quarta-feira, 27 de junho de 2012

VELHOS A SONHAR



Um dia destes, numa conversa, alguém lembrou o texto bíblico "os velhos sonharão sonhos". Acho que  a pessoa nem estava a pensar na minha idade, porque de repente, olhou para mim e ficou meio atrapalhado!
É uma frase que conheço muito bem. Mas naquele dia fiquei a pensar. Porque é contra tudo o que sabemos da fase-velhice. Os velhos lembram o passado, contam e recontam histórias já ouvidas dezenas de vezes, alimentam a alma  do que foi, abrem os albuns onde repousam sem voz pessoas que teimam em envelhecer... Os velhos sabem que o futuro é curto, doloroso, solitário e na  maior parte das vezes vazio.

O que encheria a mente do profeta quando pronunciou as palavras mais tarde repetidas por Pedro, no momento glorioso do maior fenómeno do Pentecostes?
Parece que sei... penso que sei. Pelo menos sinto-o. É que embora a capacidade de fazer comece a diminuir, a força de sonhar pode estender-se a um horizonte ilimitado. Sei perfeitamente que a partir destes anos, muito me será vedado, porque não terei o mesmo vigor e a mesma rapidez de acção e de pensamento. Mas  ninguém pode impedir que o Espírito Santo que habita em mim, sonhe aquilo que Deus sonha! Eu sei que o segredo está na minha sintonia com Ele, na capacidade de sentir para onde o vento está a soprar, no desejar profundamente, acima de qualquer outro desejo, que venha o Seu Reino! Se todos os velhos sonhassem esses sonhos! 

Que todos os idosos cada vez que fecham os olhos para dormir, sonhem com um Reino onde não há fronteiras, onde os homens de todas as raças, tribos, linguas e nações cantam a mesma canção e onde crianças, jovens, pais e avós caminham para um mundo onde Cristo será Rei para sempre...

quinta-feira, 14 de junho de 2012

IDENTIDADE



Estou fascinada pela Raabe. Segundo o relato bíblico, era uma prostituta, conhecida em Jericó pela sua casa construída em cima da muralha. Lá, entravam os viajantes, estrangeiros e quem precisasse de comida ou prazer. A sua identidade era essa, Raabe, a prostituta.

Pode alguém ver-se livre de uma identidade tão marginal? Os dias desta mulher eram aquilo; não pedia mais, estava habituada a ser assim, até ao momento em que sentiu a sua vida em perigo. Por isso fez um "negócio" com os dois homens que entraram na sua casa e que ela reconheceu serem israelitas e espiões: a sua vida e da sua família, em troca da fuga segura deles.

Quando Jericó foi destruída completamente, restou uma casa em cima do muro. De uma das janelas meio partida, um cordão vermelho pendurado - o sinal combinado entre Raabe e os homens de Israel.

Integrada na nova comunidade, a sua identidade foi mudada também. Casou, teve filhos, descendência, que seria única e de "mulher perdida", passou a fazer parte de uma galeria de heróis da fé.

Odeio rótulos. Abomino palavras que marginalizam os seres humanos criados por Deus e que os colocam em prateleiras e guetos discriminatórios. O mundo ainda pasma, muito, quando um deles sai dessa prateleira e se transforma num presidente, num inventor, num jogador de futebol e mais algumas coisas...

A Bíblia fala apenas de duas espécies de pessoas: justos e injustos e sobre estes dois grupos, Deus continua a levantar o sol brilhante do dia e a enviar chuva que lava e faz produzir. Se Ele é assim, que nos impede de ser como Ele?



sexta-feira, 8 de junho de 2012

NETAS

Tenho quatro. Lindas, preciosas, inteligentes, divertidas, dotadas, sei lá...Só têm um defeito: cresceram!
Viajam sozinhas, vão ao estrangeiro estudar, têm uma conta bancária (com pouco dinheiro, mas têm), namorados, opiniões, cor política, amigos, actividades imensas e... já não precisam da avó!
Não é uma queixa, é uma constatação. Por que haviam de precisar se já se levantam sozinhas (choravam para eu as levantar), sabem cozinhar (de vez em quando ainda se lembram da comidinha da avó...), têm opiniões “formadas” sobre a vida (quando as aconselho, ouvem em silêncio, não sei se escutam se devaneiam, para não me ouvir...)?  
Cresceram, as minhas lindas. Como me orgulho delas, exactamente por isso! A “bebé” mais nova fez 18 anos a semana passada e agora é só vê-las voar, de um lado para o outro (às vezes até fico tonta de tanto voo!).
Mas sei, que lá no fundo, terei sempre um lugar especial na sua vida e no seu coração, diferente das amigas, dos namorados, dos conhecidos, um lugar quentinho, aconchegado e doce e que, andem por onde andarem, podem sempre correr para o colo da avó que nunca deixará de amá-las!



quinta-feira, 7 de junho de 2012

CORVOS



À partida não são assim muito bonitos... mas os cientistas concluem que são umas aves muito ineligentes. Reconhecem rostos, têm maneiras únicas de arranjar alimentos e até fazem "instrumentos de trabalho" para apanhar a comida que precisam!
Antes que a ciência chegasse a esta conclusão, já Jeová  Provisão sabia disto. Elias está sentado junto de um ribeiro, com água corrente para beber, quando a seca avassala a nação. Mas um profeta não se alimenta só de água. Mas os corvos negros já receberam a ordem divina de deixar a comida junto de um homem junto ao ribeiro. E aí veem as aves negras, trazendo no bico pão e carne. E fazem-no diariamente, já que no seu cérebro pequeno mas único, algo lhes diz que aquele homem é  de confiança.
Como o meu Deus é grande! Como pode utilizar seja o que for para o nosso bem! Às vezes esquecemos como Ele conhece os pássaros...quando foi Ele que os criou.
No grito de um corvo, Ele pode trazer-nos uma mensagem de esperança e de fartura! 

segunda-feira, 4 de junho de 2012

OBSERVANDO...


Todo o mundo sabe como gosto de observar as pessoas à minha volta. Delicio-me a imaginar as suas vidas e os seus dramas, de onde vêm e para onde vão...
Pois estava eu sentada no aeroporto à espera de uma ligação que tardava em concretizar-se e farta da espera, resolvi vestir o meu uniforme de observação:
  • Um homem idoso, enorme, para cima e para os lados, vestido com uma T-shirt e calções. Uma perna com uma tatuagem indefinida e massiva. O cabelo completamente branco, penteado para trás, e apanhado com uma fita escura, para prolongar-se mais um pouco e ser apanhado por outra fita, mais um pouco e outra fita...uma rabicha a bater-lhe na cintura! Até aqui, tudo bem...cada um é como cada qual. Enquanto o homem lê uma revista bem na minha frente, reparo que sangra de um tornozelo. Com alguma indecisão, aviso-o. Ele agradece e limpa o sangue com uma das mãos. Esfrega o restante na outra mão e por fim nos dois braços e na cara. Ritual?
  • Junto da porta de embarque, ocupando dois bancos completos, está uma mulher negra, deitada sobre uma almofada, confortável e tapada com um cobertor até aos olhos. Nada a perturba. Fico preocupada. E se a mulher perde o avião porque adormeceu? Já estou a fazer filmes, mas de repente ela levanta-se, olha à volta e torna a deitar-se, tapa-se e adormece de novo... Inconsciência?
  • Um barulho certo e constante sobre o mármore do chão...será o que estou a pensar? É mesmo. Uma mulher elegantemente vestida, com uns sapatos com enormes saltos, no chão escorragadio de mármore liso, avança sem medo e sem cansaço...já deve estar a caminhar há bastante tempo, pois as distâncias entre os terminais são cada vez maiores. Mas caminha imperturbável...sem se preocupar com os olhares que seguem os enormes saltos, finos e elegantes, que conseguem marchar tão certinhos, sobre um chão tão difícil...Beleza a quanto obrigas.
  • Um homem passa esbaforido. Dirige-se à porta de embarque à procura de informação. Do meu posto de observação vejo-o, vestido com umas calças pretas, estranhas...são presas por suspensórios que as arrepanham completamente atrás e à frente, deixando as partes laterais totalmente caídas,  como umas bolsas....possivelmente o indivíduo emagreceu. O pior é que a camisa de riscas largas e cores berrantes está completamente saída das calças e quando caminha, dá a sensação de um saco, atado pelas pontas. Possivelmente viaja há muitas horas, porque a roupa está em estado lastimável de higiene...e ele também.
Dirão vocês que eu deveria passar o tempo a ler um bom livro, etc e tal. Mas depois de muitas horas, temos que mudar as lentes. E aprende-se tanto... 
Estas observações, por mais cómicas ou estranhas que sejam, levam-me sempre mais longe, mais alto. Como será que Deus nos vê? Quando era criança, a minha mãe cantava um canção de embalar que dizia: "Deus vê o que fazes e ouve o que dizes..." Eu só consegui ver o exterior destas pessoas. Fiz conjecturas e pensei, baseada no que vi. E Ele? Como me vê? O que pensa sobre mim?

sexta-feira, 1 de junho de 2012

CICLOS


Há momentos na nossa vida que parecem repetir-se: dor, alegria; expectativa, surpresa; nascimento, morte; partida, chegada; frustração, recompensa...
O Inverno termina para dar lugar à glória da Primavera. Esta provoca o Verão, que de tanto brilhar, decansa por fim nos braços do Outono e o ciclo recomeça...

Jesus Cristo falou com os Seus seguidores algo bem parecido: "Mais um pouco e não me verão, um pouco mais e me verão de novo..."  Os homens não entenderam o que  o Mestre lhes dizia, mas Ele ainda não tinha terminado: "agora é hora de tristeza, mas depois vou ver-vos outra vez e se alegrarão..."

Já vivi muitas Primaveras, enchi os olhos do verde e das cores; já me banhei em tantos Verões e parei estupefacta diante dos tons gloriosos de tantos Outonos. Já tiritei de frio em muitos Invernos. Nesta altura da minha vida anseio pelo ciclo completo.Um ciclo, que terá um final glorioso. Depois desse final não haverá mais repetição. Será perfeito.