segunda-feira, 4 de junho de 2012

OBSERVANDO...


Todo o mundo sabe como gosto de observar as pessoas à minha volta. Delicio-me a imaginar as suas vidas e os seus dramas, de onde vêm e para onde vão...
Pois estava eu sentada no aeroporto à espera de uma ligação que tardava em concretizar-se e farta da espera, resolvi vestir o meu uniforme de observação:
  • Um homem idoso, enorme, para cima e para os lados, vestido com uma T-shirt e calções. Uma perna com uma tatuagem indefinida e massiva. O cabelo completamente branco, penteado para trás, e apanhado com uma fita escura, para prolongar-se mais um pouco e ser apanhado por outra fita, mais um pouco e outra fita...uma rabicha a bater-lhe na cintura! Até aqui, tudo bem...cada um é como cada qual. Enquanto o homem lê uma revista bem na minha frente, reparo que sangra de um tornozelo. Com alguma indecisão, aviso-o. Ele agradece e limpa o sangue com uma das mãos. Esfrega o restante na outra mão e por fim nos dois braços e na cara. Ritual?
  • Junto da porta de embarque, ocupando dois bancos completos, está uma mulher negra, deitada sobre uma almofada, confortável e tapada com um cobertor até aos olhos. Nada a perturba. Fico preocupada. E se a mulher perde o avião porque adormeceu? Já estou a fazer filmes, mas de repente ela levanta-se, olha à volta e torna a deitar-se, tapa-se e adormece de novo... Inconsciência?
  • Um barulho certo e constante sobre o mármore do chão...será o que estou a pensar? É mesmo. Uma mulher elegantemente vestida, com uns sapatos com enormes saltos, no chão escorragadio de mármore liso, avança sem medo e sem cansaço...já deve estar a caminhar há bastante tempo, pois as distâncias entre os terminais são cada vez maiores. Mas caminha imperturbável...sem se preocupar com os olhares que seguem os enormes saltos, finos e elegantes, que conseguem marchar tão certinhos, sobre um chão tão difícil...Beleza a quanto obrigas.
  • Um homem passa esbaforido. Dirige-se à porta de embarque à procura de informação. Do meu posto de observação vejo-o, vestido com umas calças pretas, estranhas...são presas por suspensórios que as arrepanham completamente atrás e à frente, deixando as partes laterais totalmente caídas,  como umas bolsas....possivelmente o indivíduo emagreceu. O pior é que a camisa de riscas largas e cores berrantes está completamente saída das calças e quando caminha, dá a sensação de um saco, atado pelas pontas. Possivelmente viaja há muitas horas, porque a roupa está em estado lastimável de higiene...e ele também.
Dirão vocês que eu deveria passar o tempo a ler um bom livro, etc e tal. Mas depois de muitas horas, temos que mudar as lentes. E aprende-se tanto... 
Estas observações, por mais cómicas ou estranhas que sejam, levam-me sempre mais longe, mais alto. Como será que Deus nos vê? Quando era criança, a minha mãe cantava um canção de embalar que dizia: "Deus vê o que fazes e ouve o que dizes..." Eu só consegui ver o exterior destas pessoas. Fiz conjecturas e pensei, baseada no que vi. E Ele? Como me vê? O que pensa sobre mim?

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