sábado, 19 de setembro de 2015

CARTAS

Usava-se uma caneta ou uma esferográfica que fosse boa e corresse suave sobre o papel. Este podia ser de várias cores, consoante o motivo, a ocasião ou a pessoa a quem era dirigida. Estou a falar de cartas. Havia até uma canção que dizia "cartas de amor, quem as não tem..." Começavam quase todas assim: "que esta carta te encontre de boa saúde" e terminavam mais ou menos com estas palavras: "e despeço-me com muito carinho e amor". Estas eram as cartas escritas à família, aos amigos. Era por elas que encurtávamos as distâncias, era nelas que expunhamos a saudade e a dor da ausência. Serviam para dar notícias sérias, para namorar, para informar do que se passava em casa, quando o outro estava longe. 
Havia quem não soubesse escrever e pedisse ao vizinho ou amigo para lhe escrever uma carta. Era assim uma espécie de "ditado" que o outro colocava fielmente no papel. Havia quem esperasse o carteiro à esquina da rua, só para ter a certeza que ia receber a tão esperada carta.
Com a chegada da tecnologia e da facilidade da comunicação, as cartas foram rareando e perdendo o seu valor. As pessoas passaram a comunicar-se através de outros meios.O papel foi substituido pelo teclado do computador e as canetas foram guardadas numa gaveta. À medida que tudo foi evoluindo, comunicamos agora no momento, ao minuto, conseguimos ver-nos à distância em diminutos ecrans e satisfazemo-nos com mensagens e "aplicações" cada mais mais avançadas. Fantástico o progresso! Mas as minhas netas não saberão o que é ter uma caixa cheia de cartas  de amor, atadas com uma fita perfumada, catalogadas por data. 
As mensagens perdem-se e, mesmo que tenham tudo arquivado numa "pasta", nunca vão sentir o entusiasmo, o coração a bater mais forte, cada vez que chegava uma carta. Não saberão  que até a maneira como era dobrado o papel da carta tinha um significado na linguagem do amor...
O progresso deu-nos muito, mas roubou-nos tanto... E isto não foi há 100 anos, foi só há 25 anos! 
Lembrei-me disto, porque leio muitas vezes as cartas que os apóstolos escreveram à Igreja no principio. Foram guardadas com muito amor, reproduzidas dezenas de vezes para que todas as igrejas pudessem ler, até que chegaram a nós  e muitas delas começam assim: "Desejo  que tudo vá bem contigo..." e terminam com saudações, beijos de carinho e muito amor. 
Não me lembro quando li a última carta que me escreveram, mas devo tê-la guardado, em qualquer gaveta ou caixa. Pode ser que as gerações futuras façam um dia uma exposição dessas relíquias!

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