sábado, 2 de maio de 2015

A MINHA MÃE



Enquanto arrumo o quarto, os meus olhos caem mais demoradamente sobre uma foto antiga numa moldura de vidro. Fotografias são imagens estáticas e silenciosas. Mais caladas ainda, quando essas imagens não mudam pois a pessoa nelas retratada já se foi.

Olho o retrato da minha mãe, com os seus lindos olhos azuis que nunca perderam o brilho, a não ser quando os fechou nesta vida e com um sorriso tímido, porque ela não tinha muito jeito para sorrir, ou ficava séria com um ar misterioso ou ria a gargalhadas grandes, intensas e verdadeiras. E ria muito...

Em minutos de contemplação, faço uma análise rápida do que foi a sua vida. Jovem, linda, com uma voz de rouxinol, amando a família, os amigos e acima de tudo a Deus. Mulher, mãe, trazendo à vida filhos, uns atrás dos outros, sem cuidados médicos, sem parteiras especializadas, sem esterilizadores, fraldas descartáveis, depressões pós-parto.

Como é que ela nunca parou para se questionar sobre a sua identidade? Possivelmente porque estava ocupada demais em dar identidade aos filhos e a quem se chegava perto (e não eram assim tão poucos). Como é que ela nunca teve uma baixa auto-estima se a vida lhe negou roupas caras, viagens e pouco estudo? Se alguma vez se queixava, era com uma piada especial que tirava de uma linguagem só dela e que a levantava, sem precisar da ajuda de ninguém, acrescentando aos outros que a rodeavam mais riso e mais luz e estima, e isso, era coisa que ela dava com fartura a quem se chegasse perto. Nos dias da dor, separação, luto e tragédia ficava lá, firme, com a mesma postura calma e coerente. Havia lágrimas, mas de repente limpava-as e levantava-se para animar os desanimados. Não se revoltava contra Deus no dia da adversidade, não questionava a fé nos dias sem sentido, não admitia uma dúvida sequer sobre as promessas de Deus. Quando a doença a obrigou a parar, ainda assim ria dela mesma, fazia piada ao que não entendia e esperava...

Que mundo era o seu, onde as “grandes” questões da vida não se colocavam? Que força a levava a passar uma noite em claro para ter pronta uma roupa “nova” para os filhos? (Os modelos eram transformados, virados do avesso, alindados com outras cores, golas e rendinhas, que ela “desencantava”, sabe-se lá onde).

Como é que as praças, ruas e jardins desta terra, não têm mais estátuas e bustos destes heróis desconhecidos que fizeram do seu mundo um lugar de amor e riso, sacrifício e trabalho? Por isso a fotografia na moldura é tão importante, tão válida e não me importo se não acreditam...viva!



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