domingo, 29 de junho de 2014

FORÇA PORTUGAL!



Durante poucas horas, o país ficou em bicos de pés para ver a selecção nacional jogar futebol. Esqueceu a crise interna dos partidos políticos, os cortes salariais, as injustiças, o estado social decadente, o desemprego e as faltas imensas do dia-a-dia. Ficou colado aos ecrãs das televisões, comprou roupa a condizer, pintou a cara das cores nacionais e pendurou bandeiras nas sacadas. Uma frase foi dita milhares de vezes, como se tivesse o poder de mudar o correr da bola, a técnica e perícia dos jogadores, “força, Portugal!”
A reflexão que fiz nestes dias de desilusão futebolística, deve ser a de centenas de outras pessoas (digo eu). É que não me lembro de ouvir este grito por mais nada neste país. Os heróis, são apenas 23 homens a tentar vencer um campeonato de futebol? Nesta nação não há mais ninguém a precisar de ouvir esse grito de força? Haverá por aí meia dúzia que se junte a mim para gritar “força, professores de Portugal”, que trabalham incansavelmente para ajudar a educar miúdos deseducados em casa? Alguém se prontifica a dar “força” aos médicos, enfermeiras e pessoal de saúde que, nos hospitais, trabalham horas sem fim, para que as pessoas consigam viver minimamente saudáveis? Aos bombeiros, que arriscam a vida, porque alguém com resquícios de loucura resolve deitar fogo a uma floresta? Aos operários que mantêm as fábricas a funcionar, para que os bens de consumo não faltem a este povo?
A minha lista é enorme, a lista dos tais que precisavam ouvir o grito de força e que, de vez em quando fazia-lhes bem receber palavras elogiosas e agradecidas.
No fim (a meio), a selecção voltou para casa envergonhada, de madrugada, ainda o dia não rompera. As bandeiras foram tiradas, as camisolas guardadas para outros festivais e os bolsos dos jogadores recheados de qualquer coisa que nunca vai passar pela vida dos simples mortais que se desfiguraram a gritar.
Quando é que vamos orgulhar-nos de algo mais que não seja futebol? Quando é que vamos chamar aos pódios deste país os heróis que fazem desta nação a valente, a imortal? Quando será que levantamos de novo o esplendor deste jardim à beira-mar plantado, com os nossos elogios e orgulho pelo que temos?
Reflexão nocturna de alguém que gosta muito de futebol, mas que não vai em futebóis...

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