segunda-feira, 13 de abril de 2015

DONA PRIMAVERA



O Inverno puxou a gola do sobretudo, enrolou o cachecol à volta do pescoço e foi saindo. Fechou a porta da casa onde vivera longos meses. Sabia que naquela altura haveria outro inquilino e ele, friorento e rabugento, lá teria que procurar outras paragens para viver.
A  Primavera abriu a porta da casa e recuou. O cheiro de uma casa fechada durante muito tempo era difícil de suportar. Abriu as janelas de par em par e foi logo varrendo as cinzas que ainda havia na lareira.
Tirou os cortinados sujos de mofo, limpou os vidros  cheios de camadas de pó e foi ao jardim. No meio de tanta erva, havia amores-perfeitos a nascer e jarros, muitos jarros brancos! Encheu um vaso com eles e despiu o casaco. Tinha que começar a usar roupas mais frescas.   
Foi ao quintal nas traseiras da velha mansão e lá estavam as alfaces, à sua espera. Baixou-se um pouco mais e reparou que as favas já estavam a encher. Afinal o amigo Inverno tinha feito mais do que estar apenas à lareira a aquecer-se.
Depois de uma refeição ligeira, colocou o chapéu com a fita azul e sentou-se ao sol.  Como gostava da casa nesta altura! Derramou o olhar pelos campos ao longe e viu com alegria que o Sábio Pintor já tinha começado o trabalho de colori-los de amarelo e roxo. Ouviu um barulho vindo de uma canto da casa e riu alto. Lá estavam elas, as andorinhas, outra vez!
Pegou no livro que tinha trazido. Abriu-o numa página marcada e gasta e leu em voz pausada: “No seu tempo, tudo faz perfeito!”
Agora era o “seu” tempo. Iria usá-lo da melhor maneira. Com roupa colorida, almofadas de cor nos sofás, passeios de bicicleta pela vizinhança. Ela sabia que os vizinhos gostavam dela, embora a criticassem por ser tão barulhenta e fazer...nada!  Mas esse era o seu destino, ser colorida, gostosa, barulhenta e feliz!

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