quarta-feira, 21 de agosto de 2013

INFIÉIS DA PRÓPRIA VIDA

(Através de: "Ovelha Perdida")

Nossa vida está perdendo consistência. Espessura. Segurança. Estamos mais sujeitos a mudar do que a insistir.
Estamos mais sujeitos a nos separar do que a permanecer casados.
Estamos mais sujeitos a ir embora do que a voltar para casa.
O mundo está tomado de mutantes, zeligs, camaleões, transformers.
Se algo incomoda, se algo atrapalha, o botão Desapego é rapidamente acionado.
Como não pretendemos sofrer, caminhamos para a total insensibilidade. Deixa-se o começo por outro começo. Não há mais meio ou fim, o que vigora é a desistência.
Substituímos a responsabilidade pela ideia de liberdade.
Experimentar é a lei – fazer patrimônio e futuro não tem sentido.
Anteriormente, nos dedicávamos à família. Agora, nossa obsessão é o prazer pessoal. Danem-se as complicações.
A aparente leveza se assemelha a desenraizamento.
Buscamos chegar logo, não olhar a paisagem. A velocidade é o que nos provoca. Buscamos desembarcar logo num novo destino, não nos vale a estrada. A viagem deve ser curta e indolor, jamais reflexiva e longa.
Não estou sendo dramático. Na infância, tínhamos três canais de tevê. Hoje, são mais de 300. A variedade nos conduz a não nos fixarmos em nada durante grande tempo.
Ter um romance longo é quase uma insanidade, assim como ler um livro de 400 páginas ou assistir a um filme de três horas.
Não oferecemos chance para permanência, para a rotina, para a confirmação das expectativas.
Não toleramos o desgaste, o tentar o possível antes de se despedir. Sacrifício e renúncia são expressões banidas do vocabulário, significam burrice. “Perder tempo com alguém, com tanta gente interessante por aí?” é o que nos dizem.
O oi já é um convite, o tchau já é um adeus, não existe relacionamento seguro e firme que suporte a tempestade de contradições.
São muitos apelos para biografias imaginárias. São muitas opções de ser diferente, que nem descobrimos quem somos.
É sempre alguém nos chamando no Facebook ou nas redes sociais com uma história incrível, extraordinária, afrodisíaca, que é um crime não provar.
É sempre alguém oferecendo conselhos, dicas, sugestões.
Repare. O mundo virou sábio de repente: todos têm soluções, ninguém mais convive com seus problemas.
Não me refiro à infidelidade amorosa, mas ao quanto somos infiéis com o nosso passado.
Não é trocar de parceiro ou parceira, mas trocar de tudo: largar emprego, cidade, amigos, esportes, manias.
Troca-se de mentalidade mais do que de opinião.
E é tão fácil descartar, difícil é refinar a própria vida.
Mas se você concluiu a leitura desta crônica, ainda há esperança.
Esperança de não virar a página por um momento.

Fonte: Texto de Fabrício Carpinejar, Zero Hora.

domingo, 18 de agosto de 2013

IDADE

À medida que os anos avançam, acontecem coisas estranhas. Uma delas é que o nosso circulo de amigos vai ficando mais pequeno, porque aqueles que caminharam connosco, vão partindo, um a um...

Um dia destes explicava a um jovem, que quando somos jovens, pertencemos a uma multidão. Sorvemos a vida e o mundo como se nunca nos sentíssemos saciados. Depois, passamos a pertencer a um grupo. Ainda é bom, há muita festa, partilha de vida, casamentos, nascimento dos filhos, farras e passeios. Mas logo a seguir, descobrimos que o grupo ficou mais pequeno. Interesses variados, distância, ausências, divórcios, separam os grupos e por fim...resta-nos um núcleo muito mais pequeno, a família. Aí há uma certa renovação, porque as crianças vão nascendo, vão crescendo, a vida tem um ciclo definido, na família. Mas até os mais novos, vão deixando de dar-se com os mais velhos, exactamente por causa desse fenómeno... E um dia, vamos achar-nos num lugar onde, quem nos rodeia, já não é família, não são amigos. É um grupo amorfo de gente que fecha os olhos muitas vezes e em silêncio, recorda, recorda muito...E de tanto recordar, a mente vai-se esvaindo, até ao ponto de já nem lembrar a idade que tem, o dia da semana, que horas são...
Este ano já perdi vários amigos. Gente que amei e que caminhou comigo durante décadas. 
Tenho duas hipóteses: passar a vida a olhar para fotos antigas que os lembra, ou colocá-los no sacrário da memória e fazer "novos" amigos, mais jovens, que nem sempre me entendem, que não me convidam para as festas, mas que eu sei, me amam assim mesmo...

terça-feira, 13 de agosto de 2013

AH! VERÃO...

O Verão tem disto. As pessoas esquecem o que ficou lá atrás no Inverno e numa Primavera que não lembra a ninguém e despem-se rapidamente, para ir a banhos e mesmo sem eles, para ficar mais livres, desinibidos e fingindo que estão muito felizes. 
Os mais afortunados viajam para fora do país ( é incrível ver as enormes filas diante dos guichets do aeroporto com destinos de praias e resorts...), os outros entram nas filas da margem sul, ou onde houver água para amenizar tanto calor.
Depois há os mais "calmos", com bolsos mais vazios, que "preferem" passar as férias em casa, já agora pintar aqui, rebocar acolá  e fazer uma limpeza maior... Há tudo, nas férias do Verão.
Para mim, é um tempo especial para pegar num bom livro e devorá-lo de uma vez, já que normalmente ele é saboreado em fatias pequenas; para reflectir sobre as coisas importantes da vida, da relação com a família, dos projectos que se avizinham, já, daqui a pouco. O tempo de estar esticada ao  sol, passou. As férias das lancheiras, chapéus de sol e afins, graças a Deus  também! As férias que eu sonhava ter, essas estão MUITO longe da minha carteira e por isso, por aqui me fico, quietinha, na frescura da minha casa. De vez em quando faço umas digressões ao povoado mais próximo (leia-se cidade), só para ver como param as modas. E vou contar-vos, algumas delas bem ridículas. Já reparou nos homens de calções repuxados no traseiro a mostrar metade das pernas bronzeadas e a outra ainda alvas? E nas senhoras que se despem deixando bem à vista uns "pneus" que negaram ter durante todo o Inverno??
Ah, Verão! Que lindo és. Que liberdade, que banhos, que bronzeadores, que férias...

sábado, 3 de agosto de 2013

PORQUE É ACTUAL...PUBLICO DE NOVO

É assim uma espécie de sufoco, que vem do fundo do nosso ser, que sobe pela garganta e de repente explode em lágrimas. Umas mais fartas, outras contidas, mas sempre resultado de um sentir e de uma dor estranha e envergonhada…
Estou a falar de compaixão. Coisa rara neste tempo, por isso mesmo quando sentida, se esconde por detrás de outras fachadas mais espessas, não vá o vizinho do lado olhar-nos como se viéssemos de outro mundo…
Foi essa dor complexa que senti ontem, quando ouvi de um amigo que, por causa de erros e escolhas impróprias, perdeu bens, trabalho, reputação, respeito e, calculo eu, perdeu-se a si mesmo no labirinto do seu sofrimento. É tão fácil apontar o dedo, tão simples fazer uma lista de soluções, tão “santo” mostrar o pecado. Mas no mesmo dia, sem que procurasse, abri o evangelho e vejo o Filho de Deus, sozinho, com uma mulher que foi apanhada no meio do erro. Os acusadores foram embora e deixaram-na a contas com Um que reivindicara nunca ter pecado. Jesus pronuncia as palavras mais correctas e as mais necessárias para alguém que só espera condenação: “...eu não te condeno. Vai e não peques mais”. Absolve-a, mas faz mais: dá-lhe uma oportunidade de recomeçar!
Não tenho o poder do Filho de Deus, mas se encontrasse hoje este homem, o meu amigo, poria os meus braços à sua volta e dir-lhe-ia que ainda há futuro para ele, que é possível recomeçar, que é necessário reconstruir. E fá-lo-ia por causa dessa coisa estranha e dolorida que é a compaixão. Coisa que só sente quem sabe que é falho e que entende o coração de Cristo…