domingo, 24 de maio de 2015

RELÓGIOS



Não há uma explicação para o fascínio que tenho por relógios. Tenho-os em cada divisão da casa, até num lugar onde normalmente ninguém pensaria em colocar um! Gosto deles de todos os feitios e materiais. À entrada da casa tenho um “cuco” que trouxe da Suíça. Esse, imaginem, é o único que está calado. É muito alarde, cada quinze minutos. Sonhava ter um relógio de sala, daqueles grandes, antigos, torneados, com uma caixa com um vidro a esconder o badalo brilhante...
A razão da minha paixão é inexplicável. Mas gosto de andar pela casa e olhar para eles e saber a “quantas ando”. Um dia destes, estava sozinha em casa, na cozinha, a preparar o almoço. Já tinha deitado a vista para o dito relógio para me orientar. Continuei na minha tarefa. O silêncio em casa era total. Minto. O relógio mesmo por cima do lugar onde estava, a cada segundo que passava fazia um som débil, suave, mas certo, rítmico. Olhei-o meio divertida, mas o sorriso foi-me fugindo da boca quando dei conta que aquele som marcava menos tempo na minha vida, que cada pequeno toque, ao fim de sessenta vezes, significava um minuto. De repente apercebi-me do tempo a passar e nesse minuto, imaginei o que acontecia no mundo. Quantas pessoas a morrerem, quantas crianças a nascerem, quantas mulheres a serem traficadas, droga a ser negociada, dinheiro sujo a ser lavado, decisões erradas a serem feitas, orações a subirem a Deus, suspiros de amor a encherem o peito de alguém...
Pensei ainda o que aconteceria se todos os relógios do mundo decidissem parar ao mesmo tempo...caos total. Fiquei ali a olhar o meu relógio que, sem dó, continuava a dizer-me que um minuto tinha passado na minha vida. Ao fim do dia, somo todos esses minutos transformados em horas e tenho menos um dia. As pessoas não se desgastam a pensar em relógios, nem em horas a passar, mas notam as rugas a aparecer, a fraqueza a invadir o corpo, a elasticidade dos movimentos a ser cada vez mais acentuada. 
O mais curioso é que foi Deus que fez o tempo. Ele, que é Eterno, sem princípio nem fim. E na Sua imensa sabedoria e omnisciência marca tempos em nossa vida, para o plano que tem para nós.
Olhei pela última vez para o relógio na parede, naquela manhã e só consegui dizer meio a rir: És implacável, tempo. Mas ficas a saber que o MEU tempo, está nas Suas mãos!

quarta-feira, 6 de maio de 2015

BIOGRAFIA



A guerra a acabar e eu a nascer! Meu pai contava que havia muita pobreza e fome, mas olhe que a mim, criancinha que berrava sem parar, nunca faltou comidinha.
Cresci para comandar mais 5 irmãos, que vieram logo atrás de mim com poucas diferenças. Cada um deles com dons e capacidades únicas, faziam de nós uma família especial. Num ambiente de grandes necessidades, aprendemos a apreciar as coisas pequenas a que os outros nem davam valor. Quer que eu conte um episódio para entender melhor? Ora aí vai: Os meus pais não tinham dinheiro para comprar sapatos para todos no Natal. Era importante ir à festinha da igreja, cantar e louvar, de sapato novo... Pois naquele ano, um amigo veio da Suécia e resolveu pegar no rebanho dos seis maninhos e comprar sapatos para todos! A nossa mãe foi aconchegar-nos à noite, mas entre os lençóis, encostados ao rosto de cada um, havia um par de sapatos novos.

Cresci amando a igreja de Jesus Cristo. Aprendi o dom do perdão depois da queda, o choro da alegria depois de uma conversão milagrosa.
Casei com um homem maravilhoso. Era o mais bonito do pedaço, mas era meu! Passados 50 anos ainda sou dele e ele ainda é meu! Dos dois rebentos que Deus nos deu, nasceram as 4 mais lindas meninas. Quem não acredita só tem que procurar por aí umas fotos delas.
Sirvo um Deus que apesar da minha pequenez (1.56m) e de pertencer a um Portugal pequeno e aos olhos de muitos insignificante, no Seu divino conhecimento resolveu enviar este pequeno embrulho pelo mundo fora, ensinando a Sua Palavra, empurrando todos os que desejam para os braços de um Pai que nunca desiste e que tem bitolas diferentes do resto do mundo.

Amo a Deus mas amo as pessoas. Não sei nada, mas Ele ensina-me tudo. A minha vida dava um belo romance, mas não vou escrevê-la. Já há muitos por aí...



sábado, 2 de maio de 2015

A MINHA MÃE



Enquanto arrumo o quarto, os meus olhos caem mais demoradamente sobre uma foto antiga numa moldura de vidro. Fotografias são imagens estáticas e silenciosas. Mais caladas ainda, quando essas imagens não mudam pois a pessoa nelas retratada já se foi.

Olho o retrato da minha mãe, com os seus lindos olhos azuis que nunca perderam o brilho, a não ser quando os fechou nesta vida e com um sorriso tímido, porque ela não tinha muito jeito para sorrir, ou ficava séria com um ar misterioso ou ria a gargalhadas grandes, intensas e verdadeiras. E ria muito...

Em minutos de contemplação, faço uma análise rápida do que foi a sua vida. Jovem, linda, com uma voz de rouxinol, amando a família, os amigos e acima de tudo a Deus. Mulher, mãe, trazendo à vida filhos, uns atrás dos outros, sem cuidados médicos, sem parteiras especializadas, sem esterilizadores, fraldas descartáveis, depressões pós-parto.

Como é que ela nunca parou para se questionar sobre a sua identidade? Possivelmente porque estava ocupada demais em dar identidade aos filhos e a quem se chegava perto (e não eram assim tão poucos). Como é que ela nunca teve uma baixa auto-estima se a vida lhe negou roupas caras, viagens e pouco estudo? Se alguma vez se queixava, era com uma piada especial que tirava de uma linguagem só dela e que a levantava, sem precisar da ajuda de ninguém, acrescentando aos outros que a rodeavam mais riso e mais luz e estima, e isso, era coisa que ela dava com fartura a quem se chegasse perto. Nos dias da dor, separação, luto e tragédia ficava lá, firme, com a mesma postura calma e coerente. Havia lágrimas, mas de repente limpava-as e levantava-se para animar os desanimados. Não se revoltava contra Deus no dia da adversidade, não questionava a fé nos dias sem sentido, não admitia uma dúvida sequer sobre as promessas de Deus. Quando a doença a obrigou a parar, ainda assim ria dela mesma, fazia piada ao que não entendia e esperava...

Que mundo era o seu, onde as “grandes” questões da vida não se colocavam? Que força a levava a passar uma noite em claro para ter pronta uma roupa “nova” para os filhos? (Os modelos eram transformados, virados do avesso, alindados com outras cores, golas e rendinhas, que ela “desencantava”, sabe-se lá onde).

Como é que as praças, ruas e jardins desta terra, não têm mais estátuas e bustos destes heróis desconhecidos que fizeram do seu mundo um lugar de amor e riso, sacrifício e trabalho? Por isso a fotografia na moldura é tão importante, tão válida e não me importo se não acreditam...viva!