quinta-feira, 30 de junho de 2011

RETRATO


Enquanto arrumo o quarto, dou comigo a olhar mais demoradamente uma foto antiga numa moldura de vidro. Fotos são imagens estáticas e silenciosas. Mais caladas ainda quando elas param de mudar, pois a pessoa nelas retratada já se foi. Olho a foto da minha mãe, com os seus lindos olhos azuis que nunca perderam o brilho, a não ser quando os fechou nesta vida e um sorriso tímido, porque ela não tinha muito jeito para sorrir, ou ficava séria com um ar misterioso ou ria a gargalhadas grandes, intensas e verdadeiras. E ria muito...
Em minutos de contemplação, faço uma análise rápida do que foi a sua vida. Jovem, linda, com uma voz de rouxinol, amando a família, os amigos e acima de tudo a Deus. Mulher, mãe, trazendo à vida filhos, uns atrás dos outros, sem cuidados médicos, sem parteiras especializadas, sem esterilizadores, fraldas descartáveis, depressões pós-parto. Como é que ela nunca parou para se questionar sobre a sua identidade? Possivelmente porque estava ocupada demais em dar identidade aos filhos e a quem se chegava perto (e não eram assim tão poucos). Como é que ela nunca teve uma baixa auto-estima se a vida lhe negou roupas caras, viagens e pouco estudo? Se alguma vez se queixava, era com uma piada especial que tirava de uma linguagem só dela e que a levantava, sem precisar de ajuda de ninguém, acrescentando aos outros que a rodeavam mais riso e mais luz e estima, era coisa que ela dava com fartura a quem se chegasse perto.
Nos dias da dor, separação, luto e tragédia ficava lá, firme, com a mesma postura calma e coerente. Havia lágrimas, mas de repente limpava-as e levantava-se para animar os desanimados. Não se revoltava contra Deus no dia da adversidade, não questionava a fé nos dias sem sentido, não admitia uma dúvida sequer sobre as promessas de Deus.
Quando a doença a obrigou a parar, ainda assim ria dela mesma, fazia piada ao que não entendia e esperava...
Que mundo era o seu, onde as “grandes” questões da vida não se colocavam? Que força a levava a passar uma noite em claro para ter pronta uma roupa “nova” para os filhos? ( Os modelos eram transformados, virados do avesso, alindados com outras cores, golas e rendinhas, que ela desencantava sabe-se lá onde).
Como é que as praças, ruas e jardins desta terra, não têm mais estátuas e bustos destes heróis desconhecidos que fizeram do seu mundo um lugar de amor e riso, sacrifício e trabalho?
Por isso a fotografia na moldura é tão importante, tão válida e perdoem-me se não acreditam...viva!

quinta-feira, 16 de junho de 2011

CELEBRAÇÃO


Tinha só 19 anos. Tantos sonhos e planos mais ou menos delineados... Estava longe de casa, numa altura em que as “meninas” não saíam para estudar fora. Mas sempre fui um pouco diferente e isso levou-me a viver durante mais de dois anos num país gelado, brumoso, onde o sol era um luxo e os dias mais quentes uma loucura quase nacional!
Para ganhar uns tostões, cuidava de duas crianças, enquanto os pais saíam para o trabalho. Nos tempos livres lia, lia muito e o muito aqui não se refere à quantidade de livros, mas ao tempo que me levava a ler um só, pois eu tinha que aprender inglês rapidamente e esse era o meio mais eficaz, mas mais difícil.
O livro que tinha nas mãos chamava-se IMPACT, escrito por T.L.Osborn. Falava da necessidade de levar o evangelho de Jesus Cristo aos que não O conheciam, da responsabilidade pessoal de cada cristão de fazer conhecida a pessoa maravilhosa do Filho de Deus. Deixei de ler com os olhos e passei a ler com o coração. Cada página era mais forte e esclarecedora que a anterior e cada uma me trazia uma sensação que algo estava a acontecer dentro de mim, que não conseguia por em palavras. Era como se uma luz brilhasse sobre cada palavra e se um foco se acendesse sobre cada frase. Quando terminei a última página e li as últimas palavras, Deus falou comigo. Dizer que ouvi uma voz seria uma falsidade, mas dizer que Ele não falou seria ainda mais perigoso. O que Ele me dizia era como se fosse a continuação das páginas que terminara de ler. Tal e qual como Deus usava aquelas pessoas descritas no livro, Ele dizia-me que eu seria parte desse grupo de gente que levaria o evangelho a “todas as nações”. Durante alguns dias andei inquieta e sem dormir. Numa longa carta contei aos meus pais o que Deus me tinha dito e na sua sabedoria e experiência, encontrei a confirmação que, naquele dia, Deus me tinha separado para um trabalho, uma obra que estava além das minhas capacidades, da minha força e das convenções dos homens – pregar a Palavra de Deus.
Já passaram 50 anos desde esse dia! A vocação, o chamado de Deus, são irrevogáveis. Sem me dar conta, sem fazer qualquer esforço, Ele cumpriu tudo o que tinha no Seu propósito fazer comigo.
Dentro de mim, no segredo do lugar onde ele ainda me fala, quero celebrar esta caminhada. Teve que haver um tempo de espera, até estar pronta para a jornada que Ele tinha em mente, mas hoje, cada vez que estou na frente de uma multidão ou de um pequeno grupo, sei que não tem a ver comigo, mas com Ele, que cumpre os Seus desígnios e propósitos, com a Sua fidelidade, que nunca falha, com o Seu amor, que nunca desiste...

sexta-feira, 3 de junho de 2011

DEUS ARTISTA


Sempre me fascinou o talento dos pintores. Como misturam as cores, como de um traço estranho conseguem fazer gente, pássaros, nuvens...
Hoje pensei em Deus como pintor. Fazendo deste mundo uma tela única,faz cada ser com cores diferentes, umas mais fortes, outras mais suaves, mas todas elas contribuindo para a beleza do quadro final.
Nós somos quatro irmãs, filhas do mesmo pai e da mesma mãe.Nenhuma de nós se parece muito nem com um, nem com o outro. Eu, a mais velha, gosto de escrever, de ler, de organizar, de ensinar. Gosto do silêncio, da contemplação da natureza, da introspecção. Anima-me fazer coisas novas que nunca foram experimentadas, embora receie muito falhar.
A minha irmã Rute, tem umas mãos de fada. Faz tudo. Invente aí uma ideia e vai ver que ela conseguirá transformá-la. Das suas mãos saem os mais deliciosos acepipes, quadros, pinturas, cerâmica, sabe decorar uma casa, pentear cabelos, fazer cortinados, enfim...até cansa.
A irmã seguinte, chama-se Lidia. Já está no céu com Jesus. Mas enquanto estava connosco, era a mulher do bo gosto, do requinte. Fale de algo bonito e caro e era disso que ela gostava. A sua alma de artista e música, levava-a a compor no seu piano, lindos trechos e cançõesque delicivam o nosso coração.
A mais nova, a Isabel, é uma mente cheia de curiosidade, criatividade e imaginação. É comunicativa, alegre, cómica e sensível ao mesmo tempo. Sabe ouvir Deus e dizê-lo às pessoas.
Como é que o Criador faz quatro mulheres tão diferentes numa família? Porque, ao criar-nos, tinha um propósito para cada uma - tocar o nosso mundo com essas capacidades diferentes, que colocou em cada uma de nós.
Se alguem tem dúvida quanto à sua existência, futuro, percurso,repare que num cantinho da tela que é a sua vida, Deus colocou a Sua assinatura. Pertence-lhe. Ninguém pode usá-lo indevidamente, nem pintar por cima. Essa assinatura garante a autenticidade da tela. Para sempre.