sábado, 27 de agosto de 2011

HERÓIS



A moldura é linda. Arvoredo, flores, vinhas carregadas, ar puro. Uma semana passada numa quinta com um grupo de amigos especiais. A maioria, desconhecidos, antes desta semana. O mundo passa ao nosso lado e com ele milhares de pessoas com quem nunca nos cruzamos e de repente, damos connosco a conhecer outra gente, a ficar ligados por laços que não vão ser quebrados, nunca mais.
O especial destas pessoas é que algumas vieram para ajudar os outros e, só por isso, teria valido a pena conhecer um tipo de gente que parece estar em vias de extinção. O outro grupo, são homens e mulheres, sentados em cardeiras de rodas, cujo horizonte está confinado ao ângulo de visão da cadeira e que, apesar de serem autónomos na sua vida, ainda dependem de outros para viver. E surge-me a grande questão: E não somos todos dependentes? Alguém poderia sobreviver sem uma rede e um suporte à sua volta, quer no mundo físico quer no emocional?
Há quem chame aos meus amigos “deficientes”.
Mas esta semana aprendi que deficiente é:
- quem tem pernas saudáveis e se recusa a andar mais um metro que seja, para ajudar alguém
- quem tem braços fortes e é incapaz de levantar um amigo e de dar um abraço a quem precisa de conforto
- quem tem membros que podem ser mostrados e despidos e não se desnuda numa emergência ou quando alguém está em aflição
- quem tem saúde completa e não a utiliza para levar os outros mais longe e mais alto e para fazer deste mundo um lugar melhor.
Estes meus amigos não vivem assim. Apesar das limitações, das dores, desconforto, descriminação e falta de apoio, pensam nas suas famílias, cuidam dos filhos, sobrinhos e amigos, com um coração doce, temperado pelo sofrimento e pelo conhecimento da sua incapacidade.
Que grande semana! Que grande lição de vida! Mais uma vez, meu Pai Celestial me enriqueceu, de uma maneira que eu nunca imaginaria. Possivelmente porque nas minhas queixas patéticas, nem me apercebia que havia pessoas tão fortes, tão únicas, que, porque não podem andar como eu, rolam na vida, sentados em cadeiras de rodas…

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Quando eu morrer



(Este poema foi escrito por um amigo, dedicado ao meu pai, no dia do seu 97º aniversário)


Quando eu morrer
por favor não procurem pelos meus passos
...na literatura.

Procurem apenas saber
se na minha boca
ainda respira a rosa indomável
que vos falou de Cristo.

E prestem atenção
à sua loucura.

Manuel Adriano Rodrigues

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

LIXO


Definitivamente, endoidecemos. Sim, porque atirarmo-nos a uma garagem e a uma “adega”, onde ao longo dos anos se têm acumulado coisas, das mais variadas origens e procedências, só estando mesmo com o juízo virado.
Munimo-nos de sacos de plástico, daqueles enormes, pretos. Calçamos luvas de borracha e com panos e detergente, aí vamos nós.
Não, não calculam. Foi tanto lixo deitado fora, que até tínhamos vergonha que alguém visse, por isso guardámos algum para uma escapadela nocturna ao receptáculo do dito.
Como é possível guardar tanta coisa, durante tanto tempo? Objectos dos mais variados feitios e tamanhos, alguns deles (a maioria) escondidos da nossa vista, como se fossem tesouros valiosos? Quando terminámos, uma sensação boa de alívio, limpeza, espaço, claridade, higiene e sei lá quantas coisas mais deste género, invadiram-nos e sossegaram o cansaço que sentíamos...
Depreendo que dentro de mim, há também espaço para uma boa limpeza. Há lembranças, objectos, vozes, sons, conceitos, crenças e outros tantos, que precisam ser jogados fora. Não estão lá a fazer nada. Não me ensinam nada. Não servem para mais nada, não têm mais utilidade. São apenas entulho e tiram o espaço ao novo que preciso ter na minha vida.
“As misericórdias do Senhor são novas, a cada manhã”. Se a Sua misericórdia não pode ser guardada, encaixotada, armazenada, nem colocada em prateleiras empoeiradas, mas é sempre renovada, diariamente, o resto também não.
Neste caso, esta limpeza só pode ser feita por mim. Sozinha. Só eu sei o que está a mais, apenas eu tenho o direito de abrir essas arrecadações e começar a limpeza.
Mãos à obra!

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

ALTOS VOOS


O desejo de voar, já vem de longe! O salmista queria ter asas como as pombas para fugir para um lugar distante! Eterno sonho do ser humano, destinado a viver no chão, o sonho de VOAR! Voar livremente utilizando apenas o seu próprio corpo, assim como fazem os pássaros!
Já tenho assistido a festivais de pára-quedismo. Parece tão simples, saltar, deixar o ar sustentar o corpo...mas e se o pára-quedas não abre? Essa é sempre a minha dúvida e receio. Agora, fascinante mesmo, é ver o skysurf, uma modalidade que utiliza uma prancha em queda-livre, a grande altura, para realizar curvas, loopings e acrobacias... Essa loucura só pode ser praticado por desportistas experientes. Como o próprio nome indica, o pára-quedista torna-se um surfista dos céus e realiza manobras arrojadas com a sua prancha, presa aos pés. É lindo, mas muito perigoso. Porque fomos feitos para viver com os pés na terra...
Estou aqui a pensar em algumas acrobacias que já fiz na minha vida. Episódios que têm pouco a ver com “pés na terra”. Especialmente quando à minha volta me diziam que não era capaz, que não era coisa para mim, que era um chinelo grande demais para o meu pé, que tinha que ter a noção do ridículo, que não era para a minha idade nem para o meu estatuto (o que será que queriam dizer com esta???)
Mas vou contar-vos o segredo da minha coragem e expertise nesses momentos: “ por baixo os braços Eternos”. É isso. O salmista sabia que voar não era próprio do homem, mas também sabia e muito bem, que se ele se aventurar para aquilo que Deus quer, “por baixo os braços Eternos” sustentam, seguram, pousam-nos em terra firme sem uma beliscadura. Posso nunca colocar uma prancha dessas do skysurf debaixo dos pés e fazer as tais voltas doidas, mas garanto-vos que já voei como águia, sem me cansar e sem medo.
Estou a precisar de outra destas voltinhas!