sábado, 10 de março de 2012

AFECTOS


Fui à procura de uma definição do conceito “afectos” e encontrei esta:” Afectos são um conjunto de reacções que nos ligam uns os outros e às coisas que nos rodeiam”.
Gostei sobretudo da parte “que nos ligam uns aos outros”, pois falar de afectos é falar de relação. Os afectos que se constroem são a matriz da nossa vida pessoal e exprimem-se pelo amor, nas suas variadas expressões.
Tenho encontrado pessoas que nunca receberam afecto dos seus pais. Estou a lembrar-me de uma rapariga que conheci há alguns anos. Cada vez que me aproximava dela e tentava dar-lhe um abraço ou expressar carinho e amizade, ela retraía-se fisicamente e afastava-se quanto podia. Fazia lembrar um gatinho pequeno, amedrontado, com o pelo eriçado, as garras saídas, procurando defender-se. Um dia fui directa e perguntei-lhe porque reagia assim. Ela com os olhos baixos respondeu: “Não estou habituada...” Fiquei surpreendida com a resposta e tornei a perguntar: “E a tua mãe, o teu pai, não te davam afecto?” Olhou para mim com os olhos brilhantes e disse: “A minha mãe nunca me deu um beijo!”
De repente vi o vazio da sua vida, escancarado na minha frente como um grande abismo. A relação mais profunda, mais terna e mais forte, não existiam na vida daquela jovem e, por isso, não sabia como receber o afecto de outros.
Numa outra altura estava em Inglaterra a fazer um seminário sobre relações familiares e falei exactamente do afecto físico que os pais devem demonstrar na vivência com os filhos. Mencionei como na nossa casa sempre tinha havido beijos, abraços, festa e ternura. No final da sessão, aproximou-se uma jovem, sentou-se ao meu lado e fez-me a pergunta mais estranha que ouvi: “Sarah, não se importava de dar-me um abraço e de beijar-me como faz à sua filha? É que eu nunca tive isso da minha mãe!”. Olhei para o rosto daquela moça tão linda e não consegui evitar as lágrimas. Abracei-a e beijei-a como se estivesse a fazê-lo à minha filha. Foi um momento único para ela... e para mim também.
Infelizmente, por causa do abuso, dos pedófilos e dos predadores da sociedade, os governos estão a fazer leis para proteger as crianças e nessas leis, se incluem proibições aos educadores, monitores e até aos pais, de tocarem e mostrarem carinho às crianças. Vivemos num mundo muito feio, onde o homem cada vez vai ficar mais isolado, sem abraço e sem ternura.
Há muita gente que pode incluir-se numa das estórias que contei. Isto é, tem um deficit de afecto e de carinho. Podia acrescentar aqui outras, de gente que viveu sem nunca ter conhecido o verdadeiro afecto de família. Mas o mais importante será declarar em alto e bom som, que uma mãe pode esquecer o filho, mas Deus nunca se esquece de nós. O Seu amor pode preencher recônditos do nosso ser que nem mesmo nós saberíamos encontrar. A Sua presença enche qualquer abismo, preenche qualquer falta, consola qualquer dor! Ele tem mãos neste mundo que podem abraçar, bocas que podem beijar e falar as palavras certas para um coração vazio de afecto. Ele tem-nos a nós...

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