quinta-feira, 18 de junho de 2015

O SONHADOR



O rapaz sonhava muito. Sonhos estranhos, impensáveis e incompreensíveis. Os pais lá iam tolerando tudo, ums vezes com um encolher de ombros, outras com uma repreensão mais acesa. Os irmãos, esses odiavam a capacidade que o rapaz tinha de ver mais longe, de conseguir alcançar um mundo onde eles nunca chegariam. Ainda por cima, o pai resolveu dar ao rapaz uma capa especial, colorida, de mangas largas e compridas, coisa que nenhum deles tinha recebido.
Essa raiva acumulada no coração dos irmãos de José, um dia explodiu. O miúdo estava ali, na sua frente, indefeso, inocente, sonhador, a muitos quilómetros de casa e da protecção do pai. Era altura de dar um fim aos sonhos incomodativos do menino.  José sentiu as mãos calosas dos irmãos a empurrá-lo para um buraco fundo. Quando recuperou o equilíbrio, agradeceu porque o poço era seco, mas depois tudo ficou escuro, quando eles taparam a entrada do poço. As horas passavam lentas. Os soluços do rapaz tinham-se transformado em dor profunda pela maldade imensa dos seus irmãos. Ainda ouviu ao longe a voz do mais velho, que discutia as consequências daquele acto sem  sentido.  O silêncio imenso foi quebrado  pelo rodado de carros que passavam. José, lá no fundo, imaginou como seria a caravana. Ouviu os homens a falarem com os seus irmãos, uma longa conversa, feita de silêncios e de pragas à mistura e por fim, tiraram-no de dentro do poço. A luz da tarde feriu-lhe os olhos inchados, mas pouca força lhe restava para defender-se das cordas que agora o amarravam. A caravana pôs-se em marcha outra vez e José foi perdendo de vista os irmãos, a sua terra...A sua linda capa ficara para trás, junto com os seus sonhos.
No Egipto, para onde foi levado, venderem-no para um oficial do faraó. Agora usava um avental de escravo. Fazia o que lhe mandavam. Os sonhos tinham desaparecido, a sua realidade agora era servir com cuidado e dedicação. Crescia e fazia-se um homem, cada dia mais belo e aprumado. Todas as tarefas eram feitas com zelo e excelência e o oficial promoveu-o. Não durou muito tempo, esse intervalo de bem-estar. A mulher de Potifar, cada vez que passava por ele, deitava-lhe um olhar de cobiça e desejo  reprimido. No coração de José, onde havia saudade, mágoa e  dor, havia também lugar para lealdade, verdade e pureza. A mulher engendrou uma história mirabolante de assédio, que levou José para a prisão. Vestiram-no com roupa de prisioneiro. Mais fundo não poderia estar. Mas a graça da sua vida seguia-o, mesmo ali na prisão e dentro de pouco tempo, José  transformou-se no ajudante do carcereiro, com acesso livre aos outros presos.  Uma manhã, dois deles estão cabisbaixos. Tiveram sonhos maus, difíceis de entender. José sente uma dor no peito. Sonhos? Outra vez? Os prisioneiros relatam-lhe o que sonharam e José interpreta o significado daqueles sonhos.  Sonhar, parecia algo tão distante para José. Dentro de poucos dias as portas do cárcere abrem-se para os prisioneiros. José vê-os sair e no seu coração a dor fica maior, mas ela não iria impedi-lo de cumprir as suas obrigações com a mesma dedicação.
(Continua)

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