sexta-feira, 27 de maio de 2011

MONTES


A pequena freguesia onde vivo é rodeada de montes, colinas, elevações que nos parecem muito grandes, mas que já subimos e galgámos, por isso sabemos que não são assim tão altos... Aqui e acolá ainda se vêm moinhos, a maioria em ruínas, lembrança dos tempos em que os homens moíam o cereal que alimentava o povo. Hoje, o pão é feito de outra forma, as mós deram lugar às máquinas sofisticadas e os pobres moinhos foram caindo aos poucos...
Através da neblina da manhã, olhei para os montes e lá estavam elas, as grandes pás eólicas, movendo-se pela força do vento que noutros tempos movimentava as velas dos moinhos... Os montes, esses, estão na mesma. Fechei os olhos no frescor do dia e ouvi dentro de mim palavras eternas e que, cada vez fazem mais sentido, “levanto os meus olhos para os montes de onde me virá o socorro, o meu socorro vem do Senhor que fez o céu e a terra”. Se acontecesse por aí uma calamidade, um desastre natural como já sucedeu há anos nestas paragens, as pessoas fugiriam para os montes, lugar mais alto, mais seguro. Mas eu já não tenho força para essas corridas e maratonas. Tinha que quedar-me por aqui, viesse o que viesse. Por isso, cada vez é mais óbvio que os montes não me dariam nem abrigo nem segurança. Mas o meu socorro vem do Senhor, Deus dos montes e das planícies. Em qualquer lado, em todas as circunstâncias estou segura. E se, por alguma razão tivesse que correr, Ele assegura-me que “não deixará vacilar o meu pé, não me deixará cair”.
Abri os olhos devagar e fixei as colinas em desafio: “Estou muito mais segura aqui, os meus pés estão mais seguros aqui, Nele, o Senhor que fez o céu e a terra!”

segunda-feira, 23 de maio de 2011

ÁRVORES DA MINHA TERRA...


Enchi os olhos e a alma de verde, enquanto o autocarro galgava os quilómetros que me separavam de casa. Senti cá dentro o que significava a frase “árvores da minha terra”, de Espanca, poetisa da dor.
Os sobreiros, azinheiras, pinheiros, oliveiras e mais altos os eucaliptos, cada um deles oferece uma tonalidade diferente de verde, que repousa sobre um outro matiz, o das elevações e campos a perder de vista. Aqui e acolá, uma daquelas já gastas, troncos nus, reclamando uma gota de água... e de repente, numa curva da estrada, o verde muda para dourado, espigas amadurecendo, de um trigo que já promete pão. Que lindo é o Alentejo! Que linda é a nossa terra!
Pensei na nossa vida, todos somos árvores de uma mesma plantação, mas mostramos cor e matiz diferente. Umas dão sombra outras fruto, ainda algumas exalam saúde, outras oferecem madeira... perfeita aguarela da criação, quadro pleno da natureza em equilíbrio. Em contraste, dentro da viatura, não há sossego, as pessoas centram-se nos telefones que não param de tocar, “filha, faltam 20 minutos para chegar”, “não, eu vou sozinha para casa”, “não faças almoço, não estou com fome”, “estou desejando chegar e saber o que se passou...” Gente, cheia de ansiedade, expectativas, saudades, lutas e sucessos.
As árvores, essas estão firmes, verdes, perenes, sem preocupação com o vento ou com o sol. Estão lá, para deixar o mundo mais belo, para encher os nossos olhos de harmonia e a nossa alma de esperança...

quinta-feira, 19 de maio de 2011

LEMBRANÇAS


Estes dois últimos meses têm sido de lembranças. Dias marcados no calendário da vida e da morte. Memórias que um dia foram choque, realidade, agonia e lágrimas.
Sem que demos conta, passámos a lembrar o que doeu pelas fotos nas molduras, como se fossem de uma outra vida, quem sabe, de um outro planeta...A dor já não está lá, foi embora, agarrada a lágrimas que não fazem mais sentido e que lavaram os nossos olhos para ver detalhes que de outro modo nunca podiam ser vistos. Ali, diante dos retratos que vão ficando cada vez mais fora de moda, tocamos um riso sem som, sentimos um abraço sem calor, ouvimos uma canção sem refrão e lembramos palavras no silêncio.
Um dia, os seres que foram parte da nossa realidade e que rasgaram o nosso coração com a dor da separação, deixam de ser verdadeiros e esquecemos até a cor dos seus olhos e o contorno dos seus lábios e o que fica, são sons abafados, passos mais longínquos, canções quase em surdina, até desaparecerem num horizonte que não sabemos onde começa e onde acaba. Já não dói, nem se pode chamar já saudade o que sentimos, só sabemos que eles estão lá, dentro de nós, algures no profundo da nossa memória, como se tivessem voltado para fazer parte do que somos, para sempre...

sábado, 14 de maio de 2011

BONITA...FEIA...


Bonita...feia...mais ou menos...não é feia de todo...não é assim tão feia...pena não ser bonita...é simpática, mas não é bonita....até nos esquecemos que é feia...destoou dos irmãos que são tão bonitos...para ser bom, não é preciso ser bonito...feio, é relativo...
Querem mais? Pois desde que me lembro que sou gente, que ouço estas e outras tantas expressões, relativas à minha pessoa. Cresci a ouvir estes comentários, na escola, na igreja, na rua onde morava e eles foram entrando na minha mente de criança e adolescente como verdade. Ficava longas horas em frente ao espelho, imaginando como seria ser bonita. Ouvia as comparações das amigas e dos amigos e lá no fundo, havia um consolo, porque a mãe tinha o cuidado de apontar como eu era bonita. Será que ela não tinha olhos para ver o que os outros viam ou ela via beleza onde não existia?
Já mulher, dei-me conta que a beleza, segundo o povo, é um conceito tão pequeno e tão fácil de comprar. Basta usar isto, cortar aquilo, depilar mais acolá, dar cor no lugar certo e o quadro aparente fica logo diferente... Percebi também que as pessoas que durante a minha juventude se gabavam de ser belas, hoje não passam de sombra e de desgaste.
Mas porque fui tão bombardeada por essa ideia, resolvi ser bonita. Ora essa, hei-de ter o meu momento de glória! Descobri que a paz tira as rugas e alisa a pele, que a alegria faz os olhos mais brilhantes, que a ternura no coração provoca veludo no olhar, que as palavras ditas no momento certo fazem os lábios mais correctos, que olhar para Deus muitas vezes reflecte-se no rosto...fui fazendo a minha plástica, sozinha, sem ajuda de ninguém, porque poucos sabem deste meu “problema” em relação à beleza...
Sabe que hoje olhei para o espelho e fiquei deslumbrada? Não me comparei com ninguém, mas achei que a imagem que o vidro me devolvia era quase bela...

terça-feira, 10 de maio de 2011

ETERNO - Por Arlete Castro

Andei em busca do Eterno

estive em tantos lugares

ergui altares, andei errante

vivi a vida num rompante

e encontrei o Querer que me disse:

que o lugar do Eterno não era ali


Busquei em grandes cidades

na correria dos dias,

nas línguas que aprendia,

nas emoções que vivia

na coragem que sentia,

nos talentos, na sabedoria...

e encontrei o Sábio que me disse:

que o lugar do Eterno não era ali


Busquei nos rios, nos mares

nas cores que enfeitam a terra

no céu que empresta Luz,

no brilho que seduz,

nas estações definidas

no verde musgo paisagem

nas casas brancas... miragem.

e encontrei o Belo que me disse

que o lugar do Eterno não era ali


Busquei na letra escondida

nas frases que se formavam

nos pensamentos que chegavam

na junção das palavras...poesia

nos romances que criei,

nos poemas e histórias que inventei

e encontrei a Poesia que me disse:

que o lugar do eterno não era ali


Busquei no homem que amei

nos filhos que gerei,

nos amigos que encontrei

nos relacionamentos saudáveis,

na comunhão

no colo de minha mãe,

no abraço de meu pai

na amizade do meu irmão

e encontrei a Segurança que me disse:

que o lugar do Eterno não era ali


Busquei nos templos,

nas relíquias,

nas imagens de adoração

no ritual aprendido

no ensino, na prática,

no desejo de perfeição

Nos altares da vida,

no homem intercessão...

e encontrei o Sagrado que me disse:

que o lugar do Eterno não era ali.


E então cansei de tanto buscar

pois o lugar do Eterno

era impossível de achar

fiquei assim em silêncio

sem palavra sem chão

quando senti de leve

um toque de paixão

foi então que percebi

que o Eterno que eu buscava

estivera sempre ali.

deu-me querer, consagração

segurança, aceitação

esculpiu o belo ao meu redor

fez da minha letra poesia

do aprender sabedoria

e veio viver eternamente

dentro do meu coração.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

ELES SÃO O QUÊ???



Não digam que não, mas todos nós categorizamos determinados segmentos da sociedade, às vezes em menos que humanos. Definimo-los pelo que fazem, pelo comportamento, vícios etc.
Já era assim no tempo de Cristo. Alguns não eram gente, eram cobradores de impostos. Nem a pecadores chegavam, pois estavam numa categoria de cobradores de impostos E pecadores. Até o Mateus estava aí, nessa lista. Mas Jesus deu-lhe a possibilidade de O seguir, uma coisa que nenhum religioso daqueles dias teria feito. Jesus via todos os homens dignos de morte, mas todos dignos de amor.
Todos nós temos um E, uma classe, um grupo, que consideramos pior ou mais pecador. Focamo-nos nos homossexuais E drogados E strippers E prostitutas E legalistas... só para dizer que este E, nos separa do resto, desses tais...
Afinal Cristo veio para os doentes, os que percebiam que precisavam de cura. Quando é que eu e tu vamos parar para tocar, curar, abraçar e sentir que eles são humanos, gente que tem família, filhos, coração E que precisam ser amados e restaurados?
Quando penso nisto, a sério, fico agoniada, em choque. Porque “eles” arruínam a maneira como eu queria que o mundo fosse...