sexta-feira, 5 de abril de 2013

NÃO HÁ RISO


A nossa vida é feita de muitas cores. Umas berrantes, outras esbatidas, umas sombrias e outras doces. É feita de sons. De cheiros. Alguns destes estão impressos na nossa memória, ligados a dias, acontecimentos e épocas. Ainda sou capaz de lembrar o cheiro das filhoses dos natais da minha infância. Tenho guardado na memória, o toque das mãos da minha mãe. Eram umas mãos com dedos rugosos, levemente ásperas, mas que sabiam tocar na hora certa...
Pensei em tudo isto, esta semana, quando visitei o meu pai na casa de repouso onde se encontra. Porque lá, embora o conforto, o carinho e o desvelo com que é tratado, descobri que faltava uma coisa: a casa é silenciosa. Não há gargalhadas, as vozes são baixas, quase em surdina...
Esse silêncio de risos doeu-me na alma. Quando perdemos essa faculdade de rir em voz alta, de atirar ao ar uma piada que estala num riso de alguém, é porque já perdemos quase tudo.
Dei-me conta que o silêncio a que as pessoas idosas se remetem, não tem apenas a ver com cansaço, mas com uma recordação que tem que ser vista em sossego. E lembrei as palavras do poeta:

"Recordar, é viver,
transformar num sorriso o que nos fez sofrer,
relembrar dentro da alma uma idade passada,
como uma capela de ouro, há cem anos fechada,
onde não vai ninguém,
mas onde há festa ainda..."

Desejo muito que o meu pai e as outras pessoas, entrem na capela de ouro, de vez em quando e sorriam, pelo menos.

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