terça-feira, 30 de julho de 2013

UMA LIÇÃO DE HUMILDADE



(Enviado pela minha amiga Dra. Sandra Tavares)

Um psicólogo fingiu ser varredor durante 1 mês e viveu como um ser invisível.

O psicólogo social FB da Costa vestiu a farda de varredor durante 1 mês e varreu as ruas da Universidade de São Paulo, onde é professor e investigador, para concluir a sua tese de mestrado sobre 'invisibilidade pública'. Ele procurou mostrar com a sua investigação a existência da 'invisibilidade pública', ou seja, uma percepção humana totalmente condicionada pela divisão social do trabalho, onde se valoriza somente a função social e não a pessoa em si. Quem não está bem posicionado sob esse critério, torna-se uma mera sombra social.
Constatou que, aos olhos da sociedade, os trabalhadores braçais são 'seres invisíveis, sem nome'.
...
Ele trabalhava apenas meio dia como varredor, não recebia o salário de R$ 400 como os colegas, mas garante que teve a maior lição de sua vida: “Descobri que um simples BOM DIA, que nunca recebi como varredor, pode significar um sopro de vida, um sinal da própria existência”, explica o investigador. Diz que sentiu na pele o que é ser tratado como um objeto e não como um ser humano. “Os meus colegas professores que me abraçavam diariamente nos corredores da Universidade passavam por mim e não me reconheciam por causa da farda que eu usava.”

- O que sentiu, trabalhando como varredor?
Uma profunda angústia.
Uma vez, um dos varredores convidou-me para almoçar no refeitório central. Entrei no Instituto de Psicologia para levantar dinheiro, passei pelo piso térreo, subi as escadas, percorri todo o segundo andar, passei pela biblioteca e pelo centro académico, onde estava muita gente conhecida. Fiz todo esse percurso e ninguém EM ABSOLUTO ME RECONHECEU. Fui inundado de uma indescritível tristeza.

- E depois de um mês a trabalhar como varredor? Isso mudou?
Fui-me habituando a ser ignorado. Quando via um colega professor a aproximar-se de mim, eu até parava de varrer, na esperança de ser reconhecido, mas nem um sequer olhou para mim.

- E quando voltou para casa, para o seu mundo real, o que mudou?
Mudei substancialmente a minha forma de pensar. A partir do momento em que se experiência essa condição social, não se esquece nunca mais. Esta experiência mudou a minha vida, curou a minha doença burguesa, transformou a minha mente. A partir desse dia, nunca mais deixei de cumprimentar um trabalhador. Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe, que é importante, que tem valor.

Aprendi verdadeiramente, com esta experiência, o valor da dignidade.

terça-feira, 23 de julho de 2013

PORQUÊ?

E a vida não parou. Nos dias seguintes à sua morte, o sol continuou  brilhar, o trânsito ficou caótico como de costume, mesmo sem apetite fizemos as  refeições normais, dormimos, falámos ao telefone...
Mas cá  dentro, as palavras mais importantes ficaram sem som e o sorriso escondeu-se num véu de lágrimas. Há notas na música que despertam uma recordação mais forte; há conversas simples que tivemos noutros dias e noutros lugares onde o encontrávamos e que agora lembramos, mas com cores esbatidas, desmaiadas, como se de um vestido usado se tratasse. É como se de repente, uma neblina espessa tivesse baixado e o verde dos campos desaparecesse envergonhado.
Ficará assim por muito tempo, esta dor, este soluço que teima em subir para logo se esconder à espera de uma nova oportunidade?
A certeza, toda a certeza da eternidade feliz, não chega para acalmar este pranto?
Será apenas saudade ou  receio de outros fins?


sexta-feira, 5 de julho de 2013

IN MEMORIAM ALFREDO MACHADO



Pela voz da minha amiga Sara Catarino foi-me pedido que proferisse algumas palavras em memória de seu pai de quem hoje nos despedimos.

Esta é para mim uma grande honra que nem nos meus sonhos mais ousados jamais pensaria possível, tanto mais que reconheço não ser a pessoa mais indicada para levar a cabo tal tarefa. Não passo de uma entre as muitas ovelhas que, como elas, se orgulha de poder dizer ter tido como pastor este grande homem de Deus.

Falar de Alfredo Rosendo Machado não é tarefa fácil, pela tentação de repetir lugares comuns, de cair no panegírico de palavras de circunstância. Ele foi um homem que encheu a nossa vida com a riqueza do seu conhecimento profundo das Escrituras e um entranhado amor pela obra de Deus e pelo Salvador Jesus a quem tanto honrou e cuja parousia esperava ver realizada durante o tempo da sua peregrinação. Ele foi um homem que encheu o nosso imaginário com a sua figura austera e sempre com uma citação bíblica como suporte de um pleno viver cristão. Ele foi o homem que estabeleceu o modelo do que deve ser o estudioso da revelação divina.

Tive o grato prazer de, como já afirmei, o ter tido como pastor durante a minha juventude e de ter privado com ele nas lides docentes neste Instituto do Monte Esperança e sou testemunha da influência marcante que constituiu na vida de incontáveis homens e mulheres cujos caminhos se cruzaram com o seu saber e de quem aprenderam qual outro Gamaliel.

Em todos os nossos epitáfios estarão duas datas: a da nossa entrada e a da nossa saída deste mundo, ambas separadas por um traço. Toda a nossa vida está condensada nesse pequeno traço. Mas por breve que tenha sido a sua vida comparada com a extensão da eternidade, podemos dizer que este traço no epitáfio de Alfredo Rosendo Machado é do tamanho do mundo, tantas as vidas que influenciou.

Com Alfredo Rosendo Machado, podemos dizer que se encerra um ciclo e outro se inicia. Que aqueles que seguram agora o testemunho nesta grande estafeta que é a vida cristã possam ser dignos do legado que nos é deixado e a cada momento tenham presente que entre a vasta lista de heróis da fé se encontra agora gravado de forma perene o nome de Alfredo Rosendo Machado.

Dele poderíamos dizer como o poeta:



Na mão de Deus, na Sua mão direita

Descansou afinal o meu coração”



Mas como amante e cultor das Sagradas Escrituras e sem menosprezo pela beleza destas palavras, Alfredo Rosendo Machado estará certamente a cantar um dos versículos salmódicos que ele muito apreciava e bastas vezes citava: “À Tua mão direita há delícias perpetuamente”.

A sua corrida terminou. O seu labor não foi em vão. Guardou a fé, honrou o Salvador que tanto amou e hoje está a depositar aos pés do Cordeiro a coroa que lhe estava reservada.
Jorge Pinheiro (25/06/013)