segunda-feira, 28 de setembro de 2015

TEMPOS...

Não são só as cartas que desapareceram. O progresso trouxe novidade, facilidade e rapidez à nossa vida, mas trouxe também o desaparecimento de coisas pequenas, belas e doces que faziam parte do dia a dia. Abrir de manhã as janelas e as portas para o ar fresco entrar e dar os bons dias à vizinha que, no outro lado da rua, sacudia o tapete do quarto. Esperar o carro do pão, na esquina da rua, porque queremos escolher o que mais nos agrada...
Já não sacudimos tapetes, as janelas ficam fechadas e as portas, essas têm agora umas trancas inventadas em qualquer outra galáxia. O pão daqui a pouco começa a vir embalado e não há mais escolha...
Na minha aldeia ainda consigo perceber que as pessoas são humanas, não os autómatos  que  correm de um lado para o outro, de um transporte para o outro, caras fechadas e olhos tapados com grandes óculos escuros. Por aqui ainda sabemos quando há um casamento e os  funerais são anunciados pelo sino da igreja. Nestas ruas, as mulheres ainda param no caminho para as compras, a conversar sobre a vida alheia, porque ainda não é meio dia! A partir dessa hora, sim, os almoços fervilham, as crianças voltam da escola e nos bancos de pedra, só há homens, em amena cavaqueira, a discutir o último golo do seu clube, à espera do sinal para atacar o almoço. 
Corre tudo assim, mais ou menos calmo. Tão calmo que, quando uma ambulância para à porta de alguém, juntam-se os que podem para ver e dar opiniões. Tão curioso que, quando casa a filha da vizinha tal, o adro da igreja  fica cheio de gente só para ver a noiva. "Via-a nascer", dizem de sorriso atravessado. "Ainda ontem era uma menina, que nosso Senhor a faça feliz!", murmuram umas para as outras. Tudo isto vai desaparecer um dia. Quem sabe, até a aldeia vai ficar deserta. A escola tem menos crianças. As noivas vão morar noutro lado. Quem cá está vai ficando a remoer a saudade do que foi...Tempos.

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