quinta-feira, 30 de abril de 2015

BISNETOS



Estou a viver um momento especial na minha vida. Sou bisavó em duplicado! Um nasceu em Dezembro, o outro nasceu no princípio de Abril.

Olho para eles e sinto uma ternura imensa a invadir-me o coração. Fazem parte da minha construção ainda, mas é como num prédio de vários andares: os mais altos, parecem tão longe! Acho que a vida não vai dar-me a oportunidade de fazer parte do seu percurso, da mesma maneira como fiz das suas mães.E elas, as minhas netas, nem sabem o que é ter e criar um filho...
A sua atenção neste momento está concentrada no que eles dormem, quanto e quando comem, se choram pela cólica ou pelo sono. A criança saiu delas, mas ainda está dependente delas. Durante muitos meses essa ligação vai ser estreita e impossível de comparar com outra qualquer.

Só que os filhos, mal crescem, deixam de ser “nossos”. Essa posse, só é real enquanto os carregamos cá dentro, no aconchego do nosso ventre. Depois, escolhem a posição em que querem dormir, o lugar onde gostam de brincar, os brinquedos que lhes agrada, as comidas preferidas, os amiguinhos...A mãe pensa que ainda “manda”, mas a criaturinha, devagar, vai marcando o seu território pessoal. Um dia descobrimos que o amigo sabe mais que nós, que a menina loira que lhe telefona ocupa os seus pensamentos todo o dia e a mãe...essa deixa de ser a amiga de todas as horas.

O dia pior (e o melhor!) é quando vemos o nosso filho ou a nossa filha, vestidos a rigor para o casamento. Mas afinal tanto trabalho para outro levar o melhor que tínhamos? E o ciclo recomeça. Não tarda aparecem com uma criança nos braços, que vai chamar-nos de avó e nós, enchemos a alma de uma ternura nova, doce e única pensando que poderemos repetir tudo naquele ser, que cresce, rapidamente e que vai lembrar-se e precisar de nós,  apenas em ocasiões especiais.

Estou muito curiosa para saber o que é ser bisavó. A sensação é boa. A experiência é um grande ponto de interrogação.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

DONA PRIMAVERA



O Inverno puxou a gola do sobretudo, enrolou o cachecol à volta do pescoço e foi saindo. Fechou a porta da casa onde vivera longos meses. Sabia que naquela altura haveria outro inquilino e ele, friorento e rabugento, lá teria que procurar outras paragens para viver.
A  Primavera abriu a porta da casa e recuou. O cheiro de uma casa fechada durante muito tempo era difícil de suportar. Abriu as janelas de par em par e foi logo varrendo as cinzas que ainda havia na lareira.
Tirou os cortinados sujos de mofo, limpou os vidros  cheios de camadas de pó e foi ao jardim. No meio de tanta erva, havia amores-perfeitos a nascer e jarros, muitos jarros brancos! Encheu um vaso com eles e despiu o casaco. Tinha que começar a usar roupas mais frescas.   
Foi ao quintal nas traseiras da velha mansão e lá estavam as alfaces, à sua espera. Baixou-se um pouco mais e reparou que as favas já estavam a encher. Afinal o amigo Inverno tinha feito mais do que estar apenas à lareira a aquecer-se.
Depois de uma refeição ligeira, colocou o chapéu com a fita azul e sentou-se ao sol.  Como gostava da casa nesta altura! Derramou o olhar pelos campos ao longe e viu com alegria que o Sábio Pintor já tinha começado o trabalho de colori-los de amarelo e roxo. Ouviu um barulho vindo de uma canto da casa e riu alto. Lá estavam elas, as andorinhas, outra vez!
Pegou no livro que tinha trazido. Abriu-o numa página marcada e gasta e leu em voz pausada: “No seu tempo, tudo faz perfeito!”
Agora era o “seu” tempo. Iria usá-lo da melhor maneira. Com roupa colorida, almofadas de cor nos sofás, passeios de bicicleta pela vizinhança. Ela sabia que os vizinhos gostavam dela, embora a criticassem por ser tão barulhenta e fazer...nada!  Mas esse era o seu destino, ser colorida, gostosa, barulhenta e feliz!

segunda-feira, 6 de abril de 2015

VAI E NÃO PEQUES MAIS



Ouvia o som das pedras a cair no chão, o arrastar dos pés dos homens que a tinham trazido até ali e de repente, o silêncio. Estava sozinha com o Nazareno. Ele parecia fazer parte de uma outra história que não aquela, de vergonha. Escrevia no pó do caminho. Do lugar onde estava, caída, ofegante, não conseguia entender o que Ele escrevia. Puxou os cabelos molhados das lágrimas, olhou as roupas meio rasgadas que lhe cobriam parte do corpo e em segundos, como num sonho, voltou ao lugar de onde a tinham arrancado.
A sua vida era uma inutilidade. Os seus dias sem esperança, até que encontrara aquele homem que elogiara a beleza das suas mãos e a ajudara, quando colocava o cântaro da água ao ombro. Sedenta de afecto, tentara vê-lo, noutros dias, a outras horas. Perfumava-se quando saía, ela que há tanto tempo deixara de comprar alguma coisa que a tornasse mais mulher. Daí até ao momento em que ficou nos seus braços, foram horas. Sabia o perigo que corria, conhecia a lei que os governava, mas no calor da paixão, tudo fora esquecido. Os encontros tornaram-se mais frenéticos e o medo de ser descoberta ficou em segundo plano. Até àquele dia. A porta abriu-se de repente e arrancaram-na da cama, com mãos violentas. Arrastaram-na pelas ruas da cidade, até ficar ali, em frente do Mestre Nazareno. Ele iria dar a sentença. Esperava a cada instante a dor de uma pedrada sobre o corpo cansado. Nada. O Mestre dissera apenas que aqueles que nunca tivessem pecado, atirassem a primeira pedra.
Uma a uma, elas caíram das mãos dos religiosos, até ficar sozinha com o Mestre. O sangue parecia saltar-lhe das veias da testa, quando Ele a olhou e disse: “Onde estão os teus acusadores? Ninguém te condenou? Eu também não te condeno. Vai e não peques mais”.
Levantou-se, tropeçando no manto sujo. Olhou ainda de soslaio para o homem que lhe falara com perdão e correu. Quando entrou em casa, vazou o último cântaro de água numa tina e lavou-se, até sentir a pele limpa de dor, de vergonha, de pó...de pecado.
Nunca mais iria esquecer a voz do Nazareno. Nunca mais poderia deixar de ver a bondade que havia nas Suas palavras e no Seu olhar. Nunca mais iria pecar.