quarta-feira, 21 de outubro de 2015

MEMÓRIA

As datas e acontecimentos importantes da nossa vida sucedem-se: aniversários, encontros com amigos especiais, casamentos, palestras, conferências, doenças, partidas e chegadas e até funerais. Todos eles são marcos de algo que faz parte de nós, que entram na nossa memória e encontram lá um lugar, umas vezes mais escondido, outras nem tanto. 
Algumas destas lembranças, enfiam-se em lugares tão complicados, que por mais que as procuremos, é preciso desarrumar umas, empurrar outras tantas, até as encontrarmos.
Mas hoje, uma dessas,  tão longínqua, enterrada nos vãos da minha memória, sem que o desejasse, teimou em querer aparecer. Não sei porque apareceu. Quando  consegui vê-la à claridade e ao olhá-la bem de frente, não gostei. Nunca foi bonita, diria até que era bem feia, mas hoje, passados estes anos todos, está com uma cor terrível, com uns tiques estranhos e acima de tudo cheira a mofo. Tenho alergia a mofo. Mas ela está na minha frente, com um riso de ironia e não sei como ver-me livre dela.
A nossa mente prega-nos partidas, mas a Palavra de Deus dá-nos repostas. Olhei a dita naqueles olhos vidrados e disse-lhe com voz firme: "Quero trazer à lembrança o que me traz esperança! A misericórdia do Senhor é para sempre, grande é a Sua fidelidade" . Mal acabei de falar, já ela se sumia, mais amarelada, mais vacilante...Não sei se encontrou algum buraco onde se meter, mas se voltar, leva a mesma resposta naquela cara deslavada e sem cor, até perder completamente a coragem de sequer levantar cabeça!

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

A SAMARITANA


Quem contou a história não lhe deu um nome. Não sabia, ou achou que não era importante. Ela era apenas uma mulher de Samaria, zona geográfica olhada com desprezo pelos judeus. Nunca ninguém se lembraria de falar sobre ela. A sua origem era obscura, a sua vida igual à de tantas outras da cidade. A diferença era a dor que carregava, bem fundo, no coração.
Quando a hora do calor apertou, pegou no cântaro, colocou-o à cintura e saiu. O sol castigava tudo onde tocava. Era a hora mais dura do dia e por isso, as ruas estavam desertas. Caminhou devagar até ao poço de Jacó. Ao longe pareceu-lhe ver a figura de um homem junto à fonte. Quando estava mais perto, apercebeu-se que era um judeu, pelas roupas e pelo corte da barba. Nervosamente pousou o cântaro. Apanhou a lata com que tiravam a água do poço, desceu-a devagar, em gestos calculados e quando ficou cheia, puxou-a e começou a encher a bilha. O homem levantou a cabeça e interrompeu-lhe o gesto. “Dá-me de beber!” O coração da mulher disparou. Um homem judeu a pedir-lhe água...Tentou fugir ao pedido, mas Ele insistia e falava agora de algo que ela não entendia. À medida que a voz profunda do homem se fazia ouvir no silêncio do descampado, o coração da samaritana parecia querer saltar-lhe do peito. A sua necessidade de água poderia ser suprida por artes mágicas, o homem dizia-lhe que tinha uma água que não acabava nunca. Era uma oferta cheia de atractivo. Não teria que vir mais ao poço, mas seria verdade? E de repente, do nada, Ele diz:”Vai chamar o teu marido!” A dor escondida, amarrada no mais profundo da sua alma, subiu-lhe na garganta. Em voz quase inaudível respondeu que não tinha marido. Afinal, não conhecia aquele homem, não precisava de desventrar a sua frustração de ter tido um marido atrás de outro. Os rostos daqueles homens passaram em segundos fugazes pela lembrança da sua alma. Cada um deles tinha trazido à sua vida uma dor sem limite, uma sede de amor insatisfeita, uma perda de dignidade, vergonha que escondia agora nos braços de um outro, que afinal não era seu marido. O desconhecido junto à fonte insistia com voz mareada de ternura, de um som que ela nunca ouvira antes, de um cuidado que nunca ninguém lhe prestara: “Disseste bem, ele não é teu marido”.
A samaritana puxou o balde outra vez. Ele tinha-se calado, mas ela não conseguia. Este homem deveria ser um profeta, pois conhecia a sua vida! Já agora queria saber que tipo de profeta era ele, para tirar tempo da sua jornada para falar com uma mulher. A conversa subiu de tom, à medida que Ele respondia às suas questões sobre religião. 
Silêncio, outra vez. Escassos segundos apenas, antes de  ouvi-Lo dizer: “EU SOU o Messias, eu mesmo, que falo contigo!” Encostou o cântaro cheio de água, levantou os olhos para o homem à sua frente  e reparou que outros se aproximavam. Era a deixa para correr dali e ir à cidade contar a quem quisesse ouvir, que um homem lhe tinha dito tudo sobre a sua vida, sem ser abusivo, sem olhá-la com desprezo, sem palavras de condenação. Dentro dela havia como que um rio a correr, sentia-se lavada, purificada. Tal como Ele dissera, a alegria era como uma fonte a jorrar. Esqueceu a água que ficara junto ao poço. Esqueceu os anos de tortura e culpa por ter vivido à margem da lei. Nos seus ouvidos e no seu coração havia umas palavras que não paravam de ecoar como se fossem sinos em dia de festa: “Sou EU mesmo, que falo contigo!”
Junto ao poço de Sicar, o Messias olhou para a comida que os discípulos tinham ido comprar e  num tom de voz que eles sabiam não precisar de resposta disse: “Estou saciado. Já comi o que tinha a comer”.
Na alma da samaritana  a água viva saltava para a vida eterna. No coração do Messias não havia fome, estava saciado de um pão de obediência ao desígnio do Pai. 
O sol escondeu-se naquela tarde pintando o céu de cores de esperança. Em Sícar, junto ao poço de Jacó.




quinta-feira, 8 de outubro de 2015

COMPARAÇÕES

Não há como não fazer comparações. Mesmo sem querer, elas saltam diante dos nossos olhos. E começam sempre por algo parecido com isto : Como é que tem e eu não tenho? Por que pode e eu não posso? O que fiz tão errado para o resultado ser este?
Podemos chamar o que quisermos a estas reflexões, que vêm sempre carregadas de dor, de impotência, de um sentimento de alguma perda e de um objectivo que não foi atingido.Mas o que é certo é que elas aparecem e nos espreitam de vez em quando...  Tenho amigos que dizem:" não lamento nada do que fiz na minha vida!" Outros ainda vão mais longe: "Se vivesse outra vida, faria tudo igual!"
Concluo eu que devo ser uma raridade no meio de uma geração que se sente tão realizada. Pois eu não sou assim. Queria ter feito mais, gostaria de ter sido mais bondosa, melhor esposa, melhor mãe.  Esta última então, persegue-me. O que poderia ter feito melhor? Amado mais? Corrigido mais? Ter ficado mais atenta? Os filhos crescem, seguem a sua vida, fazem escolhas e nós, como treinadores no banco, definimos onde erramos, o que perdemos e por que falhamos. O jogo desenrola-se na nossa frente e por mais que esbracejemos, eles defendem-se como podem e atacam  para se defenderem. 
Às vezes pergunto-me por que não ficam sempre com os olhos pregados em nós, ouvindo, imitando...Acho que a razão é simples: eles próprios descobrem que também nós fizemos jogadas perigosas, inaceitáveis e que se estivéssemos ainda em  campo, não saberíamos  entender a estratégia do adversário.
Não chega encolher os ombros e seguir em frente. Para mim não é suficiente. 
Ter um problema existencial desta natureza na minha idade, pode ser perigoso. O melhor é fechar a loja por hoje e dizer como todo o mundo: "está tudo bem!"