domingo, 27 de maio de 2012

MINORIAS



Quem disse que a maioria é que tem razão? De onde vem a ideia que o que todos dizem é que é o correcto? Às vezes parece-me que sou de outro mundo ou que estou fora do tempo, porque a minha opinião não coincide mesmo com a dos que me rodeiam.

Quer seja na política ou na religião, o partido ou a crença deseja muito ser “ o maior”…As tendências e modas são sempre aceites por grandes números e os que não gostam, não concordam ou aceitam, são olhados de lado… É uma posição desconfortável, convenhamos.

Hoje acordei a pensar nisto. E não é que ao fazer a minha leitura bíblica me deparo com uma história incrivelmente bem encaixada no meu pensamento? Remonta ao tempo dos reis de Judá e Israel, mais propriamente ao tempo de Jeosafate e Acabe. Este último era um fulano execrável, manipulador e profano. Recebeu a visita do rei de Judá e enquanto conversavam, levou Jeosafate a comprometer-se a ir à guerra com ele. O rei de Judá, numa de boa política anuiu, na condição que o Senhor Deus fosse consultado para tal empreendimento. Acabe não teve outro remédio senão concordar e chamou os “seus”profetas. Uma multidão deles, 400 ao todo! Todos profetizaram que sim senhor, o rei poderia ir para a batalha porque Deus iria com ele. Um deles até fez um “acto profético”, confirmando esta declaração. Mas o rei de Judá não ficou muito convencido. Era muita gente a dizer a mesma coisa. Eu, no lugar dele, teria sentido o mesmo. Já estive em ambientes onde todo o mundo fala, grita e proclama algo que não faz sentido no meu espírito. Como não sou rei, fico caladinha. Mas não sou obrigada a concordar!

Acabe chamou então um outro profeta que disse algo completamente diferente. Um único homem atreveu-se a contrariar a maioria, sob uma autoridade que não era dele, mas do Deus Todo-poderoso. O rei ficou furioso. Atitude igual à de todos os que dançam ao som das maiorias. Por causa desta postura, o profeta foi para a prisão, em regime racionado – pão e água.

Desobedecendo à direcção de Deus os reis foram para a batalha. O inimigo queria apanhar Acabe, por isso os comandantes da cavalaria tinham ordem de não matar ninguém a não ser o rei de Israel. Só que, Jeosafate vestiu-se com seu traje real de guerreiro e Acabe como se fosse um soldado vulgar. Os comandantes dos carros cercaram Jeosafate para matá-lo, convencidos que ele era o rei que procuravam. Jeosafate, sentindo-se cercado gritou e pelo seu grito, o inimigo viu que aquele não era o homem. Jeosafate safou-se à justa.

No meio do frenesim da batalha, UM HOMEM, desconhecido, um soldado de infantaria, esticou o seu arco e disparou uma seta. O zumbido do metal da flecha a bater na couraça do homem que corria no seu carro, foi seguido por um grito abafado. Acabe fora atingido. Uma seta disparada por acaso, tinha entrado nas junturas da couraça. Ainda se manteve de pé, por algumas horas, esvaindo-se em sangue, até que à tarde acabou por sucumbir.

Deus pode usar UM profeta e UM archeiro. Ele não precisa de maiorias para cumprir os Seus desígnios e de pessoas que façam número! Como eu entendo Deus!

sábado, 19 de maio de 2012

LIGAÇÕES - 2


Ainda em hospital mode... No quarto ao lado da minha sogra, está uma jovem mulher. Reconheci a mãe, nesse encontro de corredores desinfectados e rostos cabisbaixos. São pessoas com quem tenho uma relação de fé, mas onde faltam outros laços, esses construidos por partilha, tempo juntos,sonhos, família... Aproximo-me da cama onde sofre uma mulher na juventude da vida, 40 anos, alguns dos quais lutando contra uma doença implacável, com leves intervalos de uma esperança que aparece como um raio de sol em dia chuvoso, para logo a seguir desaparecer numa borrasca sem sentido. Desta vez, o tal raio de luz está mesmo a esconder-se, para dar lugar a uma noite onde a intermitência entre a consciência e a inconsciência da medicação forte, parece uma dança sem sentido. Reconhece-me. Pede-me que ore por ela, baixinho...pede. Seguro-lhe na mão. A pele está da cor da veneno que lhe injectaram, numa tentativa de salvá-la. Nestes momentos, faltam-me as palavras para a oração. Só peço o que o meu coração dita, sem saber se é o correcto: que o Senhor não permita mais sofrimento, que o seu corpo sinta tranquilidade, que a sua mente descanse no colo de Jesus. Visito-a mais alguns dias. Poucos. Jesus veio buscá-la. O que é mortal, um dia será revestido de imortalidade. Esperança única, esta que não perde o brilho. A família agradece-me mais do que uma vez, um gesto que para mim foi tão natural e normal, mas que me leva a descubrir que agora, a minha ligação com eles é outra. Sem ter buscado, fiquei mais perto de pessoas que não "conhecia" antes. E se no nosso cruzar com as pessoas, procurássemos a cada passo tocar nelas? E se saíssemos do nosso caminho para gastar apenas cinco escassos minutos do nosso tempo dando um abraço de conforto? E se gastássemos alguns cêntimos para enviar uma mensagem de carinho a alguém que não vemos há muito tempo? Estas ligações ficariam mais fortes, o mundo ficaria mais doce e a vida menos escura...acho eu...

quarta-feira, 9 de maio de 2012

LIGAÇÕES


Têm sido umas semanas difíceis. A caminhar todos os dias para o hospital, para visitar a minha sogra, internada por causa de uma fractura no fémur. Um hospital lindo. Tudo cheira a novo, moderno, funcional,como deveriam ser todos os hospitais deste país. Este foi muito desejado, muito chorado e cada presidente de câmara, prometeu e lutou para que ele fosse uma realidade. Lá está: Hospital Beatriz Ângelo! Enquanto esperamos que nos chamem para receber os cartões de acesso às visitas, distraio-me a olhar as pessoas que enchem o enorme átrio. Vêm todas ao mesmo. Visitar alguém.Entram sérias, com olhares nervosos, fixos num monitor que vai fornecendo os números da chamada. Comecei a imaginar as ligações destas pessoas com aqueles que estão deitados nas camas limpas, de lençóis verdes. Uns são filhos, outros maridos, outros esposas, cunhados, irmãos, primos, amigos, comadres, conhecidos dos primos, amigos dos pais,colegas da esposa do primo...Mais, porque somos da mesma área, há caras conhecidas, pessoas que se encontram sem estar à espera...Ligações. Parece que não temos nada a ver com o indivíduo que vemos na fila para o autocarro e, de repente,no átrio de um hospital, somos todos família. As ligações são interminaveis, dá a impressão que fazemos parte de um todo. Imagino que a humanidade é isto mesmo, afinal. Gente só, mas com tantas ligações que nos prendem uns aos outros, ao mesmo - a vida, o desejo de ter saúde, de ser feliz e a alegria de receber uma visita num dia de dor e sofrimento!