sábado, 15 de outubro de 2016

ESTAMOS VIVOS

A vida é salpicada de dor.
Possivelmente seria mais correcto dizer que ela é dor, salpicada de momentos de alegria...
Hoje estava a ouvir uma amiga contar das suas, tão grandes, tão estranhas, tão insolúveis. Comparei a minha existência com a sua e encolhi-me de gratidão.
De  qualquer modo, todos temos momentos de aflição, angústia, medo, perplexidade. Como encaramos esses momentos é que faz a diferença.
Ontem falei com uma senhora com Alzheimer. Já não a via há bastante tempo e pensei que ela teria um discurso diferente. Notei como se esforçava para lembrar-se das pessoas à sua volta e como tentava que tudo fosse perfeitamente normal, até ao momento em que deixou cair a chávena que tinha na mão. Acontece a  qualquer pessoa, todos os dias se parte loiça, mas para ela foi como se aquele percalço a avisasse, de tal maneira que disse logo: "Não devia ter saído de casa", ao que toda a gente respondeu que  aquilo não tinha importância, que acontecia a todos os mortais, mas ela foi ficando mais e mais recolhida, embora o sorriso lindo que sempre emoldurou o seu rosto, permanecesse.
Queixo-me de tantas dores. Tenho dias em que são tão difíceis de suportar. Mas o que é isso, comparado com uma mente que se vai fechando, até daqui a uns meses já nem saber quem são os filhos, nem perceber  o que veste ou se precisa de tomar banho?
A maneira melhor de encarar qualquer dor é agradecendo. Agradecer porque conseguimos dar-lhe nome, porque temos a noção onde começou e onde pode terminar, ser grata porque apesar de tudo, sentimos o carinho na voz de alguém, discernimos amor nos olhos de outro alguém, numa palavra - vivemos!

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