segunda-feira, 6 de abril de 2015

VAI E NÃO PEQUES MAIS



Ouvia o som das pedras a cair no chão, o arrastar dos pés dos homens que a tinham trazido até ali e de repente, o silêncio. Estava sozinha com o Nazareno. Ele parecia fazer parte de uma outra história que não aquela, de vergonha. Escrevia no pó do caminho. Do lugar onde estava, caída, ofegante, não conseguia entender o que Ele escrevia. Puxou os cabelos molhados das lágrimas, olhou as roupas meio rasgadas que lhe cobriam parte do corpo e em segundos, como num sonho, voltou ao lugar de onde a tinham arrancado.
A sua vida era uma inutilidade. Os seus dias sem esperança, até que encontrara aquele homem que elogiara a beleza das suas mãos e a ajudara, quando colocava o cântaro da água ao ombro. Sedenta de afecto, tentara vê-lo, noutros dias, a outras horas. Perfumava-se quando saía, ela que há tanto tempo deixara de comprar alguma coisa que a tornasse mais mulher. Daí até ao momento em que ficou nos seus braços, foram horas. Sabia o perigo que corria, conhecia a lei que os governava, mas no calor da paixão, tudo fora esquecido. Os encontros tornaram-se mais frenéticos e o medo de ser descoberta ficou em segundo plano. Até àquele dia. A porta abriu-se de repente e arrancaram-na da cama, com mãos violentas. Arrastaram-na pelas ruas da cidade, até ficar ali, em frente do Mestre Nazareno. Ele iria dar a sentença. Esperava a cada instante a dor de uma pedrada sobre o corpo cansado. Nada. O Mestre dissera apenas que aqueles que nunca tivessem pecado, atirassem a primeira pedra.
Uma a uma, elas caíram das mãos dos religiosos, até ficar sozinha com o Mestre. O sangue parecia saltar-lhe das veias da testa, quando Ele a olhou e disse: “Onde estão os teus acusadores? Ninguém te condenou? Eu também não te condeno. Vai e não peques mais”.
Levantou-se, tropeçando no manto sujo. Olhou ainda de soslaio para o homem que lhe falara com perdão e correu. Quando entrou em casa, vazou o último cântaro de água numa tina e lavou-se, até sentir a pele limpa de dor, de vergonha, de pó...de pecado.
Nunca mais iria esquecer a voz do Nazareno. Nunca mais poderia deixar de ver a bondade que havia nas Suas palavras e no Seu olhar. Nunca mais iria pecar.

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