram o Seu peito com uma espada.

E elas, as mulheres que o tinham seguido sempre? Onde estavam? O evangelista Lucas diz que ficaram de longe, a contemplar a cena. Consigo imaginar a dor, os soluços reprimidos, as lágrimas teimosas correndo pelas faces. E depois? Silenciosas, como fantasmas, caminharam por entre as sombras do jardim onde havia túmulos novos. Viram onde o Senhor foi colocado, envolto apenas num lençol. Naquele mesmo silêncio dorido, voltaram para casa. Tinham pouco tempo para o que era preciso fazer. Antes que o dia terminasse, prepararam os unguentos, ligaduras perfumadas, embebidas em óleos e especiarias, para embalsamar o corpo do Mestre. Algures na cidade, os discípulos estavam escondidos, com medo dos judeus, sofrendo também, mas passivos, paralisados, limitados pelo receio. Ouviram o sinal que um novo sábado tinha começado. Descansaram conforme a lei, um descanso misturado com inquietação e perguntas: “Como revolveremos a enorme pedra à entrada do sepulcro?” “O que farão os guardas quando nos virem chegar?”

A aurora despontava no horizonte, o sábado terminara. No coração das mulheres não havia qualquer dúvida, nenhuma desculpa que as levasse a desistir da tarefa.
Sabemos o final da história, a maravilha que as aguardava: a pedra revolvida, o túmulo vazio, um ser celestial que lhes disse que o Senhor ressuscitara. Tudo o que levavam ficou ali, no jardim, espalhado entre as roseiras e as madressilvas, não tinha mais valor, não era mais necessário. As bocas encheram-se de riso, os pés de velocidade para chegarem aos discípulos e dizerem que o Senhor estava vivo! Mulheres! Práticas, entusiasmadas, fiéis, devotas, cheias de amor...
Como as entendo! Tão pouco que tinham para dar, mas fizeram-no até ao fim. Nunca abandonaram Jesus, nem na vida e nem na morte. O que Lhe tinham oferecido eram coisas pequenas, actos de amor, cuidado, coisas simples...

Também eu chego ao túmulo, para verificar, mais uma vez, que Ele está vazio. O que faço para mostrar-lhe o meu amor neste fim-de-semana de Páscoa? Uma palavra, uma oração, um sorriso, um gesto simples ou um copo de água a “um dos Seus pequeninos”?
Quero muito que o meu fim-de-semana seja de ressurreição, que o meu domingo seja de Aleluia!

quinta-feira, 14 de abril de 2011

MAPUTO-“O QUE FIZERDES A UM DESTES ...”


A lufada de ar quente que me recebe, quase me faz voar pelas escadas do avião. Isso mesmo, é pressa de chegar, de colocar os pés outra vez naquela terra amada. Tenho vontade de ajoelhar-me e beijar o asfalto do aeroporto. O abraço das amigas que me esperam é quente como a terra, profundo de amor e alegria. Alguns brancos olham de lado para a cena de beijos e abraços entre uma mulher europeia e um grupo de africanas. Que olhem! Amor não tem cor!
Percorro as estradas e ruas que conheci um dia e as lágrimas caem teimosas. Tantas recordações doces e ao mesmo tempo amargas. Tantas alegrias e dores...Engulo os soluços teimosos, não foi para isto que vim, mas é inevitável. As recordações. No cemitério da cidade estão duas urnas, com os restos dos meus irmãos que nunca são esquecidos.
As ruas estão esburacadas, mas as árvores que as ladeiam são as mesmas, fogosas de flores, deixando tombar no chão a beleza que lhes sobra.
A casa da minha amiga é fresca e limpa, acima de tudo respira-se paz. Nos olhos desta mulher a paz é exactamente como um rio, que desce ao seu sorriso e se estende às suas palavras rápidas e roucas.
O dia seguinte tem um grande programa. Vamos visitar o hospital central da cidade. Entrei algumas vezes neste hospital, há alguns anos. Não imaginava o que ia encontrar.
As mulheres moçambicanas cristãs que fazem parte da organização Aglow, cozinham um panelão de sopa, coisa enorme, transportado numa carrinha de caixa aberta. A sopa é levada para o hospital. Pousam a enorme panela numa pequena cozinha e assim que o cheiro da sopa invade as enfermarias, começa a formar-se uma fila de gente com malgas, púcaros, as mais variadas vasilhas, para levar uma sopa quente e saudável para junto da sua cama. Os doentes acamados recebem também a sua dose, as enfermeiras e os médicos igualmente.
Ajudo a distribuir a sopa pelos quartos e à medida que o faço, sinto uma dor profunda dentro do peito, mesclada com vómito, agonia, sei lá, uma coisa feia que me invade e que eu não queria sentir de maneira nenhuma. É que as crianças estão deitadas nas camas sem um lençol, os corpinhos febris agarrados pelo plástico do colchão. As janelas não têm vidros, qualquer insecto pode entrar por ali. Na enfermaria das mulheres, vou de cama em cama tentando orar por cada uma, mas o cheiro dos restos de comida azeda em cima das mesas-de-cabeceira, impede-me a oração. Entramos agora na ala dos homens, passamos por uma enfermaria na penumbra. O cheiro de morte e dejectos é intenso... e é aí que desisto. As minhas amigas continuam corajosas e amorosas. Esta é a sua missão, elas vão até ao fim.
Quando chego a casa sinto-me envergonhada. Debaixo do chuveiro quente, quero lavar tudo o que vi. E um pensamento ainda mais forte que tudo o que senti, entra no meu coração: afinal o que estou aqui a fazer? Para que vim? Para fugir de uma coisa que me repugna, que não é o que estou habituada? As lágrimas misturam-se com a água morna que cai sobre o meu corpo. E mais uma vez, Deus fala comigo – ali mesmo, no banho!
Não estás aqui só para dar, Sarah, estás para receber. Não vieste só para ensinar, mas para aprender. Não te trouxe aqui só para seres honrada mas para honrares outros. Eu ainda não terminei o que quero fazer através de uma panela de sopa dada com amor, em Meu nome. O meu pensamento é mais alto que o que te foi dado ver...
Passam dois anos e estou de volta a Maputo. Desta vez venho cheia de coragem e força para entrar no hospital. Não vejo as minhas amigas na azáfama semanal da cozinha. Pergunto quando vamos visitar o hospital. Sorriem com aquele sorriso doce que só as mulheres africanas possuem e respondem que não vão mais ao hospital.
Surpreendida, quero saber porquê? Desistiram? A resposta é tão simples, porque nelas tudo é singelo e verdadeiro. Já não é necessário. As orações feitas naqueles corredores, junto às camas dos doentes, no pátio do hospital, foram respondidas. Um novo ministro entrou para a pasta da saúde e reformou completamente o hospital. As camas têm lençóis, as janelas têm vidros, os doentes podem comer normalmente, a limpeza é prioritária. Maputo tem um novo hospital, digno de uma cidade grande e bonita.
E elas, as minhas irmãs, ficaram sem trabalho? Nada disso, há outras missões a esperá-las, outras pessoas a precisar de carinho e oração, outros cantos e casas a serem transformados e limpos.
Tal e qual o que Deus me tinha falado...a sopa foi apenas o veículo de uma bênção maior!

quinta-feira, 7 de abril de 2011

AINDA HÁ BÁLSAMO

Há momentos na vida de um indivíduo, de uma colectividade e até de uma nação, em que temos que perder um bocadinho o orgulho e pedir ajuda aos amigos, familiares e outros. A razão porque chegámos a esse estado de coisas é variada e discutível, ou seja, muitas vezes são as decisões erradas que levam alguém a cair num buraco sem fundo. E daí? Deixa-se a pessoa no buraco? Não se ajuda, só porque as decisões foram mal tomadas?
Eu disse que era discutível... Proibimos um filho de levar a sua bicicleta para um caminho que sabemos ser perigoso. A criança cai, esfola-se e parte a bicicleta. Decisão errada do filho. Como tal, mesmo que grite e chore de dor e pena, ficamos na nossa e não ajudamos, não fazemos o curativo, nem mandamos arranjar a bicicleta? Ora façam-me o favor!
Vejo isso, vezes sem conta, no meio de um povo que se diz ser de Deus. O irmão errou, pecou, meteu-se no buraco...agora “fica aí para aprender, porque só ajudamos pessoas que não se metem em trabalhos”. Tenho alguma dificuldade em engolir esta atitude. À luz do conhecimento de um Deus que é Pai, não consigo entender.
Lembrei-me de um lamento de Jeová em relação ao Seu povo “Estou quebrantado pela ferida da filha do meu povo...ainda há bálsamo em Gileade!” (Jer 8:21,22) Nação mais provocadora, obstinada, orgulhosa e esquizofrénica não havia. E no entanto, Deus estava ali a oferecer ajuda, a levá-la a um momento de “arrepiar caminho”, a um instante de arrependimento e contrição, a dar bálsamo único e especial, como não havia em nenhum outro lugar...
São as nossas atitudes, essas sim, de orgulho farisaico, que impedem que as pessoas se arrependam das decisões erradas, das posições teimosas e muitas vezes da volta para Deus.
O povo diz “faz o bem, não olhes a quem”. Verdade da alma genuína. Teologia da misericórdia em expoente máximo!
Quero lá saber se erraram por isto ou por aquilo, quero é que saiam do abismo, que se salvem, que tenha mais uma oportunidade e que vejam a luz! Quero é ser a portadora do bálsamo.

sábado, 2 de abril de 2011

CASUALTIES


(Termo usado para referir as baixas entre os militares em combate)
Entrei num certo lugar e enquanto procurava a pessoa com quem ia fazer um trabalho, vi ao longe um homem parado, estático, cuja figura não me era estranha.
Gente míope sabe do estou a falar, mesmo com óculos há uma certa distância que ainda nos é interdita... Aproximei-me mais e o homem olhou-me com intensidade ao mesmo tempo que esboçava um sorriso tímido. Era ele mesmo, um amigo que não via há algum tempo. Fora um líder no meio dos crentes em Jesus e agora...Trocámos meia dúzia de frases de circunstância e banalidades de ocasião, até que me atrevi a perguntar-lhe o que fazia num lugar tão longe de casa, num ambiente que não tinha muito a ver com ele. Sorriu outra vez a medo e contou-me que estava ali para receber ajuda psicológica, pois encontrava-se totalmente perdido, sem direcção e sem objectivos. Fiquei feliz por ele, pois sei que há pessoas naquele lugar que poderão ajudá-lo a encontrar-se outra vez.
Acabei o meu trabalho e no caminho para casa, a minha mente voltou outra vez ao homem que encontrara à entrada da instituição. E ai, encolhi-me no banco do carro, como se tivesse feito uma maldade e não quisesse que me vissem. Não era medo, não. Vergonha, era o sentimento que me enchia o coração, teimava em sair-me dos olhos em lágrimas quentes e queimava-me o peito por não poder gritar.
Como é que os crentes, povo de Deus, filhos de um Pai amoroso, chamados para as boas obras que Ele preparou, podem ferir de morte, deixar no campo de batalha esvaído em dor, um soldado que foi marcado por um erro, que não teve hipótese de defesa, que nem compareceu diante do tribunal militar, mas cuja sentença foi dada na sua ausência: MORTO?
Como?
Os juízes alguma vez pensaram que podiam tê-lo salvo, tivesse ele uma outra oportunidade de corrigir alguma coisa menos correcta? Conjecturaram por momentos, que bastaria um abraço, uma palavra amiga, uma correcção a tempo, aquele soldado não se teria afundado num abismo de desespero, de solidão, de perda absoluta?

Limpei as lágrimas teimosas. Ele está num lugar onde vão amá-lo e onde vai sentir abraço e segurança. Os juízes, esses, um dia vão ser julgados, também, mas num tribunal muito mais perfeito.