quarta-feira, 20 de abril de 2016

O CAMINHO

À medida que os anos passam e a vida vai-se esvaindo entre os intervalos da minha loucura, de repente, descubro que a estrada vai ficando mais estreita. As amizades ficam mais escassas, a saúde mais curta, as capacidades menos reconhecidas, a saudade mais profunda, a paixão difícil de acender, o mundo mais escuro, a esperança mais ténue, os livros mais relidos, as fotos mais gastas, os olhos mais focados, o coração batendo num ritmo mais lento...As montanhas parecem mais altas, os mares mais profundos, as pontes mais distantes, as praias mais inacessíveis, as canções cantadas a medo, as lágrimas mais difíceis de saltar... 
A estrada é agora mais estreita e no entanto, lá ao fundo, há uma luz que nunca vira antes, quando tudo era azáfama, ardor, força e presença dos que amo. O caminho fica mais íngreme e tenho que parar de vez em quando, mesmo por que, numa curva inesperada, a paisagem é deslumbrante. A luz fica mais próxima. Agora a estrada é um carreiro no meio de um bosque. Só tem lugar para uma pessoa. Daqui para a frente não há como me perder; os atalhos acabaram, os sinais ao longo do caminho desapareceram, o silêncio é só quebrado pelo chilrear dos pássaros e pela minha respiração. Mas não há tristeza. É como se eu soubesse há muito tempo, que este caminho só é meu, que não tenho que partilhá-lo com mais ninguém, que as águas que correm no rio ao lado são só minhas e que as flores que crescem na beira do carreiro estão lá por minha causa. 
A luz é mais forte agora. Mas mesmo sem escolher, sinto que alguém resolveu seguir o mesmo caminho. Os passos na vereda ficam mais próximos e o desconhecido fala comigo sem pedir licença. Invade os meus pensamentos, põe a nu o meu coração, penetra a minha mente com palavras que me seguram e, de repente, dou comigo a pedir-lhe: "Fica comigo, porque é tarde e o dia já declina"... Afinal, a vereda dá para caminharmos os dois, juntos, para a luz...

quinta-feira, 14 de abril de 2016

NORMAL

Gostava de escrever sobre coisas extraordinárias, lindas, deslumbrantes, únicas. Gostava muito. Mas a vida não as encontra a cada esquina. Quando aparecem, até nos faltam as palavras, de tão raras que são. E limitamo-nos a gozá-las e a não querer que ninguém nos tire nada do que sentimos. Fora desses acontecimentos esporádicos e raros, a vida rola normal. 
E estive a pensar, o que será isto de "normal"? Levantamo-nos e tomamos o mesmo pequeno almoço; pegamos na carteira e quando chegamos ao carro lembramos que deveríamos ter trazido um saco com algo necessário. Chegamos ao trabalho e descobrimos que uma colega amiga, não está. Procuramos saber o que se passa e alguém, com os olhos baixos, diz que o marido da nossa  colega saiu de casa, para ir viver com outra mulher. Sentimo-nos impotentes, cheias de raiva. Já tinha acontecido com uma outra, no mês passado. E damos voltas à cabeça como é que aquela pobre pode criar um filho pequeno, com deficiência, sozinha, sem amparo. E falamos com os nossos botões: "isto não é normal!".
É isso, eu prefiro viver a rotina do normal, salpicada aqui e acolá por algo mais colorido, mas que me traga consistência, segurança, companheirismo, carinho. Ainda não entendi muito bem o que se passa com o ser humano que parece nada o satisfazer, que não é capaz de se desdobrar um pouco mais pelos outros, que olha constantemente para o seu umbigo, que não se dá, que só quer receber, que avidamente procura os tais momentos deslumbrantes, sem perceber que desde o princípio do tempo a água dos rios corre para o mar, que as andorinhas voltam em cada Primavera, que os figos amadurecem no Verão, sempre, todos os anos. 
Oh, se soubéssemos apreciar com olhos "deslumbrados" a beleza da rotina de ter um filho a estudar para um exame e vê-lo chegar a casa com uma nota que dá para passar...se nos alegrássemos porque o bechamel desta vez saiu perfeito e a família vai adorar...se o encanto do primeiro amor nos olhos da nossa menina nos dissesse que está tudo bem, que é assim mesmo, que é a lei natural da vida, que eles nascem, crescem e fão reproduzir-se...
Normal? Pode ser, mas muito do que cabe neste capítulo, continua a ser extraordinário, deslumbrante e único. Depende do olhar com que o vemos.