sábado, 2 de julho de 2016

A DOR

Ela persegue-me, incomoda-me, fere-me, ri na minha cara. A dor. É feia, bafienta e traz com ela um arsenal de armas pequenas e grandes que usa para me ferir, magoar e impedir a caminhada. Já tentei mandá-la embora com boas palavras, sem resultado. Já gritei na cara dela e riu baixinho. Umas vezes finjo que não está lá, que a estrada está livre, outras ignoro-a, viro-lhe as costas, finjo que não existe. Mas sinto-a. Os passos são fortes, o cheiro é estranho.
Um dia destes resolvi olhá-la de frente. É magra, rugosa, de tão antiga que é. Reparei que tinha umas roupas que deve ter roubado Do meu guarda-fato. Mas de sujas que estavam, quase sem cor, tive dificuldade em dizer o que eram. Aliás, tudo nela é sem cor, ou antes, é de uma cor cinzenta, desbotada.
Segue-me para as festas, para as férias, para a praia. Tento em vão expulsá-la de casa, mas acho que tem uma capacidade de entrar pelas frestas das portas. Deito-me à noite com a esperança que, enquanto durmo, ela desapareça, porque não há nada que possa fazer. Mas mal abro os olhos, durante a noite, de madrugada, de manhã, vejo-a aninhada no tapete do quarto, com um dos olhos abertos, pronta para atacar-me.De vez em quando, tenho a sensação que se foi embora,  mas depois, alguém fala o nome dela, menciona-a sem entender o quanto me magoa.
O único lugar onde não é entra, é numa zona de sombra fresca, com riachos a cantar e chilreios de pássaros exóticos. Chama-se o "esconderijo do Altíssimo". Não a deixam entrar. Fica à porta, amuada, à espera. Lá dentro, refaço as forças, respiro o ar puro da sombra divina e descanso de tanto ser perseguida.
Acho que se um dia ela desaparecer, de vez, até eu própria vou achar estranho...