terça-feira, 12 de agosto de 2014

SONS DA MINHA ALDEIA

Quando a nossa rotina fica mais lenta e os dias passam mais calmos, damos valor a pequenos pormenores que nos passavam desapercebidos. Hoje acordei com os sons da minha aldeia a entrar-me pelos ouvidos como se nunca os tivesse escutado.
Na rua, mesmo junto à minha janela, duas vizinhas conversam sobre a vida dos outros. Mas o tom de voz é perfeitamente audível. Nem se preocupam se mais alguém vai  ouvir...
Lá mais distante, ouço o som da sirene dos bombeiros, pedindo ajuda aos seus voluntários para uma missão necessária. 
O relógio da igreja toca de meia em meia hora, assinalando o tempo que se escoa sem piedade. Há dias em que o sino no campanário tem um toque que não gostamos: alguém morreu.
De repente o silêncio é quebrado pelo sinal da carrinha do pão. E lá vão os clientes diários buscar o dito, quentinho, estaladiço, feito algures numa padaria de Mafra. 
As pessoas ainda conversam da sacada da casa para quem passa na rua. 
Quando a ambulância para junto a uma casa, os vizinhos correm para prestar o seu auxílio; quando uma mãe traz à rua o seu bebé pela primeira vez, o grupo das amigas e não só, fala alto, descreve o que aconteceu aos filhos e aos netos quando nasceram, mesmo ali, no meio da estrada!
O vizinho que mora no largo da igreja, abre as janelas de par em par e toda a gente terá que ouvir uma sessão de fados e guitarradas. 
Um outro senta-se num banco de pedra e fala ao telefone com quem está do outro lado, mas também com metade da aldeia!
Em dias de festa ( e são muitos) o povo vem às janelas ver a banda passar, enquanto os mais corajosos seguem atrás, porque lá têm  o marido, o filho ou o afilhado...
Como amo esta terra! Não nasci aqui, mas tanto da minha vida está aqui ...
Agradeço a Deus por me ter trazido de longe para um lugar tão desconhecido, mas onde tenho sido tão feliz!


quarta-feira, 6 de agosto de 2014

FARDAS



Sentada no átrio de um grande e moderno hospital, dá para pensar, imaginar, seguir os movimentos das pessoas que entram e saem. Cada um carrega em si uma história, uma tragédia ou um drama. Por que hospital não é lugar para festa nem piquenique...
Mas hoje, na minha observação, detive-me nas outras pessoas, os profissionais do hospital. Uns passam apressados, com passos firmes, sem olhar para ninguém. Têm algo importante em mente e perseguem o seu objectivo. Outros, em pequenos grupos, conversam, riem e dirigem-se para a cafetaria onde poderão comer e beber qualquer coisa que lhes quebre a rotina dura e lhes dê ânimo para continuar. Reparei ainda noutro pormenor: os pequenos grupos são compostos de pessoas com a mesma farda. Nada de misturas. E fiquei ali a adivinhar o que cada uma delas representa: o pessoal da administração, os auxiliares, fisioterapeutas, médicos, enfermeiras e uns senhores todos vestidos de azul, que, penso eu, terão alguma coisa a ver com a cirurgia...
Ao chegar-nos junto de uma destas pessoas, sabemos o que pedir-lhes, o que esperar delas, as respostas ou não que irão dar-nos. Aquela farda ajuda-nos a conhecer a sua identidade, quem são, o que fazem...
Eu não tenho farda. Nos vários serviços e trabalhos da minha vida nunca precisei de uma. Mas tenho uma identidade. Será que as pessoas que se chegam a mim, sabem o que esperar, o que pedir e o que receber? Será que mesmo sem farda, a minha vida transmite aos que me rodeiam a segurança da resposta, o ânimo da direcção e até o carinho inesperado?
Lá, sentada no hospital, pensei em Jesus Cristo, vestido como qualquer galileu do Seu tempo, sem a “farda” pesada dos fariseus, sem a túnica pomposa dos centuriões romanos, mas ainda assim, atraindo multidões, chamando crianças, rindo e comendo trigo fresco com os discípulos, tocando os pobres, os marginais, curvando-se sobre uma escrita misteriosa na terra, enquanto uma mulher apanhada em adultério espera a sentença de morte...
Desejo muito que aquilo que sou me diferencie do resto, para que os necessitados, os que não têm amigos, nem abrigo, se cheguem a mim, sem receio de ser enganados, sem medo de um estatuto que os obrigue a pedir, de olhos baixos...