quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

MISTÉRIO


O mistério da encarnação. Cada ano que passa e medito mais profundamente sobre a vinda do Salvador dos homens, mais abismada fico com o plano profundo, único de Deus. 
Podia ter enviado o Messias de outra maneira...Ele poderia ter aparecido do nada e quando os homens dessem por isso, lá estava Ele no meio do templo de Jerusalém, com olhos faiscantes e uma espada de luz que dizia aos Seus inimigos de quantos actos de poder era capaz.
Podia ter nascido de alguma princesa judia, embora que nessa altura a classe real estivesse reduzida ao silêncio imposto pelos invasores romanos.
O mistério começa na escolha de uma menina vulgar, com sonhos do tamanho do seu coração e horizontes limitados pela sua terra  e família; com o meio pelo qual essa jovem fica a saber da vinda do Messias. Deus não vai colocar magicamente no seu colo uma criança, que crescerá até na idade adulta poder revelar a Sua identidade. 
Nada disto. O mistério é que a Palavra que criou os mundos e trouxe à existência tudo o que há, toma a forma de um embrião humano no ventre de Maria, precisa de nutrientes do seu corpo , cresce durante 9 meses e transforma o físico, as emoções, expectativas e desejos da mulher que O transporta.
O mistério é que nasce como qualquer bebé. Maria tem que fazer força para Ele se libertar do seu  corpo; a criança dá o primeiro grito quando os pulmões se enchem do oxigénio que alimenta a vida dos homens; dorme o primeiro sono encostado ao peito virgem da mãe.
O mistério é que Ele é Deus, inteiro, tomando a nossa forma para ser Homem inteiro.
O mistério é que Ele tem uma missão definida e viverá para ela.
O mistério é que o pecado não toca o Seu corpo e um dia oferece-se como oferta vicária pelos pecados do mundo.
Quanto mais medito, mais me espanto...
Hoje, o mistério avassala-me porque este mesmo Cristo está a ser formado em mim e eu quero  que o que desejo e espero, estejam dependentes completamente desse Ser que me transforma e me dá uma nova forma, uma nova maneira de ver e sentir....

sábado, 21 de novembro de 2015

JÁ É NATAL




Temos visto a cena de Natal, tantas vezes, retratada nos corredores da nossa memória!
Olhamos os quadros, gravuras e vídeos que nos tentam mostrar o que aconteceu e lá está, uma mulher vestida de branco, com um manto azul a cobrir-lhe os cabelos loiros. Ao seu lado  um homem encostado a um cajado, olhando embevecido uma criança deitada numa manjedoura de palhas limpas. Um boi, um jumento, uma ovelha, comendo a ração abundante de uma outra manjedoura. Será isto o Natal?

Vinde comigo a Belém. Transportai-vos no tempo e parai à porta da gruta. Lá dentro é húmido. O cheiro dos animais, mistura-se com o da palha e com o odor peculiar de um parto acabado de acontecer. A mulher que olha para a manjedoura, tem sobre si a roupa e a cobertura das mulheres simples de Israel. Sem aparato, feitas do tecido mais económico. Está suja da viagem, transpirada do esforço do parto.  O homem jovem ao seu lado não tem o ar de herói que esperávamos, mas de alguém cansado de uma longa jornada, frustrado, porque depois de bater a tantas portas, este foi o único lugar que achou para abrigar a sua mulher prestes a dar à luz.  O homem tem ainda no seu rosto o espanto das últimas horas, da experiência de ter ajudado a trazer ao mundo o seu primeiro filho.

Olhai bem. Deitado na manjedoura rude está uma criança. Um menino acabado de nascer. Enfaixado em panos, conforme o costume da Sua terra e do Seu tempo. Um menino de carne rosada, como todos os  recém-nascidos. Os olhinhos semi-cerrados, tentando habituá-los à luz fraca da lamparina. Um menino que chora com fome, que abre a boca sôfrego, quando é encostado ao seio da mãe – um menino.

Afinal que vistes? Um quadro de pobreza, igual a tantos outros? Não. Ajoelhai à entrada da gruta, porque o menino que nos nasceu, o filho que nos foi dado, tem um nome sublime: MARAVILHOSO, CONSELHEIRO, DEUS FORTE, PAI DA ETERNIDADE, PRÍNCIPE DA PAZ!

Aqueles centímetros de corpo humano são O VERBO DE DEUS, Aquele que com a Sua palavra criou os mundos e trouxe à existência o que ainda não havia.

Este é o grande mistério do Natal. Deus feito carne, Deus tornado homem, para nos entender perfeitamente, para ficar connosco – EMANUEL!

Este menino não vai ficar na gruta. Crescerá, será homem e, um dia, na flor dos Seus anos jovens, subirá ao  Calvário, carregando sobre os ombros uma cruz. O Verbo de Deus, o Sustentador de todo o universo, abdicará de tudo o que tem de celestial e voluntariamente  se entregará à morte pelos pecados dos homens. Não numa atitude de herói-suicida, mas de amor-sacrifício, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus..

Se conseguires ver isto, agora, terás descoberto todo o verdadeiro significado do Natal. 


















quarta-feira, 21 de outubro de 2015

MEMÓRIA

As datas e acontecimentos importantes da nossa vida sucedem-se: aniversários, encontros com amigos especiais, casamentos, palestras, conferências, doenças, partidas e chegadas e até funerais. Todos eles são marcos de algo que faz parte de nós, que entram na nossa memória e encontram lá um lugar, umas vezes mais escondido, outras nem tanto. 
Algumas destas lembranças, enfiam-se em lugares tão complicados, que por mais que as procuremos, é preciso desarrumar umas, empurrar outras tantas, até as encontrarmos.
Mas hoje, uma dessas,  tão longínqua, enterrada nos vãos da minha memória, sem que o desejasse, teimou em querer aparecer. Não sei porque apareceu. Quando  consegui vê-la à claridade e ao olhá-la bem de frente, não gostei. Nunca foi bonita, diria até que era bem feia, mas hoje, passados estes anos todos, está com uma cor terrível, com uns tiques estranhos e acima de tudo cheira a mofo. Tenho alergia a mofo. Mas ela está na minha frente, com um riso de ironia e não sei como ver-me livre dela.
A nossa mente prega-nos partidas, mas a Palavra de Deus dá-nos repostas. Olhei a dita naqueles olhos vidrados e disse-lhe com voz firme: "Quero trazer à lembrança o que me traz esperança! A misericórdia do Senhor é para sempre, grande é a Sua fidelidade" . Mal acabei de falar, já ela se sumia, mais amarelada, mais vacilante...Não sei se encontrou algum buraco onde se meter, mas se voltar, leva a mesma resposta naquela cara deslavada e sem cor, até perder completamente a coragem de sequer levantar cabeça!

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

A SAMARITANA


Quem contou a história não lhe deu um nome. Não sabia, ou achou que não era importante. Ela era apenas uma mulher de Samaria, zona geográfica olhada com desprezo pelos judeus. Nunca ninguém se lembraria de falar sobre ela. A sua origem era obscura, a sua vida igual à de tantas outras da cidade. A diferença era a dor que carregava, bem fundo, no coração.
Quando a hora do calor apertou, pegou no cântaro, colocou-o à cintura e saiu. O sol castigava tudo onde tocava. Era a hora mais dura do dia e por isso, as ruas estavam desertas. Caminhou devagar até ao poço de Jacó. Ao longe pareceu-lhe ver a figura de um homem junto à fonte. Quando estava mais perto, apercebeu-se que era um judeu, pelas roupas e pelo corte da barba. Nervosamente pousou o cântaro. Apanhou a lata com que tiravam a água do poço, desceu-a devagar, em gestos calculados e quando ficou cheia, puxou-a e começou a encher a bilha. O homem levantou a cabeça e interrompeu-lhe o gesto. “Dá-me de beber!” O coração da mulher disparou. Um homem judeu a pedir-lhe água...Tentou fugir ao pedido, mas Ele insistia e falava agora de algo que ela não entendia. À medida que a voz profunda do homem se fazia ouvir no silêncio do descampado, o coração da samaritana parecia querer saltar-lhe do peito. A sua necessidade de água poderia ser suprida por artes mágicas, o homem dizia-lhe que tinha uma água que não acabava nunca. Era uma oferta cheia de atractivo. Não teria que vir mais ao poço, mas seria verdade? E de repente, do nada, Ele diz:”Vai chamar o teu marido!” A dor escondida, amarrada no mais profundo da sua alma, subiu-lhe na garganta. Em voz quase inaudível respondeu que não tinha marido. Afinal, não conhecia aquele homem, não precisava de desventrar a sua frustração de ter tido um marido atrás de outro. Os rostos daqueles homens passaram em segundos fugazes pela lembrança da sua alma. Cada um deles tinha trazido à sua vida uma dor sem limite, uma sede de amor insatisfeita, uma perda de dignidade, vergonha que escondia agora nos braços de um outro, que afinal não era seu marido. O desconhecido junto à fonte insistia com voz mareada de ternura, de um som que ela nunca ouvira antes, de um cuidado que nunca ninguém lhe prestara: “Disseste bem, ele não é teu marido”.
A samaritana puxou o balde outra vez. Ele tinha-se calado, mas ela não conseguia. Este homem deveria ser um profeta, pois conhecia a sua vida! Já agora queria saber que tipo de profeta era ele, para tirar tempo da sua jornada para falar com uma mulher. A conversa subiu de tom, à medida que Ele respondia às suas questões sobre religião. 
Silêncio, outra vez. Escassos segundos apenas, antes de  ouvi-Lo dizer: “EU SOU o Messias, eu mesmo, que falo contigo!” Encostou o cântaro cheio de água, levantou os olhos para o homem à sua frente  e reparou que outros se aproximavam. Era a deixa para correr dali e ir à cidade contar a quem quisesse ouvir, que um homem lhe tinha dito tudo sobre a sua vida, sem ser abusivo, sem olhá-la com desprezo, sem palavras de condenação. Dentro dela havia como que um rio a correr, sentia-se lavada, purificada. Tal como Ele dissera, a alegria era como uma fonte a jorrar. Esqueceu a água que ficara junto ao poço. Esqueceu os anos de tortura e culpa por ter vivido à margem da lei. Nos seus ouvidos e no seu coração havia umas palavras que não paravam de ecoar como se fossem sinos em dia de festa: “Sou EU mesmo, que falo contigo!”
Junto ao poço de Sicar, o Messias olhou para a comida que os discípulos tinham ido comprar e  num tom de voz que eles sabiam não precisar de resposta disse: “Estou saciado. Já comi o que tinha a comer”.
Na alma da samaritana  a água viva saltava para a vida eterna. No coração do Messias não havia fome, estava saciado de um pão de obediência ao desígnio do Pai. 
O sol escondeu-se naquela tarde pintando o céu de cores de esperança. Em Sícar, junto ao poço de Jacó.




quinta-feira, 8 de outubro de 2015

COMPARAÇÕES

Não há como não fazer comparações. Mesmo sem querer, elas saltam diante dos nossos olhos. E começam sempre por algo parecido com isto : Como é que tem e eu não tenho? Por que pode e eu não posso? O que fiz tão errado para o resultado ser este?
Podemos chamar o que quisermos a estas reflexões, que vêm sempre carregadas de dor, de impotência, de um sentimento de alguma perda e de um objectivo que não foi atingido.Mas o que é certo é que elas aparecem e nos espreitam de vez em quando...  Tenho amigos que dizem:" não lamento nada do que fiz na minha vida!" Outros ainda vão mais longe: "Se vivesse outra vida, faria tudo igual!"
Concluo eu que devo ser uma raridade no meio de uma geração que se sente tão realizada. Pois eu não sou assim. Queria ter feito mais, gostaria de ter sido mais bondosa, melhor esposa, melhor mãe.  Esta última então, persegue-me. O que poderia ter feito melhor? Amado mais? Corrigido mais? Ter ficado mais atenta? Os filhos crescem, seguem a sua vida, fazem escolhas e nós, como treinadores no banco, definimos onde erramos, o que perdemos e por que falhamos. O jogo desenrola-se na nossa frente e por mais que esbracejemos, eles defendem-se como podem e atacam  para se defenderem. 
Às vezes pergunto-me por que não ficam sempre com os olhos pregados em nós, ouvindo, imitando...Acho que a razão é simples: eles próprios descobrem que também nós fizemos jogadas perigosas, inaceitáveis e que se estivéssemos ainda em  campo, não saberíamos  entender a estratégia do adversário.
Não chega encolher os ombros e seguir em frente. Para mim não é suficiente. 
Ter um problema existencial desta natureza na minha idade, pode ser perigoso. O melhor é fechar a loja por hoje e dizer como todo o mundo: "está tudo bem!"


segunda-feira, 28 de setembro de 2015

TEMPOS...

Não são só as cartas que desapareceram. O progresso trouxe novidade, facilidade e rapidez à nossa vida, mas trouxe também o desaparecimento de coisas pequenas, belas e doces que faziam parte do dia a dia. Abrir de manhã as janelas e as portas para o ar fresco entrar e dar os bons dias à vizinha que, no outro lado da rua, sacudia o tapete do quarto. Esperar o carro do pão, na esquina da rua, porque queremos escolher o que mais nos agrada...
Já não sacudimos tapetes, as janelas ficam fechadas e as portas, essas têm agora umas trancas inventadas em qualquer outra galáxia. O pão daqui a pouco começa a vir embalado e não há mais escolha...
Na minha aldeia ainda consigo perceber que as pessoas são humanas, não os autómatos  que  correm de um lado para o outro, de um transporte para o outro, caras fechadas e olhos tapados com grandes óculos escuros. Por aqui ainda sabemos quando há um casamento e os  funerais são anunciados pelo sino da igreja. Nestas ruas, as mulheres ainda param no caminho para as compras, a conversar sobre a vida alheia, porque ainda não é meio dia! A partir dessa hora, sim, os almoços fervilham, as crianças voltam da escola e nos bancos de pedra, só há homens, em amena cavaqueira, a discutir o último golo do seu clube, à espera do sinal para atacar o almoço. 
Corre tudo assim, mais ou menos calmo. Tão calmo que, quando uma ambulância para à porta de alguém, juntam-se os que podem para ver e dar opiniões. Tão curioso que, quando casa a filha da vizinha tal, o adro da igreja  fica cheio de gente só para ver a noiva. "Via-a nascer", dizem de sorriso atravessado. "Ainda ontem era uma menina, que nosso Senhor a faça feliz!", murmuram umas para as outras. Tudo isto vai desaparecer um dia. Quem sabe, até a aldeia vai ficar deserta. A escola tem menos crianças. As noivas vão morar noutro lado. Quem cá está vai ficando a remoer a saudade do que foi...Tempos.

sábado, 19 de setembro de 2015

CARTAS

Usava-se uma caneta ou uma esferográfica que fosse boa e corresse suave sobre o papel. Este podia ser de várias cores, consoante o motivo, a ocasião ou a pessoa a quem era dirigida. Estou a falar de cartas. Havia até uma canção que dizia "cartas de amor, quem as não tem..." Começavam quase todas assim: "que esta carta te encontre de boa saúde" e terminavam mais ou menos com estas palavras: "e despeço-me com muito carinho e amor". Estas eram as cartas escritas à família, aos amigos. Era por elas que encurtávamos as distâncias, era nelas que expunhamos a saudade e a dor da ausência. Serviam para dar notícias sérias, para namorar, para informar do que se passava em casa, quando o outro estava longe. 
Havia quem não soubesse escrever e pedisse ao vizinho ou amigo para lhe escrever uma carta. Era assim uma espécie de "ditado" que o outro colocava fielmente no papel. Havia quem esperasse o carteiro à esquina da rua, só para ter a certeza que ia receber a tão esperada carta.
Com a chegada da tecnologia e da facilidade da comunicação, as cartas foram rareando e perdendo o seu valor. As pessoas passaram a comunicar-se através de outros meios.O papel foi substituido pelo teclado do computador e as canetas foram guardadas numa gaveta. À medida que tudo foi evoluindo, comunicamos agora no momento, ao minuto, conseguimos ver-nos à distância em diminutos ecrans e satisfazemo-nos com mensagens e "aplicações" cada mais mais avançadas. Fantástico o progresso! Mas as minhas netas não saberão o que é ter uma caixa cheia de cartas  de amor, atadas com uma fita perfumada, catalogadas por data. 
As mensagens perdem-se e, mesmo que tenham tudo arquivado numa "pasta", nunca vão sentir o entusiasmo, o coração a bater mais forte, cada vez que chegava uma carta. Não saberão  que até a maneira como era dobrado o papel da carta tinha um significado na linguagem do amor...
O progresso deu-nos muito, mas roubou-nos tanto... E isto não foi há 100 anos, foi só há 25 anos! 
Lembrei-me disto, porque leio muitas vezes as cartas que os apóstolos escreveram à Igreja no principio. Foram guardadas com muito amor, reproduzidas dezenas de vezes para que todas as igrejas pudessem ler, até que chegaram a nós  e muitas delas começam assim: "Desejo  que tudo vá bem contigo..." e terminam com saudações, beijos de carinho e muito amor. 
Não me lembro quando li a última carta que me escreveram, mas devo tê-la guardado, em qualquer gaveta ou caixa. Pode ser que as gerações futuras façam um dia uma exposição dessas relíquias!

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

PAUSA

Segundo os bloguistas, estou calada há muito tempo. Deveria escrever todas as semanas, porque as pessoas que me seguem, procuram-me todas as semanas. O que acontece é que por fim...cansam-se e vão ler outros blogs. 
Não tem a ver com escrever ou não escrever, mas com o querer usar as palavras para que façam algum sentido dentro e mim. E não têm feito.E esse facto levou-me mais uma vez a um exame interior. Porquê? Eu, que gosto tanto de "dizer "coisas", porquê esta escassez de palavras, de ideias?
Conclui que não tem a ver com cansaço, nem com falta de assunto, nem mesmo com o muito ou pouco interesse que alguém tenha em ler o que escrevo, mas com uma necessidade de pausa, de silêncio, de olhar para dentro de mim e examinar as minhas motivações, desejos e expectativas. E aqui estou eu a quebrar esse silêncio, só para dizer isto. Olhem, faz de conta que fui de férias para uma ilha selvagem, onde a comunicação com o exterior é nula ou que me ausentei para um país distante onde é muito difícil aceder à internet...
Li no interessante livro do Apocalipse, que houve um silêncio no Céu durante meia-hora. Não sei o que fizeram nas altas instâncias celestes durante aqueles trinta minutos, mas sei que não houve cânticos, nem anjos a voar, nem ordens a serem emitidas, nada...silêncio.
Ora, se  Céu fez uma pausa, porque é que eu não posso fazer?

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

NO COMBOIO

Dentro do comboio, as pessoas "matam" o tempo de várias maneiras.Os que viajam acompanhados, conversam, recebem e fazem chamadas telefónicas que toda a gente tem que ouvir. Os solitários, esses dormem, usam o computador ou o tablet. Resolvi desta vez fazer algo diferente: olhar a paisagem. A nossa terra é linda! Qualquer percurso que façamos, tem beleza e encanto. 
Ao longo da viagem reparei nas casas. Muitas casas, umas grandes outras pequenas, umas modernas outras a cair de antigas. Muitas casas. Imaginei as histórias por detrás de cada porta fechada. As alegrias, saudades, tristezas, risos, discussões, doença, drama, tragédia, luto que haveria nas casas. Depois, um outro pormenor chamou-me a atenção. Durante duas horas e meia de percurso, não vi uma única  pessoa perto das casas, à janela, junto à porta, no quintal, nas hortas! Os seres humanos concentravam-se apenas nas estações, onde o comboio parava. Será que toda a gente viajou? Que as ditas casas estão abandonadas? Que todo o mundo foi de férias? Que aquelas casas estão lá só para dar alguma graça à paisagem e que ninguém lá vive? 
Pensei ainda em Deus, olhando para este mundo, à procura de um justo, sem conseguir encontrar ninguém, de tal maneira, que tem que mandar O Justo à terra para povoá-la de pessoas que se identificam com Ele e que passam a viver em justiça.
E meditei nas palavras sóbrias e solenes do livro da Revelação: "Olha  que estou a bater  à tua  porta.Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta. eu entro em sua casa, janto com ele e e ele comigo" .
Há por aí tantas portas fechadas, tantas janelas cerradas.
Uma pessoa quando viaja, tem que pensar em alguma coisa...

sábado, 8 de agosto de 2015

A SUA MISERICÓRDIA

Acordei muito cedo. Àquela hora em que não queremos dar um passo para não perturbar o resto da família. A brisa leve fazia ondular o cortinado do quarto. Os galos não cantavam, os cães não ladravam, o trânsito normal não existia. Era como se o dia, tal como eu, tivesse acordado sem saber ainda o que fazer. Fiquei ali, quietinha, a sentir o sossego e a calma do amanhecer. Não sabia  o que esse dia iria trazer-me. Não conseguia planear nada, porque o momento era leve, doce, tranquilo, fresco, silencioso, único...mas pensei na misericórdia de Deus, que é nova a cada manhã, assim, leve, doce,tranquila, fresca, silenciosa, única...
O primeiro som que ouvi depois desta tranquilidade, foi o sino da igreja a marcar as horas. Sempre o tempo, o implacável tempo, a dizer-nos que aquele momento de paz está a passar e que logo a seguir vem outro, sei lá de quê...
Mas de uma coisa tenho a certeza. Amanhã, esteja eu acordada ou a dormir, a misericórdia de Deus será nova, leve, doce, tranquila, fresca...outra vez!

domingo, 2 de agosto de 2015

UNIÃO

Alguém disse que "sós, vamos mais rápido mas juntos, vamos mais longe". É verdade  que há momentos na nossa vida em que temos que tocar a solo a sinfonia. Há instantes em que o jogo  depende apenas de nós. Há dias em que temos que ir à luta sozinhos...
Mas pense agora na beleza da música, quando toda a orquestra espalha sons de maravilha porque tocam juntos. Imagine uma equipa em que todos trabalham para o resultado final da partida. Veja o que um exército bem treinado e uniforme pode fazer  para derrotar o inimigo.
Estou a falar da força da união.  Estou a desejar que quem comigo vive, se aperceba que tudo o que faço não é para mim, mas para um conjunto de pessoas e que todos os objectivos que anseio alcançar, têm essas pessoas sempre em mente. Não quero fazer sozinha nem para mim apenas.
Acho triste o desejo quase doentio em certas pessoas que a luz do palco incida só sobre elas. Que os outros fiquem na obscuridade para que o brilho e o aplauso sejam só seus. Sinto-me frustrada quando entro numa corrida e os companheiros que estão comigo pensem na meta sem se preocupar se eu consigo percorrer os primeiros metros. Deus criou-nos como parte de um todo. O maior exemplo disso é a maravilha do nosso corpo. Cada parte, cada orgão diferente, a trabalhar para a saúde do todo. 
Se isto fosse assim na família, na igreja, na sociedade, que mundo seria o nosso! Não me importo que me chamem sonhadora, visionária. Vou continuar a acreditar que juntos...vamos mais longe, conseguimos mais, somos mais felizes!

quarta-feira, 22 de julho de 2015

SILÊNCIO

Consegue ouvir o silêncio? Não é possível. Há sempre algum som, próximo ou distante que invade aquele espaço. 
Tive uma experiência única sobre isto, na Islândia. Subi até uma colina onde havia uma velha e imponente igreja. Entrei. Tinham-me dito que ali iria encontrar o silêncio. Mas não. Cada pessoa que entrava na igreja, por mais cuidado que tivesse, fazia sentir o som dos seus passos. Desapontada, saí. Fiquei cá fora uns minutos, embrulhada num forte agasalho, a olhar a paisagem única daquele país. Tanto, tanto verde! E de repente, ouvi-o. O silêncio. A natureza não fala, não canta, o vento recolhe-se não sei onde, não há pássaros, não há árvores, só o verde silencioso. Virei-me de repente. Pensava que tinha ficado surda, mas não, era verdade. Ali naquele lugar, Deus tinha criado um espaço de silêncio,um vácuo de som. Deve haver uma explicação cientifica para o fenómeno. Não me preocupei se havia ou não. Gozei apenas os breves momentos que fiquei ali, como que suspensa. Em segundos, apercebi-me de uma outra realidade. A presença de Deus enche a terra, este planeta que Ele criou com um fim especial e só Ele pode fazer  com que a a natureza cante, uive, trema, arda e silencie. Em meio ao silêncio, Deus!

sexta-feira, 17 de julho de 2015

PARA SEMPRE!

E vêm aí, os anversários de casamento das nossas meninas! Para duas delas passaram 3 anos, para uma só dois anos. E neste curto espaço de tempo, as folhas do calendário foram arrancadas, umas de repente, outras a medo. Há tanto para ver, para experimentar e viver!
Para quem já viu passar muitas décadas de um casamento sólido e feliz, estes poucos anos das nossas meninas parecem  uma pequena flor a desabrochar. Nem elas sabem por quanto ainda vão passar, o tanto que terão que sofrer e conquistar, rir e chorar, trabalhar e descansar, ter conflitos e perdoar, assistir a desilusões e levantar-se, porque o compromisso é maior.
É disto  que se faz uma união. É com estes ingredientes que se fabrica um casamento para a vida.
Os vestidos vaporosos, rendados, os véus , grinaldas e albuns, ficam guardados em armários. Mas à luz de cada dia, cada uma delas terá que trazer o melhor de si mesmas, investir até à exaustão, para que a promessa "para sempre" não seja apenas palavreado de ocasião.
Já agora, minhas queridas, festejem e celebrem, sempre , todos os meses, todos os anos! Toquem os sinos da vossa paixão outra vez, atirem ao ar as pétalas da doçura e do sonho  e façam de cada aniversário uma lembrança - para sempre!

quinta-feira, 9 de julho de 2015

PERGUNTAS E RESPOSTAS

Comecei o dia com esta pergunta, dirigida a Jesus Cristo em quem vivo, me movo e existo: "E agora, o que fazemos?"
A questão vinha do mais profundo do meu ser, da enorme preocupação que teimava em amarfanhar-me, da inquietude de não saber os passos a seguir, ao olhar para o homem da minha vida e ao vê-lo tão cansado, sem acção e sem vontade de dar um passo que fosse.
É nestes momentos  que temos que ter a certeza  quem somos e a quem pertencemos. É verdade que a vida foi-nos dada com um prazo e a embalagem não traz  a data da validade, mas cá dentro, sabemos que algo está a esgotar-se, como a areia na ampulheta.  
Por isso, fiz esta pergunta  ao Senhor. No plural. Porque sem Ele, nem tenho o direito de fazer perguntas destas. 
E Ele respondeu. Na Sua voz doce, firme, segura e única, a voz que deu vida ao Universo e que faz tremer montanhas  e embravecer os mares, mas que ao mesmo tempo, é capaz de susurrar uma canção de embalar para acalmar o sono de uma criança. Ele dise: CONFIA, DESCANSA, ESPERA!
Confio, Senhor, nunca mentiste, jamais falhaste e a tua graça está cheia de favor e promessas.
Descanso, Senhor, porque não quero que me digas o que disseste aos Teus discípulos: "Homens de pouca fé..."  e porque só o descanso me vai ensinar como és manso e humilde de coração.
Espero, Senhor, porque nesta espera Tu vais mostrar-te forte, o jogo vai mudar, o resultado final és Tu que o determinas e ninguém pode interferir naquilo que Tu já planeaste.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

MALAS

Tenho-as de vários tamanhos e materiais. Em tempos idos, só havia uma grande e outra mais pequena, mas à medida que o tempo foi passando e as viagens foram divididas por semanas, dias ou apenas um fim de semana, comecei a ficar fascinada que as há para todas as necessidades do viajante. Estou a falar de malas de viagem! A coisa é de tal ordem, que não consigo passar por uma loja onde elas estejam expostas que não vá bisbilhotar para ver a última novidade!
Algumas delas têm história. Levaram dentro os pertences que me faziam falta para a ocasião e trouxeram de volta mais ou menos a mesma coisa, só que a precisar de lavagem. Transportaram apenas o que hoje em dia nos permitem passar por  um radar irritante e desconfiado, onde  um chapéu de chuva enroladinho, faz as luzes piscarem e mais coisas apitarem, só porque acham que tem forma de bomba.
Mas as minhas malas de viagem têm mais histórias. As despedidas e as chegadas. Não gosto, nem de umas nem de outras. Parto, não sei se volto, chego não sei o que aconteceu, se me escondem alguma coisa que deveria saber, se encontro tudo no lugar. Mas tem o seu lado bom, também.
As minhas malas (agora tenho uma verde quase florescente) dizem-me que sou uma viajante não só neste pequeno mundo onde as distâncias são encurtadas cada vez mais e onde as pessoas ate se cruzam em lugares inverossímeis, mas contam-me que sou peregrina, a caminho de uma pátria onde as viagens acabam de vez, onde o destino é final.
Tal e qual como arrumo a mala com cuidado e sem querer esquecer  nada para o caminho que tenho pela frente, medito que nesta viagem definitiva, a minha bagagem tem que ser bem escolhida, sem pressa e sem desejos escondidos. Não quero levar a mais, mas também não posso  levar a menos. Difcil escolha, mas importante.
Algumas das minhas malas foram destruidas no caminho, outras ficaram sem asas ou sem rodas, outras foram abertas e roubadas, mas tudo isso ficou perdido e ocupa um espaço muito pequeno na minha memória.  Mas esta bagagem que levo para a  tal cidade  cujo artífice e construtor é Deus, tem que ser tratada de outra maneira; sei que quando chegar à cidade, ela será pesada em balança especial, que os materiais que levo lá dentro têm um valor além da minha comprensão...
Sou viajante, sim senhor. Comecei e não vou parar.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

O SONHADOR (cont)



Algum tempo depois chega uma comitiva vinda do palácio. Procuram José. O rapaz toma banho e muda de roupa. Vai apresentar-se diante do dono do mundo, sabe-se lá porquê. O esplendor e o brilho da casa do rei não deslumbram o jovem. Ele sabe que é mais uma missão. Enquanto espera, olha para a roupa limpa que vestiu e sorri. Já tinha vestido várias roupas nestes poucos anos da sua vida, cada uma delas representando o seu estado de filho amado, escravo e prisioneiro. A roupa que tem agora  parece-lhe estranha, não faz sentido, mas espera. Levam-no à presença do faraó. Não ousa enfrentar o dono da terra, mas este, em voz alterada conta-lhe um sonho que não consegue decifrar. Pretende que José o faça, já que teve essa capacidade com os colegas da prisão. José  olha agora sem medo para o rei  e ele, que em menino sonhara tanto, agora começa a interpretar o sonho  do faraó.
Quando termina, levam-no dali para vesti-lo com roupas reais. José olha para o espelho que lhe dão  e nem acredita. Em vez de uma corrente de ferro nos pés, tem uma de ouro ao pescoço, no lugar do avental de escravo e do calção de prisioneiro, tem um manto de governo sobre o seu corpo jovem. E os sonhos? Não tem mais tempo par a sonhar, a realidade de governar o Egipto e de fazer florescer a sua economia, roubam-lhe todo o tempo.
Mas um dia, na sua frente, estão 10 homens hebreus inclinados, submissos, carentes, incapazes.  E é aí que José vê o seu sonho tornado realidade. Os irmãos não o reconhecem, mas ele sabe quem eles são. Os seus rostos e cheiro estão para sempre gravados no seu coração. A dor que lhe infligiram ainda não desapareceu. O turbilhão de sentimentos é grande demais para o governador do Egipto e tem que sair para chorar sozinho...
Um dia, já no final da sua vida, José volta a sonhar. Pede à família que, quando voltarem à sua terra de origem, levem com eles os seus ossos. Sonha repousar na terra que o viu nascer, mas mais do que isso, sonha que um dia Deus vai fazê-los voltar ao lugar que prometera ser sua propriedade para sempre.
José, o menino sonhador, foi elevado por Deus a um patamar superior – intérprete de sonhos.
Deus ainda faz isto hoje com o que desejamos e sonhamos. Um dia, damos por nós a fazer algo que está anos de luz acima do que tínhamos pensado. Porque se o nosso coração se mantiver fiel, leal, puro e moldável, Deus tem um terreno pronto para mais do que pedimos ou pensamos!


quinta-feira, 18 de junho de 2015

O SONHADOR



O rapaz sonhava muito. Sonhos estranhos, impensáveis e incompreensíveis. Os pais lá iam tolerando tudo, ums vezes com um encolher de ombros, outras com uma repreensão mais acesa. Os irmãos, esses odiavam a capacidade que o rapaz tinha de ver mais longe, de conseguir alcançar um mundo onde eles nunca chegariam. Ainda por cima, o pai resolveu dar ao rapaz uma capa especial, colorida, de mangas largas e compridas, coisa que nenhum deles tinha recebido.
Essa raiva acumulada no coração dos irmãos de José, um dia explodiu. O miúdo estava ali, na sua frente, indefeso, inocente, sonhador, a muitos quilómetros de casa e da protecção do pai. Era altura de dar um fim aos sonhos incomodativos do menino.  José sentiu as mãos calosas dos irmãos a empurrá-lo para um buraco fundo. Quando recuperou o equilíbrio, agradeceu porque o poço era seco, mas depois tudo ficou escuro, quando eles taparam a entrada do poço. As horas passavam lentas. Os soluços do rapaz tinham-se transformado em dor profunda pela maldade imensa dos seus irmãos. Ainda ouviu ao longe a voz do mais velho, que discutia as consequências daquele acto sem  sentido.  O silêncio imenso foi quebrado  pelo rodado de carros que passavam. José, lá no fundo, imaginou como seria a caravana. Ouviu os homens a falarem com os seus irmãos, uma longa conversa, feita de silêncios e de pragas à mistura e por fim, tiraram-no de dentro do poço. A luz da tarde feriu-lhe os olhos inchados, mas pouca força lhe restava para defender-se das cordas que agora o amarravam. A caravana pôs-se em marcha outra vez e José foi perdendo de vista os irmãos, a sua terra...A sua linda capa ficara para trás, junto com os seus sonhos.
No Egipto, para onde foi levado, venderem-no para um oficial do faraó. Agora usava um avental de escravo. Fazia o que lhe mandavam. Os sonhos tinham desaparecido, a sua realidade agora era servir com cuidado e dedicação. Crescia e fazia-se um homem, cada dia mais belo e aprumado. Todas as tarefas eram feitas com zelo e excelência e o oficial promoveu-o. Não durou muito tempo, esse intervalo de bem-estar. A mulher de Potifar, cada vez que passava por ele, deitava-lhe um olhar de cobiça e desejo  reprimido. No coração de José, onde havia saudade, mágoa e  dor, havia também lugar para lealdade, verdade e pureza. A mulher engendrou uma história mirabolante de assédio, que levou José para a prisão. Vestiram-no com roupa de prisioneiro. Mais fundo não poderia estar. Mas a graça da sua vida seguia-o, mesmo ali na prisão e dentro de pouco tempo, José  transformou-se no ajudante do carcereiro, com acesso livre aos outros presos.  Uma manhã, dois deles estão cabisbaixos. Tiveram sonhos maus, difíceis de entender. José sente uma dor no peito. Sonhos? Outra vez? Os prisioneiros relatam-lhe o que sonharam e José interpreta o significado daqueles sonhos.  Sonhar, parecia algo tão distante para José. Dentro de poucos dias as portas do cárcere abrem-se para os prisioneiros. José vê-os sair e no seu coração a dor fica maior, mas ela não iria impedi-lo de cumprir as suas obrigações com a mesma dedicação.
(Continua)

sábado, 6 de junho de 2015

SAUDADE



A saudade veste-se de cinzento desbotado. Quando a tocamos, está fria, quase húmida. Deve ser das lágrimas que a lavam. Insiste em lembrar nomes e épocas que todos já esqueceram. Alimenta-se de sons semelhantes aos que já foram e de objectos que já deviam há muito estar guardados numa caixa. Fica mais forte quando pega nas molduras onde os sorrisos insistem em não desaparecer. Caminha devagar, recusa os saltos e as corridas que podem torná-la menos dolorosa. Fala baixinho, porque nem todos entendem a sua linguagem. Quando a convidamos a sair, a espairecer, insiste em ficar no mesmo lugar, presa a momentos que já não existem. Tem datas marcadas a vermelho no calendário e nesses dias, fica mais quieta, mais calada...
A saudade é companheira de todos os homens, só que alguns convivem com ela às escondidas e outros não têm onde esconde-la. Uns falam dela como de algo que se perdeu, outros expressam-na numa palavra que não tem tradução. É perda, mas é algo que ficou; é dor, mas pode ser cantada; é lágrimas, mas elas escorrem em silêncio e em momentos sem explicação.  É como se pudesse repetir tudo o que foi, sem o relógio a marcar esses minutos.  É lembrança, memória, recordação, tudo o que o dicionário quiser dizer, sem saber exactamente como defini-la. É saudade.