sábado, 19 de maio de 2012

LIGAÇÕES - 2


Ainda em hospital mode... No quarto ao lado da minha sogra, está uma jovem mulher. Reconheci a mãe, nesse encontro de corredores desinfectados e rostos cabisbaixos. São pessoas com quem tenho uma relação de fé, mas onde faltam outros laços, esses construidos por partilha, tempo juntos,sonhos, família... Aproximo-me da cama onde sofre uma mulher na juventude da vida, 40 anos, alguns dos quais lutando contra uma doença implacável, com leves intervalos de uma esperança que aparece como um raio de sol em dia chuvoso, para logo a seguir desaparecer numa borrasca sem sentido. Desta vez, o tal raio de luz está mesmo a esconder-se, para dar lugar a uma noite onde a intermitência entre a consciência e a inconsciência da medicação forte, parece uma dança sem sentido. Reconhece-me. Pede-me que ore por ela, baixinho...pede. Seguro-lhe na mão. A pele está da cor da veneno que lhe injectaram, numa tentativa de salvá-la. Nestes momentos, faltam-me as palavras para a oração. Só peço o que o meu coração dita, sem saber se é o correcto: que o Senhor não permita mais sofrimento, que o seu corpo sinta tranquilidade, que a sua mente descanse no colo de Jesus. Visito-a mais alguns dias. Poucos. Jesus veio buscá-la. O que é mortal, um dia será revestido de imortalidade. Esperança única, esta que não perde o brilho. A família agradece-me mais do que uma vez, um gesto que para mim foi tão natural e normal, mas que me leva a descubrir que agora, a minha ligação com eles é outra. Sem ter buscado, fiquei mais perto de pessoas que não "conhecia" antes. E se no nosso cruzar com as pessoas, procurássemos a cada passo tocar nelas? E se saíssemos do nosso caminho para gastar apenas cinco escassos minutos do nosso tempo dando um abraço de conforto? E se gastássemos alguns cêntimos para enviar uma mensagem de carinho a alguém que não vemos há muito tempo? Estas ligações ficariam mais fortes, o mundo ficaria mais doce e a vida menos escura...acho eu...

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