sexta-feira, 22 de novembro de 2013

PESSOAS PERFEITAS





Tenho muita dificuldade em estar com pessoas perfeitas. Sim, falo daquelas que fazem sempre bem, ajudam sempre o próximo, estão lá para a toda a gente nos momentos críticos, são exemplares no trabalho, têm famílias que funcionam como relógios e casas limpas e desinfectadas como a enfermaria de um hospital.
Fico com alergia. Exactamente. Comichão no corpo todo. Porque eu não consigo ser assim, por mais que me esforce. 

Nem sempre sou bondosa, aliás, tem acontecido muitas vezes que penso estar a fazer o bem, mas descubro pela reacção à minha volta que meti os pés pelas mãos. Nem sempre ajudo o próximo, por mais que o coração doa pela infelicidade que me cerca, nem sempre tenho os recursos, às vezes não encontro as palavras...Não sou exemplar no trabalho, embora seja bem esforçada, mas tenho dias que à minha volta o labor  transforma-se em caos. A minha família é linda, mas composta de gente imperfeita. Saem a mim. Ah e a casa. Essa já conheceu melhores dias. Quando a força me atirava para cima do escadote a limpar  e me punha de joelhos a esfregar. Mas esses dias perderam-se na bruma dos tempos...

Gosto mais de estar com pessoas normais. Que se esquecem, que não telefonam sempre, que beijam muito porque gostam de expressar carinho em excesso, cuja casa não está desinfectada, mas cheira a bolo acabado de fazer e a batatas doces assadas...
Gosto de pessoas que ainda têm dúvidas e que vivem cada dia penduradas na graça de Deus. Que sabem que tudo o que são e têm, vem do Alto, descendo do Pai das luzes. Que choram nos momentos errados e soltam uma gargalhada a meio de uma conversa séria. Gosto dos pintores sujos, dos poetas desgrenhados, dos músicos esquecidos e das crianças inocentes...Pessoas perfeitas, por favor, fiquem aí onde estão!

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

ESCREVER




Escrever acalma-me. Mesmo que ninguém leia. Mas prefiro saber que, pelo menos uma pessoa sentiu  o que escrevi. Porque escrever, tem a ver com sentir.
Se pudesse escrevia o tempo todo. Porque sinto muito. Queria colocar tudo em palavras,mas depois acho que as pessoas se fartavam do que sinto...
Escrever é um jeito que me ficou desde criança, quando descobri que as palavras escritas têm umas asas enormes e chegam onde eu não posso chegar. Mas que digo eu? Se as palavras têm asas, também eu tenho!
Escrever é uma necessidade. Parece que fica tudo engasgado cá dentro, quando não coloco em letras e frases o que me vai na alma. 
Escrever é perigoso. Uma vez escrito o pensamento, sentimento ou crença, fico para sempre aprisionada ao que escrevi. 
Escrever é delicioso. Coloco letras e elas dançam em palavras; coloco palavras e elas abraçam-se em  frases;  escrevo frases e tudo fica mais claro e mais transparente dentro de mim.
O que irá acontecer, se um dia não puder mais escrever?
Posso arranjar um escriba. Posso desistir de escrever. Mas nunca vou deixar de sentir.