domingo, 30 de junho de 2013

EM MEMÓRIA DO MEU ANTIGO PASTOR, ALFREDO MACHADO




Voz forte na proclamação da fé

gerada por convicções quentes

brota das profundezas da alma

ressoa na eternidade

plantado nos campos da Palavra

o pregador ajuda tantos a erguer

a sua casa na Rocha

assim é o homem de Deus. 


Agora descansa

do esforçado labor e aguarda

em lugar sem tempo

nem espaço na saturação do Amado.





Brissos Lino
26/06/2013

QUANDO EU MORRER



  A Alfredo Rosendo Machado

"preciosa é aos olhos do Senhor
a morte dos seus santos"

(Salmo 116:15)

Quando eu morrer
não procurem por mim nos livros de teologia

Não me procurem nos púlpitos por onde andei
nem nas recomendações
que vos plantei no coração para engordar as vossas almas

Procurem apenas saber se na minha boca
ainda há o riso universal
de alguma ideia feliz sobre a explicação da vida com significado
 
E anunciem aos vindouros destas paragens
tudo o que vos disse e que vos foi por beijo

Manuel Adriano Rodrigues
18/06/13

sexta-feira, 28 de junho de 2013

O QUE FAÇO?


Onde vou arrumar tudo o que me deixou? Não há lugar que chegue para tantos livros, cadernos, folhas soltas e preciosas, pequenas notas escritas em guardanapos de papel, enquanto tomava o café na pastelaria.
Possivelmente vão ser distribuídos por aqueles que tiverem algum interesse, talvez doados a uma biblioteca qualquer... impossível deitá-los no lixo...
Onde vou arrumar todas  as recordações, partilha, discussões sobre assuntos sérios, opiniões, sabedoria, experiência, espiritualidade?
Onde vou colocar todas as lembranças da infância, da juventude, da idade adulta e madura, onde as suas palavras ficavam sempre a pairar, como se não houvesse mais nenhum argumento depois do que falava?
O que faço com o vazio imenso que sinto dentro de mim, como se uma torre que sustentava a minha existência tivesse ruído e agora estou ali, parada, no ground zero?
Tenho que passar este momento único, sozinha. É só meu.
Mas sei, que a fortaleza da morte já foi vencida e que um destes dias, tudo será colocado dentro de um lugar dourado, de relíquia, onde posso ver, sentir, sem doer...tenho só que esperar. Esse dia vai chegar.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

PARA SEMPRE

Conhecia o som dos seus passos, o bater dos seus dedos no tampo da mesa, o riso meio em surdina mas que lhe rasgava a boca, a letra miudinha e perfeita da escrita, o som da sua voz no meio de uma multidão a cantar...
Tenho ainda o calor do seu último aperto de mão e das derradeiras palavras, ditas quase num murmúrio. Sinto ainda nos lábios o gelo da sua testa, antes do seu corpo ser entregue à terra.Agarro-me com saudade às lembranças de uma vida tão perto dele...sinto o vazio da hora da visita diária junto da sua cama, parece que estou num labirinto onde não encontro a saída.
E no entanto, nunca a vida depois da morte fez tanto sentido, jamais tinha experimentado um sentido de paz tão profundo, mesmo quando as lágrimas teimam em cair.
Ele esteve cá muito tempo, tanto que pensávamos que era para sempre. Mas que digo eu, claro que ele é para sempre! Numa dimensão onde o mortal se reveste de imortalidade e o corruptível do seu corpo de incorruptibilidade, onde ainda não consigo chegar, imaginar ou sentir, ele vive.
E se eu olhar bem, vejo-o no olhar, nos sorriso e nos trejeitos dos meus irmãos, dos meus filhos, netas e sobrinhos. Ele ficou connosco, para sempre.

terça-feira, 18 de junho de 2013

JUNHO


Junho, vai triste. O sol que quer aquecer as praias e dourar os corpos sedentos de calor, esconde-se, entre nuvens escuras, húmidas, alteradas.
Só o amarelo das giestas e o verde intenso dos vinhedos para marcar este estranho calendário.
Dentro de mim também não há calor. Tudo fica morno, como cinzas que se vão apagando. As cores nubladas do céu condizem com um turbilhão de sentimentos e pensamentos, dores e recordações. 
De vez em quando Junho brilha e é aí que eu me apercebo que para lá da dor há esperança, que as cinzas ainda são úteis para fertilizar a terra, que as lágrimas podem servir apenas como cortina, para sorrisos de lembrança...
Os dias sucedem-se na sua rotina, como se o inevitável não estivesse lá. O coração dispara cada vez que o telefone toca. As orações passam a ser em silêncio, porque as palavras foram gastas. Seria tão melhor que a espera fosse mudada em certeza, que o que já não é, começasse a ser para sempre...

sexta-feira, 7 de junho de 2013

AS SUAS MÃOS

Hoje lembrei-me da canção "Coimbra tem mais encanto,na hora da despedida..." porque neste momento estou a dizer adeus a uma das pessoas mais importantes da minha vida e, nesta hora, tudo nele tem mais encanto, tudo quanto fez e disse é aumentado em beleza e valor.

Ontem, peguei-lhe nas mãos, frágeis, inertes, sem movimento. Acariciei-as enquanto olhava o seu rosto quase sem expressão. E de repente, lembrei tudo o que aquelas mãos faziam quando eu era criança...
Como elas me corrigiram tantas vezes para que eu fosse uma mulher às direitas e, tarde na noite, quando chegava a casa, mesmo cansado, me levantavam, para me dar um copo de leite, só para que eu soubesse que se preocupava comigo... Mãos que me seguraram o corpo frágil e me mergulharam nas águas do baptismo; mãos que me levaram ao homem do meu coração, que me esperava vestido de noivo, no altar. Mãos que tocaram nos meus filhos com carinho e os dedicaram a Deus. Mãos que escreveram palavras, artigos e livros que enriqueceram a minha alma...e agora, estão ali, quase sem vida. 



Mas que lindas são as suas mãos! Que importa se nem sempre fizeram tudo perfeito, se em alguns momentos não seguraram a Mão suprema para vencer as suas lutas...o que importa é que hoje, têm um encanto e um valor tão grande, na hora da despedida. As mãos grandes do meu pai...