sábado, 6 de junho de 2015

SAUDADE



A saudade veste-se de cinzento desbotado. Quando a tocamos, está fria, quase húmida. Deve ser das lágrimas que a lavam. Insiste em lembrar nomes e épocas que todos já esqueceram. Alimenta-se de sons semelhantes aos que já foram e de objectos que já deviam há muito estar guardados numa caixa. Fica mais forte quando pega nas molduras onde os sorrisos insistem em não desaparecer. Caminha devagar, recusa os saltos e as corridas que podem torná-la menos dolorosa. Fala baixinho, porque nem todos entendem a sua linguagem. Quando a convidamos a sair, a espairecer, insiste em ficar no mesmo lugar, presa a momentos que já não existem. Tem datas marcadas a vermelho no calendário e nesses dias, fica mais quieta, mais calada...
A saudade é companheira de todos os homens, só que alguns convivem com ela às escondidas e outros não têm onde esconde-la. Uns falam dela como de algo que se perdeu, outros expressam-na numa palavra que não tem tradução. É perda, mas é algo que ficou; é dor, mas pode ser cantada; é lágrimas, mas elas escorrem em silêncio e em momentos sem explicação.  É como se pudesse repetir tudo o que foi, sem o relógio a marcar esses minutos.  É lembrança, memória, recordação, tudo o que o dicionário quiser dizer, sem saber exactamente como defini-la. É saudade.

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